Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Causas - e consequências

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2017-06-23 às 06h00

Margarida Proença

Durante as semanas passadas, enquanto metade do país discutia as vantagens e desvantagens, méritos e deméritos da localização que deveria constar da proposta de candidatura de Portugal à futura localização da Agência Europeia do Medicamento, enquanto de digladiavam argumentos sobre descentralização, fui-me sentindo cada vez mais desconfortável. Lembrava, quase instintivamente, uma história já muito antiga, que tinha vivenciado numa época em que vivi nos Estados Unidos, e em que dei por mim, quase à flor da pele, a sentir-me portuguesa, num tom geral de críticas sobranceiras, ainda que aqui e ali corretas.

A forma como se ia discutindo a descentralização remetia para um enquadramento Lisboa - Porto, como se tudo fora resolvido nesse contexto. E eu que nasci, cresci e estudei na Beira Interior, que fui acompanhando estudos e mais estudos sobre a raia, a desertificação e o envelhecimento, descobria-me cada vez nessa condição, certa de que o fenómeno da descentralização não se ultrapassa de forma alguma com o acréscimo de importância de um centro no litoral por contrapartida a um outro centro no litoral. Só uma mudança de direção no tempo-espaço poderá permitir realmente uma mudança.

Ainda que com naturais desacordos, típicos da academia, existe consenso em alguma ideias - as empresas preferem concentrar-se nos mesmos espaços, em vez de se dispersarem em localizações dispersas, porque assim conseguirão obter vantagens decorrentes daquilo a que os economistas chamam de economias de escala. A aglomeração pode não ser importante, se as empresas preferirem estar localizadas junto dos consumidores, ou perto do mercado específico para a variedade que produzem. Em qualquer dos casos, os custos de transporte e de comunicações são fundamentais para a decisão de localização. E a existência, ou não, de recursos humanos com as competências requeridas, entre outros fatores, num processo em que a história é um dos dados num jogo que já começou há muito, e que procede de forma cumulativa.

Conheço bem demais aquelas estradas do Pinhal Interior, de enorme beleza, num ambiente de quietude e tradição que vai sendo já perdido. Curva contra curva, floresta constante ao longo da estrada, quilómetros sem que se veja alguém, colinas suaves em que faz bem respirar o cheiro do pinheiro e do eucalipto. A requalificação das aldeias de xisto permitiu trazer turistas e diversificar um pouco a base produtiva, valorizar o património, criar infraestruturas de lazer e dinamizar artes e ofícios tradicionais, sem dúvida. Mas são concelhos com enormes perdas populacionais, com índices de envelhecimento brutais, com taxas de escolarização ainda baixas, com elevadas taxas de abandono escolar, tal como ocorre em outros concelhos do país, no interior. Dizem que os economistas não são românticos…

Concelhos marcados pela atomização da propriedade rural, que vão plantando e sobrevivendo, tentando manter lógicas de mercado no enquadramento do que sempre fizeram, num mundo que já mudou. Não vale a pena chorar que os apoios financeiros vão para os grandes proprietários; há décadas que se sabe que a política agrícola comunitária privilegia a produtividade e os resultados, e que tudo isso tem a ver com a mecanização e com dimensão ótima. Mas as pessoas não querem vender, as câmaras têm medo de mexer nesses problemas, os governos têm medo de regular determinados mercados dadas as implicações sociais e políticas. E a cultura perpassa tudo.

É mais fácil culpabilizar - os outros, os partidos, os governos, as empresas de celulose, os incendiários , as forças de segurança, os bombeiros, as políticas de segurança , os sistemas de comunicações, a dificuldade de tomar decisões rápidas e acertadas em condições extremas, etc. E a natureza, que não perdoa, que é oportunista e violenta, súbita e avassaladora. Já a vi atuar dessa forma, e ficou-me um respeito imenso , pontuado por um medo semelhante.

Há muita coisa que pode ser feita ao nível individual. As populações rurais mais tradicionais não têm uma perceção clara da necessidade de limpar os terrenos; não basta palavras, é necessário regulamentar. Os padres , os professores têm um papel a desempenhar. Explicar porquê, quando e como.
A obrigatoriedade de criar uma inspeção. Incentivar a associação de esforços, da prática da cooperação, da capacidade da sociedade civil para encontrar soluções. Sem medo de definir - e implementar - sanções. Mostrar as consequências das escolhas individuais.

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