Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Cassilda a destempo

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Conta o Leitor

2014-07-24 às 06h00

Escritor

As chinelas arrastavam-se no soalho, errantes, a tropeçarem aqui e acolá e sempre em nada. Retardavam-se. Tropeçavam, as trôpegas, e riam baixinho desgrenhado riso quase a parecer que riam desse senhor dos senhores, rei e máquina a um só tempo, e sua dama e rainha, a heteroinfluência dos fados.
Demoravam-se estropiadas, tal qual restos cansados de tropas morrentes, ou quais loucos que, de longamente manietados, se vestiam já de desistentes para, então, serem largados à imensidão do Universo.
Sóis ardentes implodindo. Assim as chinelas. Talvez, mais, a dona delas. Ah, a dona delas... Certamente, a dona delas... Pois, então... Alma e sangue e vida em ela.
Compartilhando da secreta clareza dos dados por insanos - que só eles sabem e partilham em segredo das verdades profundas que, neste mundo, mais ninguém entende por imerso que se julga em outras mais racionais porque em tudo ou nada menos evidentes, razão ainda porque a alguns o rubor lhes assomava às faces por, cruzados ocasionais olhares, lhes ter envergonhado previamente a consciência -, cambaleante, tropeçava, arrastando o corpo descomposto, qual soldado ferido, regressado amparado só já aparentemente vivo.
Assim a dona delas. Certamente, a dona delas...
Cassilda!
Ora, ficara sem nada que não fosse mesmo seu a dona de tais chinelas. Perdera, por assim dizer, e de tal modo, a propriedade plena das suas recordações e percursos que, de tão devassados estes e incompreendidas aquelas, passaram a faltar-lhe as palavras, que o léxico, assim de tão esmiuçado, esmoreceu, empobreceu, mirrou. Não que houvesse muita gente com quem pudesse comunicar e, talvez, também fora por isso, verdade seja dita; mas, e em todo o caso, as palavras, todas as palavras, sempre fazem parte do pensamento articulado mesmo quando se sabe nada; pois, as dela, digo-vos eu, roubaram-lhas. Expropriaram-lhas. Esventraram-na delas, ao ensaiarem a sua transformação na magnificência das mentes bem educadas, acadimadas, perfeitamente disciplinadas, rigorosamente ensinadas, corrigidas, aperfeiçoadas; e por entre estas e outras doutas ideias sabiamente ministradas e mais teorias desencontradas, desavençadas, e outras diversas sapiências, além das medicinais, extraíram-lhe a razão, pela simples impossibilidade de lhe extraírem as raízes, por já desarrazoada em gramagem, e consagraram-na no altar das confissões. Razão, ainda, porque a alguns o rubor assomava às faces logo depois que lhes envergonhava a consciência.
Sóis ardentes implodindo. Cassilda!
Metodicamente, foram ensaiando formas e fórmulas. Primeiro, pesaram-se os prós, depois os contras, alteraram-se grafias e, na tentativa de se recauchutarem as mentes, na mesma continuidade, afinal, do desrespeito pelos equilíbrios naturais dos corpos e seus imiscíveis fluidos, apuraram-se os resultados em novos experimentos de já distintos e mui novíssimos equilíbrios, estes assaz mais bem pesados, cuidadosamente medidos, chupados, escorridos, destilados, aferidos em delicados argaus de severos laboratórios, portentosamente equipados de argênteos instrumentos, irrepreensivelmente esterilizados, e dos mais díspares e engenhosos maquinismos; assim, obtidos os novos equilíbrios, verdadeiramente reequilibrados, pela conjugação, em novas equações, do já verdadeiramente novo e da excelência!
Excelência... Excelência...
Cassilda!
Demorava-se. Arrastava os pés. Mal calçadas chinelas. Tropeçava em nada, aqui, ali e acolá. Passado e vida e alma em ela, esquadrinhados...Meu e dela. Nosso mor desgosto! Para! Anda! Velha que te fizeram... Raíz. Meu tronco tremente, infirme.
Para...
Cassilda! Ai Minha mor, minha dor... Malditas chinelas! Mal calçadas chinelas ... Agora é de vez... Um, dois e... Cassilda!...
Malditas, mal calçadas chinelas. - Mal calçadas, Cassilda!... Cassilda a destempo. Cassilda sempre a destempo.
Por isso que, a alguns, o rubor teima em assomar às faces logo que, cruzados os olhares, lhes envergonha a consciência.

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