Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Casas velhas… Contos de Agora, por João Castelo Branco

Caminho perigoso

Conta o Leitor

2011-07-10 às 06h00

Escritor

O percurso ruidoso e arrastado daquela montanha de ferro rolante sentia-se a muitos metros de distância do casario contíguo e antigo que nos conduzia até à baixa da cidade.
Na verdade, os moradores da rua de S.Julião desde sempre conviveram com as trepidações do eléctrico e a algazarra do madrugador mercado que ecoava pelo silêncio da calçada. A vozearia de vendedeiras pendurada e os estonteantes arrumos de caixotes, deixara de perturbar os sonos mais sensíveis.

Habituados à azáfama da vida citadina e ao quotidiano de uma zona histórica da cidade, ali se acoitaram ao longo da primeira metade do século vinte, pessoas atraídas por rendas mais baratas e por empregos mais urbanos e industrializados.
A localização central e secular daquela zona da urbe, fixara famílias, estabelecera laços, vira crescer crianças, enterrara os seus velhos.

Lá se estabelecera o Hermitério latoeiro, a Dona Amélia merceeira, o senhor Ovídeo tasqueiro, a Marília cabeleireira, o senhor Fontes alfaiate, e a senhora dona Isilda da classe, casa de artigos de decoração…e muitos outros que a memória do tempo diluiu.
- Lá vai o senhor Guerra! - Solicitador de profissão, pasta de couro preta, óculos escuros escondendo o olhar de águia. Astuto, acutilante perspicaz.
- Muito trabalho senhor Guerra ?
- Uff! Vai por lá uma papelada!
Já passou o senhor Mendes alfaiate. Passo ligeiro e ar atarefado.
- Porra p’ra isto! Porra p’ra isto! - Esse fato nunca mais está pronto Manuela?!

As manas Mendes, de ar compenetrado, lentes fortes de miopia, quase tão fortes como as que analisavam as pulseiras, os anéis e os filigranas em ouro. Passo lento, calculado, olhar discreto e modos contidos, educados.

Era um dos edifícios centenários que tinha apenas cinco janelas fronteiras. O primeiro andar era habitado pela Clementina, uma viúva solitária e resmungona, que nos vira a todos crescer.
O seu andar tinha uma única janela. Era singular, pois não tinha a forma de guilhotina. Por uma porta adjacente entravam os Martins e os Ferreiras, as duas famílias que ali coabitavam.
Recuemos no tempo. No segundo andar, o senhor Martins trabalha até tarde deixando descair um comprido rolo de infindáveis contas.

Família numerosa, muitos filhos para sustentar…ralações, inquietações.
Muito trabalho no banco, coisas acumuladas…. - Farto de avisar… farto de avisar… trapalhadas, não é comigo!
- Qualquer dia rebenta a bomba! Ai rebenta! - desabafava.
Casa de fronte, janelas franqueadas de par em par, um académico já ligeiramente curvado pelo tempo, fumador inveterado, roupão e chinelas.
- Bom dia Doutor Saul! - Era vê-lo na sua dignidade de septuagenário à janela. Cabelos de uma alvura respeitável na sua condição de velho explicador de física e química.
- Estes serão os últimos! - referia-se aos alunos que preparava para a universidade e aos anos que comemoraria. - mas não eram…ainda não.

Conheci-a ainda criança. Uns anitos mais velha do que eu, talvez cinco não mais. Teresa de nome, Ferreira de apelido.
Um palminho de cara. Olhos castanhos, tez trigueira e um corpo esguio magro e nervoso. Uma locomoção um pouco afectada do lado esquerdo… uns murmúrios solitários, acanhamentos exacerbados medos imaginários …
- A Teresa tem qualquer coisa, sabem. A Dona Maria de Lurdes já disse “se a escola fosse Geografia e História estávamos bem. O pior era a aritmética, os problemas, a divisão de orações… aí coitadita é muito fraquinha… muito” - dizia a Palmira Martins, costureira, referindo-se à filha e reproduzindo as palavras da professora.

E viera o tempo da adolescência. Sem namoros, grupos de amigos, tentativas frustradas de emprego, consultas no Hospital Psiquiátrico Distrital… electrocefalogramas
- O atestado diz lá mesmo : “ A Teresa é possuidora de uma incapacidade para o exercício de trabalho ordenado e coordenado… “
- exclamava com tristeza o Ferreira canalizador.
- Sabe doutor Saul, sempre foi uma miúda mole, sem vida, sem rasgo, sem amaranho de mãos . Sei lá… não é como o que a gente vê para aí: rapazes e raparigas novas cheias de vida de rasgo…tratam da sua vida…sei lá…
- O pior vai ser quando a gente fechar os olhos!
E ficara Teresa contemplando e acompanhando o crescer de seu irmão Mário que, chegado à casa dos vinte e muitos, abandonara os estudos e partira para a Suíça em busca de prosperidade.

E vira os amigos de infância partir, deixar a cidade, casar e divorciar-se.
Apaixonar-se e desencantar-se. Ter filhos e acabar os estudos, arranjar emprego, militar num partido político, formar uma banda, estabelecer-se por conta própria, dizer mal da cidade natal e partir para Lisboa, para o Porto, para o Algarve para o estrangeiro…

Crescera amputada de futuro, gravitando nas imediações do seu habitáculo, vigiada pelos constantes sobressaltos da Palmira costureira e das angústias do Ferreira canalizador.
Por vezes era acometida por um impulso descobridor, por uma ânsia de conhecer e partia a pé indagando por caminhos, explorando ruas e testando os seus limites físicos ao palmilhar a pé quilómetros e quilómetros.

De quando em quando, o sobressalto era inevitável e os Ferreiras palmilhavam as artérias da cidade em busca da filha que acabava por surgir cansada, mas extasiada pelas suas descobertas. Admirada pelos lugares e para onde iam dar, as pessoas com quem falava, as profissões que desempenhavam.

E o Ferreira, reencontrando-a, deixava-se invadir por um medo atroz. Vociferava ameaças de internamento psiquiátrico que nunca concretizava. Amaldiçoava a sorte que Deus lhe dera e acabava resignado, encolhendo os ombros, escutando contares singelos acerca de lugares recônditos, paradisíacos, com quintas, criadas de avental, mordomias e riquezas inverosímeis.
O tempo fluíra inexorável e Teresa tornara-se conhecida na cidade As colegas de escola recordavam-se dela afável, curiosa, simples na fala e no trato mas sempre curiosa, indomável no seu desejo de conhecer lugares, terras, pessoas.

Dealbar do século XXI. A cidade crescera e espalhara os seus bairros residenciais com garagens, simpáticos jardins, centros comerciais e zonas de lazer.
A rua de S. Julião da zona histórica, modificara-se de gentes e nos edifícios. Alguns, foram recuperados e ostentam agora a sua fachada com portas e janelas de madeiras tratadas sobre um branco luminoso.

Outros, jazem emparedados de cimento e no seu interior alojam-se eventuais passageiros que o infortúnio levou pelos caminhos dos ácidos e do pó.
A tasca do senhor Ovídeo, outrora poiso de trabalhadores e de eventuais passageiros a caminho do hospital, modificara-se. Dera lugar a um bar com mesas circulares iluminadas com ténues claridades e uma vez por semana há música ao vivo com grupos de jovens que se espalham pelas imediações de copo na mão.

Percorro a rua num passo lento e alcanço a casa dos Ferreiras e dos Martins. O que observo deixa-me absorto.
O edifício ardera inexplicavelmente. Constara-se que uma outra casa devoluta, frequentada por clandestinos que faziam uso de materiais inflamáveis, terá estado nas origens do incêndio.
Quanto à Teresa Ferreira, o barulho atroador dos barrotes a cair e o crepitar das chamas que já espraiavam os seus fumos pelas escadas, terão feito a solitária inquilina levantar-se da cama num ápice com alguns dos seus poucos haveres e escapulir-se para a rua.
Fora encaminhada pela protecção civil para uma institui-ção e dois meses mais tarde alojada num bairro no outro extremo da cidade.

Perdera as suas raízes mas reencontrara uma companheira de escola, a Alberta assistente social, que lhe arranjara ocupação num alfarrabista local. Por vezes, espanta toda a gente com a sua memória prodigiosa e os conhecimentos avulsos que possui acerca de regiões, continentes e costumes. Tornou-se membro de um grupo pedestre local e aos fins de semana sai de roteiro na mão, mochila às costas e a mesma ânsia de conhecer lugares, gentes, terras…
- Está melhor do que nunca! - Confidenciara-me a Luisinha, filha do saudoso Martins e antiga moradora do extinto prédio.
Entro no carro, ligo a ignição e rumo ao Norte com a cabeça cheia de passado e as emoções à flor da pele.

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