Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Casamento (im)perfeito, de Ana Maria Monteiro

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2010-08-07 às 06h00

Escritor

Olhou pelo retrovisor como a certificar-se de que estava tudo bem e em seguida deu uma última volta à chave e desligou o carro. A música que estava a ouvir também se calou. Deu de novo volta à chave, ainda não se sentia preparado. Talvez fumando um cigarro sossegadamente enquanto ouvia música reunisse finalmente, não a coragem, antes o ânimo de que necessitava para a tarefa a que se propunha nessa noite. Sentia-se calmo, estranhamente calmo. Pensara longamente no assunto. Não era um acto passional. Para falar verdade, há anos que a ideia se lhe insinuava e cada vez mais risonha e amiúde. O pormenor da mancha de sangue a impregnar lenta e irremediavelmente a alcatifa “caríssima” de que ela tanto gostava, provocava-lhe quase sempre um certo arrepio de prazer. Apagou o cigarro por terminar. Agora sentia pressa. Saiu do carro, muito vagamente cambaleante e dirigiu-se à porta que ligava a garagem ao prédio. Como quase sempre, estava ligeiramente tocado pelo álcool. Não muito, o corpo e o espírito já tinham uma longa experiência de lidar com tudo quanto diariamente ingeria (álcool, drogas, speeds, calmantes) e por isso a reacção era quase imperceptível. Premiu o botão do elevador e esperou. Àquela hora não havia já movimento no prédio e o segurança, que estaria certamente a dormir, nem se aperceberia da sua chegada. Pouco lhe importava, aliás, visto que os resultados da curta investigação policial em nada seriam alterados pelo testemunho do homem. O elevador chegou. Entrou e carregou no nº 11. Viviam no último andar daquele incrível prédio, uma escolha dela. Obviamente por ser o mais caro, o mais luxuoso, o mais desejado por todos os que visitavam a urbanização. Ele sempre achara um disparate aquela obsessão dela pela ascensão social, por ter tudo, por ser a melhor, a mais rica, a mais bem casada, enfim, a mais. Mas durante bastantes anos alimentara uma vaga esperança de que talvez um dia, durante uma das suas crises de histeria, ela tivesse o bom senso de sair pela janela. Claro que nunca o fez. Uma pena, aliás, já que, não o tendo feito, teria que ser ele a recorrer a medidas desesperadas para resolver o assunto.
Lembrava-se muito bem de como se tinham conhecido e de como a tinha achado encantadora. Era bonita, ela, e jeitosa. Uma verdadeira brasa. E aquela ligeira tremura quase permanente nos lábios, e aquele frémito quase invisível do nariz, eram verdadeiramente prometedores. Aliás, ela tinha mesmo a mania do olfacto, referia-se a tudo pelo cheiro: “cheira-me bem”, “cheira-me mal”, “não me cheira”, eram expressões que utilizava a propósito de tudo e de nada. Escusado será dizer que, relativamente a ele, tudo lhe cheirava mal.
Recriminava-se bastante por ter casado com ela, tinha a noção de que nunca a tinha realmente amado. Mas depois de seis anos de namoro, o curso terminado, um excelente emprego, não conseguira continuar a ignorar a pressão dela e da sua própria família e não pudera prolongar por mais tempo a decisão que há muito se adivinhava inevitável. E casaram mesmo. E ele até gostou de o fazer. Apercebeu-se de que era mais respeitado; consideravam-no um senhor, agora que dera início à constituição de uma família que tinha todos os ingredientes para servir de modelo: dinheiro, beleza, estatuto social, sucesso… enfim, o paraíso na terra, dir-se-ia.
Mas o Inferno não tardou muito a instalar-se. Inicialmente ele tomou as suas manifestações por amor e desejo e não deu grande importância, até se sentia lisonjeado, mas bem depressa se apercebeu de que se tratava de perseguição, domínio, posse, obsessão, loucura. Amor e desejo? Ela desprezava-o! Condescendia por vezes em terem-se na cama, mas sem qualquer entusiasmo, antes deixando perceber claramente que ele não a merecia. Também aceitou ter dois filhos, foi-lhe conveniente ser a mãe dos seus filhos, dessa forma, achava ela, ele teria que ser realmente a mais miserável das criaturas para os abandonar. A partir dessa altura é que o sexo rareou mesmo, e só de luz apagada pois ela achava que a sua perfeição ficara maculada por umas estrias que mal se lhe adivinhavam na zona das ancas.
Claro que também aproveitou para ficar em casa dedicando-se a ser esposa e mãe de família. Na prática, em termos de trabalho, foi coisa que nunca soube o que fosse pois sempre tiveram empregada em casa. E quando ele se manifestava dizendo que era um disparate a mulher ir lá todos os dias, ela vociferava, chamava-o de egoísta, dizia que ele não fazia a menor ideia do trabalho que dava ser mãe dos filhos dele e mulher de uma criatura tão ignominiosa. No entanto ele nunca notou que para ela, ser mulher e mãe fosse além de todos vestirem caríssimo e serem convidados para as festas mais importantes. E também os seus tratamentos de beleza milionários, que depressa lhe arruinaram a pele. Não arruinaram também a carteira porque ele cada vez trabalhava mais e mais, aceitando toda a espécie de clientes e de casos e trabalhando tanto que raramente chegava a casa a tempo de ao menos dar um beijo aos filhos, que desta forma cresceram mal conhecendo o pai e tendo dele a ideia que lhes era transmitida pela mãe: alcoólico, devasso, infiel, insensível, etc….
Oh sim, ela adorava humilhá-lo, particularmente na presença dos filhos. Costumava mimoseá-lo com toda a espécie de desaforos de que possuía um vocabulário aparentemente inesgotável e que decerto faria corar de vergonha qualquer estivador ou moço de estrebaria.
Ela era uma escrava, fazia tudo pela família. Ele? Ele nem sequer trabalhava, sabia lá o que isso era! Sabia era andar atrás das “gajas” todas que lhe passavam debaixo do nariz. Não passava dum reles subalterno do sócio que, por pena e amizade, lhe oferecera uma pequena quota na empresa.
O que ele não conseguia compreender é como é que lhe tinha sido fiel durante mais de vinte anos e sempre a ser acusado do oposto. Mas a verdade é que quando teve um caso com a Rute o mundo desabou: ela descobriu antes do final da primeira semana. Vasculhava-lhe diariamente os bolsos, a carteira, a agenda, tudo o que lhe pertencia, sempre em busca das provas do que ela achava que tinha a certeza e ele, como não estava habituado e era a primeira vez, foi apanhado logo no início. A partir daí o calvário tornou-se insuportável. A Rute foi corrida por ela à velocidade da luz; quando a rapariga percebeu o imbróglio em que a outra a meteu, os nomes que lhe chamou, a perseguição que lhe moveu, nunca mais quis ouvir falar nem num nem noutro. Mas para ele foi mais complicado. Ainda por cima, durante os dias que durara a sua aventura com a Rute, ele havia-se apercebido de que estava não preso, mas antes amaldiçoado. Porque não conseguiu estar com a amante em momento nenhum que não fosse a falar na mulher, nos defeitos da mulher, nas qualidades da mulher, no que a mulher faria e diria nas mesmas condições, a comparar uma com a outra.
Voltou a ter mais um caso. Desta vez foi mais cauteloso, ela não descobriu sozinha, foi ele quem decidiu confessar-se-lhe. Estúpido! Primeiro percebeu que não conseguia libertar-se e que ela estava presente em todo o lado e em tudo o que fazia e depois teve a veleidade de pensar que talvez contando-lhe, confessando-lhe, mostrando-se arrependido e garantindo que a amava, ela finalmente perceberia que não valia a pena continuar a persegui-lo porque ele seria mesmo o bom marido que prometera ser.
Ela adorou! Tinha-o definitivamente na mão! E na mó de baixo! E irremediavelmente culpado! A vida dele a partir daí conseguiu fazer com que a que tivera anteriormente se assemelhasse mesmo a um paraíso.
Mas hoje isso ia finalmente chegar ao fim.
O elevador parou.
Dirigiu-se à porta e abriu-a. Ela ainda não se deitara, era normal estar em pé à espera dele, pronta a desancá-lo com mais um sem número de insultos e acusações e além disso, atendendo a que nunca se levantava antes da hora do almoço, era naturalíssimo que também não sentisse sono à hora de ir para a cama.
Estava muito simpática e toda arranjada. Isso é que já não era tão normal, mas também não era inédito: usava destes estratagemas quando queria alguma coisa que estiva fora dos limites do seu cartão de crédito - quase sempre eram jóias. E ele normalmente fazia-lhe a vontade; por um lado, as tréguas eram um alívio e por outro nem queria imaginar as consequências de lhe negar fosse o que fosse.
Claro que hoje seria muito diferente, mas ela não precisava de o saber de imediato.
Ela veio até à porta cumprimentá-lo com um beijo e tudo (o anel devia ser mesmo caro!). Depois ofereceu-se para lhe preparar um uísque com gelo enquanto ele se despia. Aceitou claro, “one for the road”, vinha mesmo a calhar face ao que ia fazer em seguida.
Sentou-se no cadeirão do quarto a beber o uísque que ela lhe preparara.
Ela sentou-se na beira da cama, de frente para ele, e começou a falar de trivialidades. A preparar o terreno, ele já conhecia o filme.
Tinha chegado o momento. Levantou-se, ligeiramente mais tonto que anteriormente, declarando que ia à casa de banho. Ela também se levantou para ir à sala desligar a televisão.
Foi até junto da mesa-de-cabeceira dela e tirou a pequena arma que lhe dera para o caso de algum dia estar sozinha em casa e ser necessária.
Sorriu interiormente ao recordar-se do que ela lhe dissera na altura: “-Aposto que adorarias descarregá-la sobre mim.”.
Sentou-se de novo no cadeirão do quarto. Certificou-se de que a arma estava carregada e destravou-a.
Observou-a atentamente experimentando uma vez mais a sensação de incredulidade que sentia sempre que via uma arma: como podia um objecto tão pequeno revelar-se tão letal?
Depois apontou.

No funeral todos estavam estupefactos.
Como é que uma pessoa chega a este ponto? Como é que um homem como ele, com tudo para ser feliz, tomara uma atitude daquelas?
O desespero devia ser imenso, não lhe bastara a quantidade de comprimidos que dissolvera no uísque. Não! Para o caso de não serem suficientes, sentara-se à espera da morte com uma arma preparada na mão.
Inconsolável, a pobre viúva recebia o carinhoso consolo proporcionado pelo amigo de família e sócio do falecido marido.

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