Correio do Minho

Braga, terça-feira

Carta à Leonor: pensamentos sobre uma nova forma de olhar para o espaço escolar e o processo letivo

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Ensino

2018-01-03 às 06h00

Filipe Clemente

Querida Leonor.
Escrevo-te uma nova carta para partilhar algumas das novas preocupações que têm vindo a emergir no decorrer dos anos de convivência com alunos, colegas e funcionários. Os pensamentos que partilho contigo são muito pessoais, contextualizados e poderão não ser replicáveis em contextos distintos. No entanto, acredito que a mudança geracional impõe um olhar diferente para a abordagem ao ensino e à aprendizagem no Ensino Superior. Assim, vou listar um conjunto de pensamentos, mais ou menos estruturados, que te peço que analises, reflitas e critiques.

Pensamento número 1 - o espaço escolar: querida Leonor, o espaço escolar não pode, nem deve ser encarado como um mero edifício. Já imaginaste ter espaços de partilha com os teus professores onde podes conviver de forma informal e conhecer melhor quem te ensina todos os dias? O que seria se pudesses jogar damas ou xadrez, tomar um café, jogar ténis de mesa ou simplesmente descontrair a seguir ao almoço num espaço comum onde o professor te pode mostrar que, para além dos conhecimentos que consegue transmitir, também consegue partilhar opiniões pessoais, experiências profissionais ou conselhos para a tua vida futura? Perceberes que o professor, para além da profissão, tem uma personalidade e que passou pelas mesmas incertezas e anseios que tu?

Pensamento número 2 - a qualidade do tempo: no treino desportivo temos dois regimes de prescrição possíveis: contínuo ou intermitente. O regime contínuo permite-te trabalhar mais tempo seguido, mas diminui a possibilidade seres muito intensa. Quando trabalhas de forma intermitente, podes aumentar a intensidade, mas não o consegues fazer de forma continuada muito tempo. Em aula como te sentes se estiveres 2 horas seguidas na sala? Consegues manter os mesmos níveis de concentração, foco, participação e motivação do início ao fim? A produtividade será igual? E se trabalhássemos em regime intermitente aumentando a intensidade e criando espaços de recuperação passiva (intervalos) ou ativa (atividades de descontinuidade)?

Pensamento número 3 - resolve os teus problemas sem guião prévio! Já imaginaste ter aulas de resolução de problemas profissionais? Onde, com rede (apoio do teu professor), podes ter tempo de olhar, abordar, pensar nas consequências, pesquisar, elaborar um plano e colocá-lo em prática? Não seria inspirador conseguires resolver um problema de forma distinta dos restantes colegas? E porque não, encontrares algo de tão novo e fora da caixa que te pode originar o teu futuro posto de emprego? Ou então a resolução do problema te fornecer saberes que podiam ter sido apenas lecionados de forma expositiva, mas que desta forma te fez pesquisar e apropriar do conhecimento de forma diferente?

Pensamento número 4 - um ensino sem barreiras! Imagina, minha querida, o que seria teres aulas numa instituição, mas isso não te impedir de conhecer outras realidades, outros cérebros, outras ideias? O quão bom seria teres contacto regular com investigadores, académicos ou profissionais de topo de outros locais de Portugal ou de outros países? O que seria se pudesses ter uma aula ou simplesmente uma conversa com quem te permite encarar o futuro com outro olhar?

Pensamento número 5 - conhecer a especialização dos teus professores. Nem sempre os teus professores te ensinam o foco do seu trabalho. Muitas vezes vais ter aulas com eles e não vais ficar com a perceção completa do seu conhecimento especializado porque podem estar a lecionar unidades curriculares que não permitem abordar problemas concretos da sua área de investigação. Não seria bom existirem sessões curtas, fora do teu horário, em que os podias ouvir falar dos seus tópicos de investigação ou da sua atividade profissional? E se, de forma voluntária, tu e os teus colegas, estivessem numa pequena sala a ouvi-lo num contexto diferente a falar de temas que ele, mais que ninguém, domina e que te pode levar a interessar por algo que de outra forma não terias conhecimento?

Pois bem minha querida Leonor, na verdade, o papá tem a oportunidade de trabalhar numa escola onde estes pensamentos são mesmo realidade. Onde a forma de ensinar se está a adaptar às exigências e aos desafios que vocês nos colocam todos os dias. Onde não temos receio de arriscar porque os resultados são animadores e nos conferem confiança para testar, uma e outra vez, novas formas de abordar o ensino. Isto é a Escola Superior de Desporto e Lazer de Melgaço, um espaço vivo onde o ensino é mais que transmitir conhecimento, é conviver com ele!

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