Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Caro Professor!

As bibliotecas e as leituras no verão

Caro Professor!

Escreve quem sabe

2024-06-18 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Tal como iniciei este ano letivo, na crónica do mês de outubro, “Uma sociedade que não gosta dos seus professores não gosta das suas crianças”, de Georges Haddad, reitor da Universidade de Paris – Sorbonne – escrevo-lhe para vincar a ideia de que não se deve preocupar: afinal a sociedade gosta mesmo dos seus professores. Tanto, que até gostariam que nunca deixasse de o ser. Verdade: até o querem mesmo com 70 anos! Cheio de energia e vivacidade, atualizado e visivelmente motivado pela sua vasta experiência. Em outubro, esta carta dirigida ao Professor era do João. O João que tinha entrado na escola. Pois hoje, hoje o João terminou o seu ano letivo na escola. Este João: “- Desculpe professor, mas nem sei por onde acabar. Estou muito nervoso, e estou também muito ansioso por saber que vou novamente deixar na minha pasta, os meus cadernos e livros velhos, lápis, esferográficas e uma lista de material, tudo gasto e usado. Alguns livros nem sequer chegaram a ser usados. Mas eu não me importo. Para mim é como se fossem velhos. Irei guardá-los! Quero tanto sair da escola…. Mas sabe, professor? O Daniel, meu vizinho e amigo de grandes brincadeiras não quer ir para casa. Não consegue rir, nem tão pouco sorrir, quando lhe conto as minhas anedotas favoritas e que o faziam chorar de tanto rir durante o ano. Até parece que fui eu que perdi a piada…. Estou mesmo triste, por ele. E sabe porquê, professor? O Daniel não é assim um aluno muito bom. Durante o ano encontrei-o muitas vezes a chorar quando estávamos na escola porque tinha notas más. E dizia-me sempre para eu não contar a ninguém… nem o professor sabia o quanto ele chorava. Pelo contrário, ele sempre encolhia os ombros quando o professor lhe entregava as notas. Fazia de conta que não se importava… e afinal era tudo mentira! Não se esqueça, professor. Ninguém tira más notas por querer, o mais certo é por não poder… E o Daniel só tem isso: ele não pode muitas vezes! E não é pelo facto de ele tirar sempre más notas que vai melhorar. Sabe professor? O Daniel não quer ir para casa porque sabe o quanto vai desiludir os seus pais, não pelas notas, mas pelo prazer de ver terminada a escola. Porque achava que devia ter gostado mais da escola e isso não era verdade. Porque nunca conseguiu ter prazer na escola: a fome da descoberta, de quem é considerado digno de descobrir o mundo e de ter uma existência própria e ser tido em grande apreço, ele nunca teve. E agora professor, agora que vamos todos embora, até eu, o João, que sempre tive muito boas notas, me recordo dessa frase que o Professor Germain disse ao Albert Camus: “os alunos eram considerados dignos de descobrir o mundo”. Não, nem ele, nem eu, assim fomos considerados. Afinal ter boas ou más notas não interessa muito. Interessa muito mais o que o professor Germain disse ao Albert Camus: “O teu prazer em estar na escola rejubilava por todo o lado”. Quem nos dera! Quem nos dera ter demonstrado esse prazer. O prazer de aprender muitas coisas, novas, pela primeira vez. Sabes, professor? O sonho de uma criança ou jovem quando entra na escola é o sonho de estar a entrar no maior palco de aprendizagem, no maior palco de vida, no maior e mais encantador palco que sonhou dias e noites, em que a personagem principal era ela. Ela e a sua aprendizagem. E ao fim de uns dias, de uma semana, de um mês, nesse palco afinal, a personagem principal é o professor e o seu ensino, e nem um simples papel secundário deixou para que os seus alunos pudessem brilhar. Assim me senti eu, assim se sentiu o Daniel. Porque alguns professores estão cansados, velhos, usam metodologias e estratégias velhas e cansadas. Por isso vamos para casa e levamos nas nossas mochilas afinal exatamente o mesmo: o fechar de cortinas de um palco sem brilho. Nas boas e nas más notas, porque estas pouco interessam. E já combinei com o Daniel: vamos ver outra vez o filme “O Clube dos Poetas Mortos”. Para acreditar que no próximo ano teremos professores mais respeitados e inspirados. Como o professor John Keating. Queremos ouvir muito baixinho o sussurro dos antigos estudantes que estão eternizados numa foto, o sussurro que reclama “CARPE DIEM” da obra do poeta romano Horácio e encerra a filosofia de viver o momento presente com plena consciência e alegria, sem se preocupar excessivamente com o futuro. Este conceito que pode ser aplicado ao ambiente escolar para ilustrar como a escola deve ser um local vibrante e positivo onde os alunos possam realmente "viver o momento" e desenvolver-se plenamente. Onde os alunos se sintam seguros, respeitados e valorizados, encorajados a experimentar novas ideias e a desenvolver as suas habilidades sem medo de falhar ou serem humilhados. Os professores devem ser mentores que inspiram e guiam os alunos, não figuras de autoridade que intimidam ou menosprezam, permitindo que os alunos explorem os seus interesses e talentos de forma autêntica, sem medo de julgamento. Para que a escola seja verdadeiramente um palco de vida onde o espírito de "Carpe Diem" possa florescer, é fundamental eliminar qualquer forma de humilhação ou maus-tratos. A filosofia do "Carpe Diem" pode ser uma guia poderosa para transformar a escola num lugar onde cada dia é uma oportunidade de crescimento e alegria. Ao eliminar humilhações e maus-tratos, e ao cultivar um ambiente de respeito, apoio e compromisso, a escola pode tornar-se um verdadeiro palco de vida, onde cada aluno se sente valorizado e inspira-do a aproveitar ao máximo cada momento. Baixinho… em sussurro… CARPE DIEM. Até para o ano, Professor!

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