Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'caos', por João Nogueira Dias

Uma carruagem de aprendizagens

Conta o Leitor

2012-07-18 às 06h00

Escritor

A Teoria do Caos diz-nos, mais coisa, menos coisa, que o bater das asas de uma borboleta em Portugal pode provocar uma tempestade na China. Como se os chineses não tivessem já chatices que chegassem, ainda têm que levar com o bater das asas das nossas borboletas. Em compensação, nós também temos que aturar as borboletas deles. Se pensarmos no tamanho da China, será intuitivo pensar que eles terão muito mais borboletas do que nós. O que nos trará problemas, invariavelmente.

Mas, especificando, a Teoria do Caos refere-se a sistemas onde uma sucessão de pequenas variações pode provocar uma grande alteração, a grande distância ou a longo prazo. A meteorologia enquadra-se nesta ideia. Talvez as nossas vidas também.

Mas “caos” também pode designar a situação que José vivia, naquela altura. As aulas de Matemática, associadas à sua investigação, eram uma espécie de escape, que lhe permitia esquecer, por algum tempo, o mau momento da sua relação com Patrícia.

A sintonia já não era a mesma, a cumplicidade esgotava-se, a paciência também e os sorrisos eram cada vez mais escassos. Assim sendo, o seu pensamento mais matemático levava-o a pensar que uma sucessão de pequenas alterações, nas condições em que a relação se desenrolava, estavam a provocar um grande efeito, por sinal devastador, na mesma. A interacção entre ambos começava a esgotar-se, como a areia se esgota entre os dedos. Porque uma relação pode ser vista como um punhado de areia, que é feito de ínfimas partículas que se juntam num todo. Se os dedos se começarem a afastar, vão-se as partículas, vai-se a relação. Vai-se o bem-estar, vai-se a alegria. O caos instala-se.

Os pequenos acasos podem fazer a diferença. Como alguém, num dos corredores da Universidade, ter perdido uma nota. Não importa a importância, passando o pleonasmo, importa apenas que alguém encontre a mesma nota. O que acabou por acontecer a José. Quando olhou para a nota, não ligou à quantia, mas sim ao que podia fazer com ela. Como qualquer pessoa que já não tem grande esperança numa relação, tomou uma decisão simples, porventura imbecil. Decidiu comprar flores para Patrícia, como se isso fosse fazer alguma diferença. A fazê-la, seria apenas às flores, injustamente arrancadas de um qualquer jardim.

Na primeira oportunidade, ofereceu-as a Patrícia. Embora satisfeita com o gesto, até surpreendida, não lhe deu grande importância, uma vez que se estava a tapar um dos espaços pelos quais saía a areia, sem que o seu fluxo fosse interrompido. Por isso mesmo, as flores não fizeram grande diferença no estado de coisas. A sua importância foi tão diminuta, que Patrícia acabou por se esquecer delas num banco do metro. O que poderia fazer toda a diferença. Não para si.

A diferença fez-se para quem se sentou no mesmo banco do metro, depois de Patrícia o ter deixado. Luís viu as flores e sorriu. Gostou do aspecto, lembrou-se, de imediato, de Cristina. Costumava oferecer-lhe flores. Ela adorava que ele o fizesse. Quando viu aquele ramo em tão bom estado, provavelmente esquecido minutos antes, resolveu levá-lo. Não iria mentir. Diria, claramente, que encontrou as flores num banco do metro. Faria sucesso, mesmo com um acaso. As asas da borboleta de José e Patrícia estavam a provocar alterações climáticas entre Luís e Cristina.

Assim que chegou junto de Cristina, Luís mostrou-lhe o ramo de flores. Cristina sorriu e não demorou muito tempo a abraçá-lo. Foi um abraço terno, suave e gracioso, como as próprias flores. Ao contrário do que aconteceu com Patrícia, as flores não se perderam, desta vez. Foram, antes, guardados num local onde não sofriam qualquer risco. Tornaram-se um objecto precioso.

Só que este conceito de preciosidade, quando não é sustentado em algo verdadeiramente estável, torna-se efémero. E a falta de cuidado de Cristina acabou por fazer com que as flores definhassem, aos poucos, naquela jarra esquecida num canto pouco luminoso da casa. Até que a sua mãe, que pouco gostava de ver flores naquele estado, as deitou fora.

O saco de lixo que albergou aquelas flores, na noite seguinte, foi vandalizado por um gato, que procurava insistentemente por comida. As flores ficaram ali, já de si moribundas e, como se isso não fosse suficientemente ultrajante, ainda se mostravam envoltas em lixo. Se fossem comestíveis, o gato teria dado por isso. Mas o único propósito com que foram arrancadas do seu jardim fora ignorado, por duas vezes.

Nessa mesma noite, o António passou por ali, bêbado, como quase sempre. Perdera ali perto um amigo, num acidente de viação. Costumava passar ali algum tempo, emocionalmente alterado, com todas as sensações à flor da pele e potenciadas pelo teor alcoólico, a lembrar-se do seu amigo. Nessa noite, viu as flores. Apanhou-as e atirou-as para o meio da estrada. Foi uma homenagem sentida, mesmo com flores que já não estavam no seu melhor estado.

O sol acabou por nascer, sobre aquela homenagem que, aos poucos, foi sendo pisada e repisada por carros, que por ali passaram, com a indiferença das obrigações e das máquinas. E um dos carros que ali parou, obedecendo à ditadura dos semáforos, foi o de José. Ironicamente, acabou por passar por cima das flores que anteriormente comprara. O acaso que os juntou uma vez, voltou a juntá-los. Acontecesse assim com as pessoas, e muita gente seria mais feliz. E depois de o semáforo ordenar a circulação, José arrancou e uma borboleta pousou nas flores. Uma brisa suave sentiu-se em Pequim.

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