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Caos na saúde e tiros nos pés

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Caos na saúde e tiros nos pés

Ideias

2022-06-19 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

1. É impossível fugir ao tema, tanto ele anda cavalgando as televisões, os meios políticos, o parlamento, as redes sociais, onde tudo se mata e esfola, se enterram os vivos e desenterram os mortos. Hoje não há quem não tenha a sua opinião bem formada sobre o que se está a passar: pudera, os meios de comunicação social não falam em outra coisa, além da saúde e da invasão russa da Ucrânia!... Também todos têm a sua receita milagrosa para melhorar o que se chama Serviço Nacional de Saúde e que por estes dias está mais castigado que o cavalo de Napoleão!
Tudo se destapou após a morte de um bebé por falta de assistência, devido à ausência de um obstetra no hospital onde a mãe se deslocou. Depois, foi uma sucessão de encerramentos de urgências de obstetrícia e ginecologia, que entraram em colapso. Depois mais urgências encerraram, incluindo a do Hospital de Braga.
Como denominador comum, a alegação de falta de recursos humanos nos hospitais em geral, o que não constitui propriamente uma novidade, pois há décadas se fala dessa carência estrutural. Não há médicos que cheguem, porque é também uma classe já envelhecida e não está, em grande parte, já obrigada a fazer urgências. E porque as condições de trabalho não são as melhores e mais adequadas, e por isso muitos emigram para o estrangeiro ou fogem do SNS, para ganhar mais. Uns vão para o privado, que obviamente continua a ser financiado pelo erário público, através da ADSE. Outros desvinculam-se e vão engrossar as fileiras de empresas de prestação de serviços, que acabam por explorar o Estado, em situações de aperto, enquanto os ditos “tarefeiros” ganham o quádruplo dos especialistas do quadro. O que não deixa de ser um completo absurdo, uma distorção inadmissível do mercado e da organização do Serviço Nacional de Saúde.
O Governo está debaixo de fogo, sobretudo a sua ministra da Saúde, que anunciou a meio da semana um plano de contingência para fazer face às dificuldades de pessoal médico, enfermeiros e técnicos de saúde. Um plano que parece não ter agradado a gregos nem a troianos e que mereceu a contestação dos sindicatos, da ordem dos médicos e de outros organismos de classe.
Também há quem sustente que o problema não é só de reforço das equipas médicas, mas também de organização dos hospitais. Retirar os doentes crónicos das urgências e proceder a uma reorganização do modelo assistencial.
Mas que há que investir seriamente na área da saúde, não há a mínima dúvida. Refrescando os quadros, criando efectivas condições para a fixação dos médicos, sobretudo os mais jovens, no Serviço Nacional de Saúde, o que passa inequivocamente por respeitar a classe, dotá-la de melhores condições e de melhor remuneração básica e ao nível do pagamento das horas suplementares, e tantas são. É inqualificável que se paguem horas extras a um médico do quadro na ordem dos 19 euros e se paguem 70 ou 80 euros a prestadores de serviço externos. Nenhum médico do quadro estará motivado num sistema remuneratório tão enviesado.
Os médicos ganham mal, trabalham imenso e não são respeitados: nem pela tutela, nem pelos utentes, que tantas vezes maltratam e agridem quem tem nas mãos a solução para a sua doença. E as urgências são o campo mais aberto para a conflitualidade, para a pressão sobre o sistema, porque as horas de espera são demasiadas, porque as pessoas se cansam e alteram o sistema nervoso e porque as equipas de saúde andam desgastadas.
Por conseguinte, se há problemas conjunturais decorrentes de férias, licenças e feriados, que tornam as equipas mais reduzidas e extenuadas, há também dificuldades estruturais que se arrastam no tempo e que implicam vários governos ao longo de décadas. Por isso, ninguém pode cuspir para o lado, ou atirar pedras para os telhados de vidro do vizinho, porque todos somos afinal de contas responsáveis pelo estado calamitoso a que chegou o Serviço Nacional de Saúde. Ou porque votámos nos partidos que não conseguem resolver devidamente os problemas da saúde, ou até porque, muitas vezes, como maus cidadãos, usamos e abusamos das urgências, quando nos doi a garganta, ou temos um calo a apertar no sapato, coisas que podemos resolver em dois tempos em casa ou recorrendo a uma farmácia ou ao centro de saúde. Está mais que provado que uma larga percentagem dos episódios de urgência hospitalar, não se justifica, entupindo os serviços e transformando as urgências num caos escusado.
De todo o modo, não pode estar em causa o Serviço Nacional de Saúde, como estrutura através da qual o Estado Português assegura o direito à saúde a todos os cidadãos de Portugal, independentemente de condições económicas, sociais ou culturais. O que foi um ganho significativo nos índices de saúde dos portugueses nestas quatro décadas. O que há é que reforçar, capitalizar, refrescar, investir no sistema. Mais vale investir no SNS que desperdiçar milhões com sistemas financeiros corruptos, bancos falidos por vigaristas que obrigam os contribuintes a pagar a fatura de falcatruas, fraudes e desvios de valores incalculáveis.



2. Neste enredo comunicacional, tem havido tiros nos pés por parte de gente do governo. É mesmo fundamental por isso que António Costa centralize a comunicação. Para evitar o triste espectáculo de vermos uma ministra de Estado, como Mariana Vieira da Silva, proclamar, numa entrevista à RTP, que o aumento do valor das horas extraordinárias dos médicos tem inevitavelmente repercussões no orçamento de Estado, agravando o défice orçamental (quase pretendendo colocar os doentes contra os médicos…), enquanto, um dia depois, o ministro das Finanças, Fernando Medina, veio a terreiro proclamar e reiterar, alto e bom som, que o problema da saúde não é falta de dinheiro. Então, meus senhores, entendam-se: em que ficamos? Há falta ou não há falta de dinheiro? Ou apenas há falta de vergonha?
Tiros nos pés são também as afirmações de alegados notáveis socialistas, como Maria de Belém ou Sérgio Sousa Pinto, a criticar a ministra da Saúde e a pedir mesmo a sua destituição. Mas que adianta substituir governantes se as políticas não mudarem? E porque é que Marta Temido, a melhor ministra do governo, tem de sujeitar-se a ouvir estes dislates de alegados socialistas?
É caso para se concluir: com amigos (e correligionários) destes, António Costa nem precisa de inimigos!!!

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