Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Caminhos cruzados

Uma carruagem de aprendizagens

Conta o Leitor

2015-08-12 às 06h00

Escritor

Manuel Correia

O amor é muito mais que uma simples troca de fluidos! Um encontro casual, num dia normal da vida, pode ser o suficiente para que, o bater do coração deixe o ritmo normal e pausado, e, passar para uma cavalgadura intensa, como um cavalo desenfreado numa corrida livre, mas descontrolada. Isso é amor! Amor na sua fase primitiva e única, feita de química. É o auto mecanismo que nos faz existir, neste mundo.
A vida a dois é um desejo que perdura além dos séculos até hoje, e continuará até ao fim dos tempos. O meu caso não foge há regra. Um olhar numa viagem de autocarro, um sorriso tímido, como a dizer: “olá”. A viagem foi curta. Mesmo depois de sair do autocarro, o meu pensamento continuava vagueando pelo lugar aonde a receptora do meu sorriso estava. Fora do autocarro, apenas vultos que se perdiam em sombras. Nem o meu olhar de agente secreto, descortinou aquela mulher!

O professor, empenhado no seu exercício da função, queimava etapas do programa. Eu continuava a misturar a matéria com a imagem que teimava em permanecer numa zona ocupada, agora por uma imagem: a dela! O toque da campainha fez-me sair do limbo: entre a aula e a imagem dela. Um amigo perguntou-me algo da matéria dada, e eu não fui capaz de lhe dar uma resposta concreta, apenas uma resposta politica e imperfeita. A noite reinava, com a lua a iluminar o campo de futebol com piso de alcatrão. Agora noutra sala o professor falava de equações, e, eu com aquela imagem a surgir em intervalos maiores. Não podia perder a matéria, e não sabia se alguma vez a voltaria a ver!

Voltei há minha vida normal de estudante trabalhador aplicado, que rega os seus sonhos, de uma vida melhor. Fui ao bar com um amigo, sítio aonde tomávamos um copo de leite e um croissant misto, aproveitando para conversar um pouco sobre o dia. Aproveitei para falar da minha visão no autocarro, mas sem aprofundar, não me queria expor, afinal foi apenas um sorriso tímido.

De volta a casa, cansado, pensava em jantar, mesmo sendo horas de ceia. Passei o caminho a ouvir anedotas e a contar também. No banco de trás do autocarro um colega apostava com outro em que urinava mesmo ali! Para meu espanto, um fio de urina passeava no corredor em direcção ao motorista nas descidas e voltava para trás nas subidas. Quando cheguei ao meu destino a urina tinha-se misturado com o pó e ficou apenas uma mancha húmida.

Por fim, o cansaço apoderou-se de mim. Sem resistir caí no meu leito de palha, abracei o sono e o sono abraçou o sonho: aquela imagem pouco nítida aparecia não no autocarro, mas num outro contexto! Os sonhos são muitas vezes inexplicáveis, são um misto de realidade e fantasia, pensamentos recalcados. No sonho eu tentava ver o seu rosto, mas sempre que chegava perto o que via era uma mancha cinzenta. Eu tentava comandar o sonho e quando peguei nas rédeas, ouvi um som ao longe e cada vez mais perto, era o despertador! A noite foi curta, o corpo ainda não estava pronto. Penosamente voltei à realidade.

O ruido sincronizado dos liços, num movimento para cima e para baixo, a trama inserida, transportada na ponta do projéctil, o pente que bate e bate repetidamente, é um frenesim. Ao centro da tecelagem uma tecedeira levanta a mão, e chama por mim. Um projéctil ficou entalado na recepção. O ritmo de trabalho mantinha-se constante, havia sempre uma avaria, uma montagem de novo artigo. O descanso era sempre bem-vindo a meio da manhã, vinte minutos passados em velocidade alucinante. Tudo terminava ao fim de oito horas de trabalho árduo.

A noite chamava por mim. O ciclo repetia-se de segunda a sexta-feira: trabalho escola, escola trabalho. Os rostos que via eram quase sempre os mesmos. Por vezes lembrava-me dela, e sempre que passava naquela paragem do autocarro, olhava na esperança de a ver entrar, mas eram sempre os mesmos rostos conhecidos, que entravam no autocarro. Talvez não fosse daquela terra, talvez viesse ali de visita? O melhor era esquecer, concentrar-me no meu estudo, na minha vida simples.

O terceiro período tinha começado, e as notas do primeiro e segundo período tinham sido todas positivas, mas o último era de todos os mais importante, não podia descer o nível. Nas horas em que não tinha aulas, ia estudar para a biblioteca e sistematicamente havia uma hora em que ia ao bar, comer o meu croissant misto e um copo de leite, era um ritual adquirido. Num desses momentos de ida ao bar, resolvi ir numa hora mais tarde do que o costume, tinha tido um furo a uma aula. O bar estava parcialmente ocupado, fui directo ao balcão fazer o meu pedido, estava com apetite. Quando me voltei para procurar mesa, vi uma vazia e de pronto me dirigi com o tabuleiro nas mãos. Pousei o tabuleiro na mesa e chamei o meu amigo, acenando com a mão direita. Sentei-me e dei uma dentada no meu croissant, peguei no copo de leite e bebi um pouco, e, de repente o meu coração começou num batimento acelerado, comecei a sentir um calor intenso. Os meus olhos brilharam como um pulsar. Aquele rosto que tanto procurava estava na mesa do lado! A voz e o sorriso completavam o belo quadro. Num primeiro momento hesitei, mas a ocasião era única, podia não a voltar a ver. Levantei-me, e timidamente esbocei um sorriso, dei um olá. Desculpem a minha curiosidade, mas as meninas estudam aqui? Grande risada que elas deram. Se não andássemos a estudar nesta escola, o que estávamos a fazer aqui? Respondeu a amiga. Eu fiquei um pouco atrapalhado e emendei. Pois isso é verdade, mas só as vi aqui pela primeira vez. Nós vimos sempre a esta hora, todos os dias. Pois a diferença estava na hora! Durante meses nunca nos cruzamos, mesmo no corredor, as salas ficavam nos opostos da escola, e a hora de ir ao bar era diferente.

A partir daquele dia ia sempre ao bar há mesma hora que ela sentava-me na mesma mesa, e no meio do diálogo a quatro, eu olhava discretamente para ela e ela para mim. A cada dia que passava os laços cresciam como raízes que abraçam a terra. A partir desse dia, quando dormia e sonhava com ela, o seu rosto era um desenho a cores e bem definido.

Hoje quando sonho, ela está ao meu lado, e nunca mais deixei de me sentar há mesma mesa que ela.

Na nossa vida, podemos andar por caminhos diferentes, mas um dia esses caminhos vão se cruzar.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.