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Camila, a cega da estação

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2011-06-06 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O Governo que se irá formar nos próximos dias, fruto das eleições legislativas de ontem, estará, como muitos outros, sujeito a jogos de influência e de interesses com vista à sua constituição.
Não é novidade para ninguém dizer-se que na sociedade actual, como na sociedade de há várias décadas atrás, existem pessoas que gostam muito de aproveitar estes momentos de oportunidade (ou oportunismo) para entrarem no jogo da defesa dos interesses pessoais, mesmo que para isso coloquem em causa o carácter e a ética que deve orientar as pessoas honestas e trabalhadoras.

Sabendo nós que os valores nobres que norteiam um ser humano são os valores da competência, da qualidade, da dedicação e do trabalho, repugna-se, evidentemente, os valores da amizade oportuna, da simpatia de ocasião ou submissão interesseira. Mas, quanto a isso, cada um age como entende, conforme os valores e princípios que o orientam.
Para comprovar este ambiente de interesses e de jogos de influência, vou apresentar aqui um caso que ocorreu há cerca de 100 anos, e que envolveu Camila, uma mulher cega que tentava ganhar a vida na estação dos caminhos-de-ferro de Vila Nova de Famalicão.

Durante os primeiros anos do século XX, Camila passava os seus dias na estação de Vila Nova de Famalicão, onde tentava obter esmolas dos passageiros que circulavam por esse local. De facto, na época era difícil encontrar um sítio mais apropriado para obter esmolas, uma vez que por essa estação circulavam muitas centenas de pessoas por dia, vindas de toda a região do Minho, de Espanha e ainda do Porto.

Esse era um local de muita movimentação de passageiros, uma vez que o comboio era o meio de transporte mais sofisticado, mais rápido, mais confortável, mais económico e mais seguro da época.
Camila era uma mulher muito conhecida em Vila Nova de Famalicão, não só pelos habitantes desse concelho, mas também por muitas pessoas desta região. Tinha um comportamento muito particular, uma vez que reagia de forma menos própria a quem lhe recusasse uma esmola. Rotulava as pessoas que não lhe davam esmola, com alguns dos piores nomes e epítetos, usando nesses insultos uma linguagem obscena e indecente.

Algumas pessoas temiam mesmo quando se cruzavam com ela. Aliás, muitos pais tinham que acompanhar os seus filhos, porque estes não se sentiam protegidos quando circulavam sozinhos pela zona da estação. Não faltavam, inclusive, queixas contra Camila, apresentadas nas autoridades locais, assim como não faltavam notícias nos jornais da época a solicitar uma tomada de posição das autoridades municipais de Vila Nova de Famalicão.

Mesmo nesta situação, e voltando ao sentido das primeiras palavras deste texto, não falta quem consiga sempre arranjar uma forma de aproveitamento, mesmo à custa dos mais desfavorecidos ou vulneráveis a pressões. E foi o que aconteceu exactamente com Camila, a cega da estação.
Quando algumas pessoas souberam do falecimento de um indivíduo rico, natural da freguesia de Brufe, e que era conhecido por Manuel da Sola, a atitude para com a cega da estação mudou radicalmente.

A notícia deste falecimento foi publicada nos inícios de 1911 pelo jornal “Diário de Notícias”, segundo a qual tinha falecido um proprietário capitalista, que era possui-dor de uma enorme fortuna. Logo após a morte de Manuel da Sola, como era conhecido este capitalista, constou-se em Vila Nova de Famalicão que Camila poderia ser filha deste ricaço minhoto.

De início poucos acreditavam nisto mas, à medida que o boato aumentava, também os interesses aumentavam.
Foi a partir deste boato que as pessoas passaram a dar mais, muito mais, atenção a Camila. Não faltaram pessoas a ajudá-la, a prometer-lhe alojamento e comida e, imagine-se, não faltou logo quem pretendesse… casar com ela!

Perante a possibilidade de Camila ser filha do rico Manuel da Sola, não faltou ainda quem se disponibilizasse a ajudar a cega da estação, mas de outra forma, ou seja, foi formado por um “grupo de pessoas amigas”, uma sociedade “para ocorrer ás despezas e tratar de habilital-a como herdeira d’aquelle fallecido, passando-lhe já ella a competente procuração”. (1)
Esses amigos, oportunistas, afirmando-se logo como protectores de Camila, prepararam-se para defender os direitos desta mulher cega, e com isso tentarem colher os “grossos cobres que lhes vão encher as algibeiras”. (1)
Os oportunistas e gananciosos estão sempre à espreita de uma abertura para vingarem na vida. Mesmo que com isso percam o carácter e a dignidade própria do ser humano.

1) - Jornal “Correio do Norte”, de 19 de Maio de 1911

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