Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Caluxa

A vida é um diálogo entre fronteiras

Caluxa

Voz aos Escritores

2019-12-13 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Lembras-te, amiga, da tua batinha cor-de-rosa no infantário, das tuas calças à maria-rapaz na primária, no ciclo, no secundário, do teu riso que enchia a Gulbenkian, da tua inabilidade para o desenho, das tuas gargalhadas diante dos gatafunhos que esgalhavas, do teu desinteresse pelas reprimendas, do teu alheamento aos raspanetes dos quais gracejavas. Era tão fácil e simples a vida para ti, a vida que tanto desfrutavas.
Lembras-te, amiga, das cerejas que petiscavas sentada nas escadas da Casa da Varziela, das braçadas proibidas no tanque de água fresca, do olhar protector pousado na tua irmã, da tua mão de unhas roídas a ameigar o Patusco, das tuas boquinhas jocosas a imitar o peixe de olhos bugalhudos a quem chamavas Mário Soares, do teu corpo livre de infortúnios a dançar os Boney M, a Donna Summer, os Village People, da inofensiva batota que fazias no jogo do Monopólio, e rias, rias, de tudo rias. Tinhas em ti a leveza da vida cantada no riso.
Lembras-te, amiga, de Moledo, a tua praia, Olha o mar, dizias, Olha o mar, e contra o vento Norte corrias, a tua leve pegada na areia de conchas deixavas, tão leve como o teu ser, e contra as barrigas bojudas das barracas te atiravas em brincadeiras despregadas, as arrelias da mulher do banheiro com as tuas malandrices desafiavas, traquinices de menina que trazia a alegria no meigo olhar, no sorriso rasgado, na força com que agarravas a vida, a vida que saboreavas como os chocolates Imperador ofertados pelo teu Pai embrulhados em amor.
Lembras-te, amiga, dos teus anos de mocidade no Porto, a casa perto da Rua da Alegria, essa alegria com que nos contagiavas, as partidas que fazias aos rapazes vizinhos e aos magalas, o desprendimento que aos pequenos problemas quotidianos votavas, a vida era demasiado preciosa para ser importunada por minudências, a vida era riso e alegria, a vida que tu rias e rias em cada dia, em cada hora, em cada instante único e mágico, a vida que desfiavas na beleza duma melodia. Amavas a existência e apartavas-te da maledicência.
Lembras-te, amiga, do teu casamento, de como parecias uma menina da primeira comunhão, linda, feliz, tão feliz, sem deixares que a doença da tua Mãe ensombrasse a boda, sem deixares que a amargura que escondias ofuscasse o dia, essa amargura humana que tu calcavas, que tu calavas, que tu enxotavas, porque para ti a vida era riso e alegria e o degustar pleno de cada maravilha.
Lembras-te, amiga, da tua felicidade quando ficaste grávida do Tomás, do teu contentamento quando engravidaste da Sofia, a menina que tanto querias, a Mãe exemplar, a Mãe devotada dos teus filhos muito amados, do mais profundo do teu ser desejados, a Mãe de colo aberto, de mão estendida, os filhos que passaram a ser o sentido da tua vida, os filhos que aconchegaste e criaste envolta na serenidade e na harmonia, essas benesses tão tuas que ofertavas aos teus alunos, meninos e meninas que a ti se apegavam, a querida e doce professora Cláudia, a educadora que as Mães e as Avós queriam e elogiavam, matriarcas de brilho nos olhos e de bocas adoçadas, essas benesses que aos teus amigos entregavas de mãos largas, a amiga leal, a amiga presente, a amiga sincera, a amiga que todos queremos ter, a amiga que muitos envolvia porque sem julgamentos os acolhia e do Mundo os protegia.
Lembras-te, amiga, como lutaste contra o bicho da doença numa peleja silenciosa, numa batalha corajosa, numa dignidade assombrosa. Nunca te ouvimos um queixume, nunca te escutamos um lamento, sempre pronta a enfrentar o tormento, a matar o bicho que não te largava, esse bicho maldito que te importunava e injustamente te maltratava.
E tu, amiga, persistias no combate, porque para ti a vida era riso, era amor, amizade e alegria. A vida não era doença, nem amargura, a vida era demasiado valiosa para ser desperdiçada na agonia. Na enfermidade não perdeste o riso, nem a esperança de retomares a saúde roubada, pelas garras do bicho usurpada, o bicho que te atraiçoou e te derrotou quando ainda tinhas tanto para viver, tanto para rir, tanto para usufruir, um oceano de afectos a partilhar, um mundo estórias a contar, o bicho que invejava a tua vivacidade e a tua entrega à plenitude da existência, o bicho que se afrontou com a tua nobreza, a infinda dignidade e a pureza da tua verdade.
Sim, amiga, são essas as palavras que te definem: dignidade, amor, simplicidade, luta e fraternidade.
Sim, amiga, são essas dádivas tuas que em nós perdurarão, o som do teu riso cristalino que em nós ecoará, a lembrança da tua felicidade que em nós não se apagará, a menina do riso eterno, a menina lutadora que em nós viverá.
Era uma vez uma menina que veio ao Mundo para rir, iluminar e amar.
Agora podes serenar, terminou o teu sofrer, finou-se o teu padecer.
Agora podes em paz descansar, nas asas dos anjos voar, dormir o sono solto no regaço do Senhor que te embala no Seu abraço apaziguador.
E não te esqueças, amiga, que serás por nós relembrada na amizade e no esplendor do amor.
Bem-haja, Cláudia. Até sempre, querida Caluxa.

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