Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Calamidade social e enganos

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2013-06-11 às 06h00

Jorge Cruz

Aumenta diariamente o número de crianças que vão para as aulas sem tomar o pequeno-almoço. Sabe-se também que há cada vez mais alunos a dependerem diariamente das refeições que lhes são fornecidas nos estabelecimentos escolares que frequentam.

Este é um dos maiores dramas da sociedade portuguesa, uma calamidade social que afecta um número crescente de famílias e que é provocada pela crise e, designadamente, pelas medidas cegas e penalizadoras do governo Passos Coelho/Paulo Portas.

Ainda este fim-de-semana, o presidente da Confederação das Associações de Pais (CONFAP) reconheceu, no congresso realizado em Gondomar, que “são muito mais as crianças que, hoje em dia, vão para a escola mal nutridas”, acentuando que muitos dos casos respeitam a famílias em que os pais estão desempregados ou que, “por vergonha”, sofrem em silêncio. Jorge Ascensão disse que algumas das associações se esforçam para sinalizar as crianças atingidas e mitigar o impacto do problema da fome, mas frisou que gostariam de contar com mais apoios. As associações de pais querem, pois, ser ouvidas pelas escolas, autarquias e Governo.

Aliás, nem de propósito, também no fim-de-semana passado mas em Elvas, na sessão de boas-vindas a Cavaco Silva o presidente da câmara local lembrou que “milhões de portugueses vivem um presente muito complicado, no limiar da fome e da pobreza, ou abaixo desse nível”, advertindo que essa é uma situação “que nos deve envergonhar”.

Acontece, porém, que uma recente medida governamental veio complicar substancialmente a situação criando problemas acrescidos aos pais e lançando no desemprego mais uns milhares de professores.

Trata-se da autêntica macha-dada que o Ministério da Educação decidiu dar nas actividades de enriquecimento curricular (AEC), um programa que preenchia diariamente duas horas dos alunos do primeiro ciclo do Ensino Básico. Com a medida exclusivamente economicista que tomou, o Governo encurtou para metade o tempo de duração das AEC o que vai prejudicar alunos, pais e professores. Os alunos, porque vêem drasticamente reduzidas as opções de disciplinas extra-curriculares, ficando privados de outras matérias opcionais; os pais, porque têm que lidar com a nova realidade que vai obrigar a criar alternativas para o desenvolvimento pedagógico dos seus filhos; e, finalmente, os professores contratados que no novo cenário serão naturalmente dispensados.

Mas o curioso é que alguns responsáveis pela situação dramática de milhares de crianças aparecem agora, quais virgens púdicas, a apelar às organizações sindicais para não prejudicarem os alunos com as greves anunciadas. Seria risível se, de facto, não estivéssemos perante uma enorme catástrofe social provocada precisamente por alguns dos figurões que agora se dizem preocupados.

No seu comentário semanal na SIC, Luís Marques Mendes acusou Vítor Gaspar de “brincar com o pagode” quando afirmou que as más condições climatéricas também prejudicaram o investimento, e manifestou a convicção de que “um ministro das Finanças não deve brincar”.

Compreende-se a tentativa de branqueamento experimentada pelo antigo líder do PSD. Mas o problema de fundo é muito mais complexo já que, ao contrário do que pretende Marques Mendes, não se tratou de brincadeira, de ironia, mas de crença. Aliás, e a julgar por recentes declarações de Cavaco Silva invocando a Senhora de Fátima e S. Jorge, alguns dos nossos governantes estão a substituir a acção pela fé.

Afirmar, como o fez Vítor Gaspar, que “o comportamento do investimento é muito preocupante” mas que o mesmo foi “adversamente afectado pelas condições meteorológicas nos primeiros três meses do ano, que prejudicaram a actividade da construção”, constitui mais uma desculpa descabelada de quem habituou os portugueses a sucessivos erros. Os dois consórcios que têm em mãos as obras das escolas Francisco Sanches e D. Maria II, em Braga, e que se preparam para concluir as empreitadas antes do prazo contratual são o melhor desmentido para as desculpas do ministro das Finanças.

Mas em época de desculpas e confissões, o ministro Gaspar também disse que errou ao não dar prioridade à “transformação estrutural profunda das administrações públicas”. E disse-o, também sem se rir, como se fosse ele o Primeiro-Ministro, como se fosse ele quem determina as políticas a seguir.

Marques Mendes também comentou essa declaração dizendo que Gaspar “não se devia ter enganado, devia ter começado mais cedo”, porque se tivesse começado por aí não haveria “mais impostos” nem tanta recessão.

Mais uma vez a questão é um pouco diferente: o falhanço, que é indiscutível já que o país está bastante pior do que estava, deve ser atribuído ao líder do PSD, que com a sua inexperiência cometeu diversos erros de análise.

O seu pecado original foi ter provocado a crise política que empurrou o país para o pedido de ajuda externa mas, como se isso ainda fosse pouco, escolheu a austeridade quase como uma religião a ser seguida cegamente, o que arrastou a economia para a espiral recessiva que se conhece e os portugueses para a situação extraordinariamente difícil em que hoje (sobre)vivem. E o curioso de tudo isto é que ainda há quem, nas actuais circunstâncias, não tenha vergonha de comemorar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Como dizem os nossos vizinhos espanhóis: hay que tener mucha cara…

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