Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Cabeças nas nuvens

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2011-06-05 às 06h00

Carlos Pires

Hoje o país vive um dos momentos eleitorais mais importantes dos últimos tempos - com uma simples cruz, colocada num boletim de voto, todos os portugueses poderão contribuir para a escolha de uma equipe governativa que possa fazer-nos acreditar de novo em Portugal.
Nas semanas que antecederam os portugueses viveram “anestesiados”, com discursos, palavras e ataques verbais. Mas não há que ter ilusões, vamos atravessar um período muito difícil. Que “mezinhas” vão ser necessárias? A gestão criteriosa e responsável dos (cada vez mais) escassos recursos públicos que impenderá sobre o próximo Governo parece fundamental. Mas não bastará a “mão” do Estado para nos fazer superar os obstáculos. De igual forma, exige-se um maior esforço individual, de trabalho e de responsabilidade, amanhã, depois de amanhã, nos dias seguintes, nos tempos que se seguem. Teremos ainda que ser solidários, transformando o esforço individual em colectivo. Em súmula, eis a altura em que nos devemos concentrar em ajudar o país a recuperar da grave crise económica em que se encontra.
Contudo, e a julgar pelos exemplos recentes, receio que a maior parte de nós não tenha percebido que, nos tempos que correm, os conceitos de “Liberdade” e de “Responsabilidade” se mostram indissociáveis. Esta semana, para além da paralisação decorrente da greve de maquinistas da CP, soubemos ainda que o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil decidiu lançar um pré-aviso de greve para 10 dias nos meses de verão. A decisão foi tomada em resposta à deliberação da TAP que determinou retirar 1 (um) elemento por tripulação em cada voo, como forma de reduzir os custos operacionais.
De acordo com o porta-voz do referido sindicato, 'menos tripulantes com a mesma carga de trabalho significará que os passageiros poderão ver comprometido o atendimento e a segurança', uma vez que 'uma pessoa mais cansada tem mais dificuldades em responder da mesma forma a certo tipo de situações'. Caro(a) leitor(a), tais afirmações dariam para rir, não fosse a seriedade do assunto em questão! Qualquer pessoa que já tenha viajado na TAP sabe que a redução de 1 (um) elemento por tripulação em nada afectará o atendimento dos passageiros em cada voo. De resto, esse atendimento, na maioria dos casos, já há muito se revelara claramente deficitário. Não porque haja escassez de tripulantes, mas antes porque, e sem querer ser injusto com alguns dedicados profissionais, muitos deles aproveitam as funções profissionais em que estão investidos apenas para desfilar, com altivez, as fardas desenhadas por estilistas de renome, passando a maior parte do tempo do voo, nas extremidades da cabine, a cochicharem uns com os outros. Até posso aceitar que o momento em que servem as refeições é um momento que lhes provoca elevado stress, tal é a quantidade de solicitações de muitos sedentos e esfomeados passageiros. Mas é o único! Sem prejuízo do tempo que despendem em cada voo e em que disponibilizam a sua força de trabalho, certo é que, exageros à parte, apenas em parte desse tempo estão verdadeiramente ocupados com a comodidade e segurança dos passageiros.
Não posso deixar de manifestar a minha indignação pelo motivo da greve anunciada pelo Sindicato do Pessoal de Voo. Escusado será dizer que, a manterem-se, as greves vão provocar elevados prejuízos para a economia portuguesa e, em particular, para o sector do Turismo, tendo em conta o momento que o país atravessa e a época do ano em que ocorrem.
Irónica mas compreensivelmente, a companhia low-cost Ryanair, certa de que receberá muitos dos passageiros que verão os voos TAP cancelados, 'agradeceu' aos responsáveis do sindicato do pessoal de voo os dez dias de greve na TAP, enviando-lhes dez rosas, certos do aumento de vendas dos voos nesses dias, mas apelidando-os de 'dinossauros' e conotando a paralisação como 'insensata”. As diferenças entre o que vemos acontecer numa empresa com capitais públicos, como a TAP, e numa empresa de capitais privados, como a Ryanair, parecem evidentes. Com qual dos modelos ganha mais, afinal, o comum passageiro? Com qual dos modelos ganha mais, afinal, o comum contribuinte nacional? Espero que, ao menos, a actual crise na TAP sirva para relançar o tema da oportunidade da sua privatização. O Estado, que somos todos nós, não tem mais dinheiro para injectar na Companhia. Os Sindicatos, por sua vez, não estão disponíveis para qualquer ajustamento aos privilégios de que beneficia o Pessoal de Voo, comprometendo a necessária diminuição dos elevados custos de exploração e, como isso, a continuidade da empresa. Mesmo que as medidas, como no caso em apreço, se mostrem perfeitamente equilibradas e sensatas. Das duas uma: ou a TAP encerra ou alteram as estruturas e mentalidades no seio da TAP.
Os tempos difíceis que se avizinham exigem que tenhamos os “pés bem assentes na terra”. Não há espaço ou margem para a existência de feudos ou de laxismos. O esforço, o novo estímulo e motivação, têm necessariamente que ser colectivos. Portugal, está na hora de acordar!

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