Correio do Minho

Braga, quinta-feira

BUM!!!

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2018-03-04 às 06h00

José Manuel Cruz

Escrevo no dia em que Putin declara possuir armas inéditas, de alcance planetário, mortais e indetectáveis. Blefe? Será que os serviços de inteligência falharam de novo? Tão atentos aos ensaios da Coreia e tão esquecidos do arqui-inimigo? Experimento uma certa simpatia pela posição russa, e até aceito que desta nos minta, só para fazer comichão ao Trump e sua corte. Reside em razões históricas e pessoais o meu fraco pelo cirílico. Aduzo que também me desgosta a parcialidade de que damos mostra a maior parte das vezes. Vejamos: não chapamos nós uma de estupidez pegada na cara de russos, quando, por estratagemas que connosco não pegariam, o Putin e o Medvedev circularam entre cargos, ora tu, ora eu? E que dizemos à actual reforma constitucional da China? Cheira-me que o Xi Jiping reinará embalsamado, para meu sorriso, largo e amarelo. Tanto que se morre na Síria! Que distingue, a oposição armada a Bashar al-Assad, de um movimento dito terrorista que afronte um Governo legítimo da Europa Ocidental? Assim, pelo que vejo, o facto de sermos todos contra uma deriva secessionista. Que o diga o catalão que sonhou ser presidente, sujeito que nem a reeleição livrou de sérios embaraços e pública chacota. Entretanto, há ou não, na Catalunha, no País Basco, uma identidade ancestral, nunca integralmente assimilada por Castela? Para muita gente, há. Teimando em ver apenas o que nos interessa, caímos no ridículo de validar exageros alheios, que serão interpretados como pecados, inevitavelmente, enquanto que, os nossos, nunca serão menos que virtudes.

Morreria por um opositor de Assad, por um curdo odiado por Erdogan. Reconheço a todos o direito de lutar, até de armas em mão, em desespero de causa. A eles, o de lutar; à parte oposta, o de os combater. Acaso nos esquecemos de que não passa sexta-feira em que um atentado não seja cometido, no Iraque, no Afeganistão, no Iémen, dizimando xiitas, operações que não poderiam ter sido desencadeadas senão por sunitas? A par dos EUA, não está a Europa claramente do lado dos sunitas? Vá-se lá saber porquê.

Ela por ela, contas feitas: quantas pessoas morrem a menos nos EUA? Se a morte violenta é um sinal de retrocesso civilizacional, não deveria, uma morte americana, contar por dez, digamos por vinte, das que ocorrem em país atrasado, regido por ditador de meia-tigela? Isto de um ponto de vista arbitrário, em suma, em linha com o nível médio de rendimento.

Afundamo-nos com valores de pataco. Mais do que massacres obscuros em cidade síria, mais do que mísseis que Putin faça circular em órbita repetida, enquanto trauteia sortes com batido «um-dó-li-tá» choca-me a estatística(!?) segundo a qual 2/3 dos empresários portugueses referem que não se safam se não estiverem encostados ao poder político. Não há custo de contexto que este exceda. Não há moralista pátrio com lições a dar seja a quem for, e o Sócrates não releva de espécie em vias de extinção.

Não há Guantánamo para corruptos e corruptores. Não encarceramos terroristas financeiros sem culpa formada, não os sujeitamos a torturas várias, na demanda de confissão. No fundo, não tratamos mal os nossos génios, excepto um por outro, por desfastio.

Quão sadio e assertivo será o Portugal de hoje? Do que vem do passado, assim por alto: não tivemos nós heliportos de letra que não chegaram a papel? Não temos nós helicópteros que não voam, submarinos que ganham visgo na doca, blindados ligeiros que jamais circularam? Vendo-o, talvez pergunte a Putin, se a tal arma tem efeito selectivo. É cá por umas coisas. Entrementes, dou-me melhor com russos do que com chineses, com persas do que com árabes. Faço lobbying, como o Barroso.

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