Correio do Minho

Braga,

Bruxelas, 2016

Serviços de pagamento: mudaram as regras

Ideias

2016-04-22 às 06h00

Margarida Proença

Ao longo dos anos, fundamentalmente por causa de inúmeros projetos comunitários em que fui estando envolvida, fui muitas vezes a Bruxelas, onde voltei, pelo mesmo tipo de razões, para uma curtíssima estadia há cerca de uma semana.
Os efeitos da ação terrorista são deveras impressionantes. Não se trata apenas da destruição no edifício principal do aeroporto, substituído numa boa parte por uma série de tendas enormes, do tipo militar, por onde passam as pessoas que vão viajar, em controlos sucessivos. Ou ainda do acesso á zona de partidas, que se faz apenas através de uma série de lances de escadas, do tipo de escadas de serviço. Não se trata apenas destas coisas, mas também delas. Os carros, á entrada do aeroporto, são todos verificados. A polícia, por toda a cidade, é imensa, bem como a presença do exército, claramente identificado pelas metralhadoras e pelas viaturas militares. No dia seguinte, no início da reunião que finalizava um longo processo de avaliação de projetos de investigação, foi-nos solicitado o preenchimento de um documento com dados pessoais e de contacto, quer em Bruxelas, quer familiares, “para o caso de virem a ser necessários, se alguma coisa ocorresse“. Medo. Sem querer, o autocarro passando pelos bairros de Bruxelas, havia um olhar e um pensar quase instintivo “ e se?...”. Medo e medo de ter medo, numa história por onde a Europa já passou.
Lembrei-me disto vendo hoje, por acaso, um relatório do Banco Mundial sobre as relações entre o pensamento, as sociedades e o comportamento (Mind, Society and Behavior, 2015). É um trabalho extenso, mas com alguma piada, um tanto diverso das abordagens mais ortodoxas. Coloca como ideia central a consideração de que para lá dos extraordinários avanços tecnológicos que moldaram o mundo em que vivemos, a compreensão, que vai sendo cada vez maior, das influências psicológicas, sociais e culturais nos processos de tomada de decisão pode vir a fazer a grande diferença nas décadas que se aproximam. O estudo destas influências resulta dos desenvolvimentos teóricos e experimentais numa série de ciências, que vão desde a economia, á psicologia, á antropologia, mesmo á neurociência poderá vir a manifestar-se em decisões futuras mais acertadas em termos de saúde, de escolhas públicas, de decisões de investimento, ou na não aceitabilidade de comportamentos de corrupção , ou de estratégias que permitam a reprodução de situações de pobreza.
O referido relatório do Banco Mundial baseia-se numa vasta literatura para sugerir três tipo de pensamento - automático, social, ou com base em modelos mentais. O primeiro princípio, de natureza mais automática, mesmo que deliberativa, é aquele que influencia a generalidade das nossas decisões e opiniões, mas que nos leva muitas vezes a simplificar de forma excessiva. O segundo desses princípios, pensar em termos sociais, relaciona-se com uma tendência para comportamentos de maior cooperação , que aliás como os autores sublinham se podem encontrar em sociedades onde os níveis de confiança e capacidade para estabelecer acordos seja mais elevado, mas também em sociedades onde o fenómeno de corrupção, por exemplo seja mais latente. Em qualquer dos casos, as pessoas comportam-se muitas vezes como “cooperantes condicionais”, ou seja, cooperam com os outros na resolução de problemas, enquanto esses outros também cooperarem.
Finalmente, o terceiro princípio chama a atenção para que quando nós pensamos, fazemos escolhas e tomamos decisões, estamos a usar conceitos, ideias, imagens enfim, que recebemos, e que no fundo traduzem a cultura dominante. Muitas vezes, é difícil romper com esses estereótipos, que nos leva por exemplo a olhar para grupos de pessoas que são diferentes, e a pensar em termos de castas.
Á medida que vou lendo o relatório, questionando aqui, discordando em absoluto em alguns pontos, fica contudo cada vez mais claro como sabemos já tanto do funcionamento da mecânica, da robótica, da informática, dos sucessos enormes que fomos obtendo na redução do espaço e do tempo, - e ainda bem -, e sabemos tão pouco ainda dos processos mentais que conduzem á tomada de decisão individual e á escolha das políticas públicas.

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