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Brejeira, não sejas trafulha...

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Brejeira, não sejas trafulha...

Voz aos Escritores

2021-03-26 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Lembro a «Canção de Lisboa», o alfaiate Caetano e a Alice a cantar «A agulha e o dedal». Não percebi, na altura, o significado de «brejeira», que, no contexto, atiro para «preguiçosa», mas fixei «trafulha», nome e adjetivo, palavra sonante que significava, e significa, mentirosa ou enganadora. Não aprofundei o jogo simbólico entre a agulha e o dedal, é provável que se pretendesse dizer mais do que é realmente dito, mas a agulha pica e o dedal aguenta, e também força, e ainda hoje fico como o burro no meio da ponte: trafulha porquê? O que sei é que a palavra existe em português, com o nome correlativo «trafulhice». Pelo visto, trafulhas e trafulhices há muitos neste retângulo mal desenhado, e admiro-me da sua ausência por terras irmãs brasileiras. Quer dizer: o povo deve usar a palavra, mas a verdade é que não há «trafulhar» nem «trafulhice» no «grande» dicionário Houaiss, o que levo à conta de alguma distração. Bem procuro a origem da palavra, mas não a encontro. Como sempre, os dicionários remetem para «origem obscura», o que não me resolve o problema. A verdade é que a palavra tem muita força, aplica-se frequentemente a ações que a sociedade critica, e deve ter sido por aí que a Beatriz Costa andou na sua famosa cantoria.
Sinónimos de trafulha há, em português, aldrabão, embusteiro, intrujão, trampolineiro, trapaceiro ou vigarista, adjetivos ou nomes que se repercutem noutros nomes, como aldrabice, intrujice, trampolinice ou vigarice. O sufixo “-ice” é extraordinariamente produtivo e funciona, em geral, em substantivos abstratos. Se trafulhice é sinónimo de vigarice, qual seria a ação, cantada e criticada, da pequenina agulha? No latim «vicarius» latejava o significado «substituto», que se transportou para o adjunto do prior, o vigário, e não me perguntem como se saltou deste para «vigarista» ou «vigarice», porque os caminhos semânticos da nossa nobre língua são muito sinuosos e nem sempre facilmente compreensíveis. Porque relevo, por exemplo, o adjetivo «intrujão»? Há, com certeza, alguma associação mental com o nome «esturjão» ou com as ovas que conformam o saboroso caviar. Não é que eu coma muito disso, que a carteira sufoca de vazia, mas poderei reconhecer um intrujão em quem se lambuza em ovas de esturjão? Há quem viva de intrujices, de burlas, logros ou trapaças, e a esses também chamamos aldrabões. Singelamente, começamos por afirmar a ausência de limpidez ou de perfeição em todos os seus atos, mas rapidamente desembocamos na burla ou na ação impostora. E não consigo descortinar porquê, pois a aldraba é um simples objeto, o batente de uma porta, a não ser que do batente à pessoa que bate não haja mais do que um passo. Será que quem batia com a aldraba na porta enganava assim tanto as moças a ponto de se transformar em aldrabão? Eu cá não sei, mas que o raciocínio é válido, lá isso é.
E finalmente o charlatão, o explorador da boa-fé, o expositor de méritos e erudições de enganar os mais sábios. No princípio não era assim, a charla era só uma conversa à toa, mas depressa se aportuguesou positivamente nas «Charlas Linguísticas» do padre Raul Machado, que eu ouvia quando era puto sem perceber patavina. O «ciarlatano» (origem italiana) esvaziava os discursos, tagarelava, falava pelos cotovelos, e havia quem gostasse. Não era o caso, evidentemente, do padre Raul Machado, que falava muito, mas muito bem, da nossa bela língua. Por artes semânticas sempre difíceis de explicar, mas compreensíveis, o charlatão é o nosso famoso trafulha, aldrabão ou intrujão, falso, fingido ou hipócrita, impostor das dúzias, o trambiqueiro da praxe, que nos aparece em todos os cantos e esquinas. Sinónimos mais ou menos imperfeitos há por aí aos pontapés, porque, quando se trata de identificar a mentira e a falsidade, o nobre povo português não se poupa nas palavras.

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