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Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Branco

Ideias

2019-11-24 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

O teu nome caberia no título, mas tu não. Tu, por inteiro, não caberias nesta crónica, posto que a essencialidade deste acto oblitera o detalhe, o cuidado, a exigência, que levavas ao altar da cidadania, da estética, da vida. Tu nem sequer caberias num Parlamento que se levantasse num voto de pesar, por unanimidade, porventura envergonhada, nalguns casos.
Hesito: qual é mais verdade – que nós não te merecíamos, ou que tu não merecias a pequenez de Portugal? Que pior fica sem ti, entretanto. Olha, postas as coisas no pão-pão, queijo-queijo: porque te atreveste a deixar-nos? A todos, mesmo aos que não te ligavam bóia, que te torciam o nariz. Refiro-me, percebes, aos que cuspitam para o lado, sempre que uma esquerda embruxada buzina verdades de arranhar ouvidos. Pão-pão, queijo-queijo, digo eu: que cançoneta não farias com um refrão tão cantável! Que dizes à encomenda? Talvez uma marchinha a pingar a sardinha assada, para um Santo António que puxe a São João.
A todos faltas, verdadeiramente, visto que o desdém não faz história. Falta maior, porém, em escala dolorosa, aos que te seguirão tendo por paradigma, só que, doravante, sem o conforto da tua melodiosa reflexão. Sabes, sem ti, fica-nos mais difícil de albardar com este circo.
Foste, e temo que o teu lugar permaneça vago, que reste em branco, por ninguém arriscar a tomar-te o testemunho, por ninguém ter arcaboiço para a missão. Terra curiosa, a nossa, com ronaldos a rodos para tanta porcaria, e que tão à míngua passa de josés-mário-branco. Do teu quilate, porque é que não temos espíritos para suplência expedita, de meter macaco e retomar curso no carrossel lusitano? Neste em que, mentindo, nos atestam que avançamos, sem que na realidade saiamos do sítio.
Adivinho-te o embaraço, a modéstia ferocíssima com que declinarias o louvor, chegassem-te estas palavras doridas. Como poderias ser rei, se recusavas as adulações da corte? Depois, recomposto, recordarias os que partiram, muito lá para trás, e que devem ter-te deixado saudades rivais das nossas, e o punhado que te sobrevive. A todos exaltarias, como quem procura passar despercebido, um igual indiferenciado entre iguais, não mais do que isso. Ouvindo-te, talvez eu me deixasse levar por mil e um episódios em que falarias de ti em tom casual, talvez me abstivesse de sublinhar uma característica distintiva, uma agudeza de consciência, um desprendimento e uma sensibilidade digna de eleitos. Que queres, é assim que te vemos e, se não o dizíamos com frequência, era em atenção à tua reserva, para que não te irritasses com as lamechices.
Sobreviveste a um tempo que morreu antes de ti, um tempo que não tinha como regressar. Não é com os bem-intencionados que o mundo se concerta. Dói, que o imobilismo suplante o arroubo, que o egoísmo mesquinho leve de vencida o bem comum. Atavismos da nossa natureza fundante, da nossa falibilidade intrínseca, da nossa incapacidade de nos projectarmos no amanhã, enquanto sujeito colectivo. Tudo queremos, só que no singular, num pedantismo que te mereceria risada escarninha.
Foste, para ficares numa entrada de enciclopédia, numa praça, numa rua, numa avenida, sei lá, num parque, num jardim. Foste, deixando atrás de ti um verso em branco, um poema aberto em que arrisquemos novas rimas para Abril e mãos ávidas para uma braçada de cravos.
Foste, sem te despedir, sem que soubéssemos que estava iminente a hora que nenhum de nós falhará, se bem que, nas minhas contas, passavas por imortal.
Cá dentro, a inquietação, a inquietação…

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