Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Braga

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2013-11-06 às 06h00

José Manuel Cruz

Nestas páginas, por norma, abordo questões e figuras nacionais, não que os temas e personalidades locais me sejam alheios, antes por uma salutar conquista de distanciamento e perspectiva. Com efeito, opiniões como as que registo, ainda que fundamentadas e justas, são sempre particulares e parciais, em consequência potencialmente geradoras de malquerenças que não se desejam ao pé da porta.

Com as reservas indiciadas gostaria de discorrer sobre a mudança de figura e de familia política à frente do município bracarense. Mesquita Machado estava impedido de encabeçar uma lista, mas não estava impedido de ganhar por entreposta pessoa. A solução orquestrada pelo colectivo socialista poderá não ter sido a que mais lhe agradasse, e aí começou a perder; o desfecho final revelou uma derrota em toda a linha. Sugere-se que talvez regresse para o próximo embate, qual breve D. Sebastião. Uma revisão tranquila do próprio, por um lado, e o desejado acerto de Rio e sua equipa, por outro, deixarão claro que melhor será que não se dê ao incómodo de descalçar as pantufas.

A derrota da dinastia socialista ter-se-á devido à fragilidade e pés de barro da figura de proa, e à blindagem com laivos endogâmicos nas segundas linhas. Resumindo, como se o actual desaire de devesse exclusivamente a um erro de casting, a corrigir dentro de 4 anos, para que tudo volte ao normal! Espero que a ingenuidade se dissipe.

Nada posso aduzir sobre Confiança e Convertidas, sobre Picoto e Sete Fontes, sobre um sem número de arranjos que passam de boca em boca, e em que o interesse público terá sido o menos acautelado. Se dos bastidores não disponho de dados chocantes para revelar ou insinuar, basta-me, como bracarense, a indignação pelos subterfúgios que ao longo de anos justificaram uma descaracterização progressiva da cidade.

Em nome de qualquer coisa volátil, como um teleférico, uma pista de esqui, um prosaico parque urbano, assestou-se miras no Picoto, despropósito que melhor se vê à luz do que não se fez nas Sete Fontes, de terreno mais suave, de coberto mais luxuriante, e de águas abundantes para o que delas se entendesse fazer.

Em nome duma pedonalização, que favoreceria o cidadão e o comércio local, desde os alvores dos anos ’80 que se alteram ruas e praças. Em nome das necessidades imperiosas de estacionamento subterrâneo, profanou-se o Campo da Vinha e o passeio público da Avenida Central. Em nome, sabe-se lá do quê, maquilhou-se a Avenida da Liberdade, transformando os cortejos são-joaninos num corre-corre atabalhoado, indigno do desfile e dos espectadores.

Ocorre-me que se poderá dizer que as cidades são entidades em permanente reformulação e nunca acabadas. Mas, que espírito progressivo é que preside à destruição de palacetes, numa solução de enxertia repetidamente levada a efeito, injectando-se uma casa dentro duma fachada anterior formalmente conservada? Com que secreta bondade e bom gosto se reconfiguram espaços públicos de identidade e funcionalidade fixada, ao mesmo tempo que se licenciam urbanizações com problemas de fluidez de tráfego, com canteiros raquíticos e árvores enfezadas, com arcadas habitacionais por cima de ruas numa perpetuação de sentido despropositadamente medieval?

Talvez não haja mais erros para cometer, fraco consolo se não se puder remediar a má herança do passado. Venho dum tempo em que, por bairrismo excessivo, se dizia que em Braga havia tudo, menos mar. Espíritos mais inflamados chegavam a sustentar que os americanos se disporiam e seriam capazes de fazer chegar o mar a Braga, assim lhes dessem o Bom Jesus em troca. Lembra-me este mito urbano e anseio por maresia sempre que ponho os olhos na família de gaivotas que por cá evolui. Espero que não prenuncie uma linha de costa ali para Ferreiros, pois o jeito que dava não compensava a desgraça geológica.

Se nem por catástrofe natural ou obra humana se pretende um ambiente marinho às portas da cidade, o que é que esperamos do actual executivo e a cuja luz lhe reconfirmaremos confiança em próximas eleições? Sobrarão ideias a cada um, ideias que pela imodéstia pessoal que nos assiste, acharemos no mínimo fenomenais. Por mim, resisto ao despropósito de repetir o que noutro contexto escrevi, mas incito todos os bracarenses a fazerem-se ouvir, podendo julgar em função duma atenção real que despertem.

Dos candidatos, e correntes responsáveis municipais, ouvimos o bastante para esperar um mandato auspicioso. Registo, com agrado, a intenção de valorizar os espaços naturais, nomeadamente a margem do Cávado entre a Ponte do Porto e Prado. A seu tempo, e por projecto intermunicipal, uma tal via ecológica poder-se-á prolongar até aos sapais da foz, permitindo o deslizar tranquilo e seguro de passeios de bicicleta.

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