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Braga Romana: do Berço até ao Túmulo

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Braga Romana: do Berço até ao Túmulo

Escreve quem sabe

2019-05-15 às 06h00

Hilário de Sousa Hilário de Sousa

O centro histórico de Braga vai reviver entre os próximos dias 22 e 26 de maio a XVI edição de “Braga Romana – Reviver Bracara Augusta”. A cidade veste-se de novo para recriar o quotidiano de Bracara Augusta, um evento que faz parte da estratégia de divulgação do conhecimento sobre a nossa história, assente numa interpretação infor- mada e numa aprendizagem significativa. Todavia, para acompanhar esta proposição, conducente a um saber consolidado porque experienciado, importa garantir a validade científico-pedagógica da “Braga Ro- mana”, certificando desde logo as suas atividades-chave, de modo a que não se desvirtue a fiabilidade e o rigor de um acontecimento e de uma cidade autênticos.

Inclui-se nesse diálogo com as origens da cidade o património romano existente, designadamente o núcleo museológico das Termas Romanas, Teatro, Fonte do Ídolo, Domus da Sé e Museu D. Diogo de Sousa. Estes espaços físicos contextualizam uma parte da recriação histórica a que se vai assistir, merecendo especial destaque temáticas como a economia, religião, cultura, gastronomia, ar- tes, ócio, estética, desporto, saúde e política. Os quadros vivos dessa revisitação ao quotidiano romano são por isso muitos e variados, destacando-se nos ciclos da vida humana três momentos interessantes, desde o berço até ao túmulo: o Dies Lustricus – Batizado Romano, o Romanae Nuptiae – Casamento Romano e o Romana Funera – Funeral Romano.

O nascimento em Roma, mesmo no auge do Império Romano, neste caso por volta do século II, inseria-se num contexto muito desfavorável, dado que a taxa de mortalidade infantil era de 400 para cada 1000 bebés. Num lugar onde as mulheres eram propriedade dos seus pais ou esposos, as que conseguissem dar à luz três filhos vivos ganhavam independência legal. O índice de abandono dos recém-nascidos também era altíssimo: ultrapassava os 20% entre os séculos I e III. Os motivos para enjeitar um filho eram diversos, desde algum defeito físico ao simples facto de ele ser do sexo feminino, já que os filhos homens eram mais valorizados por manterem a linhagem da família. “É preciso separar o que é bom do que não pode servir para nada”, escreveu Séneca, no século I. As crianças chegavam a ser desprezadas até por razões políticas: conta-se que, quando o imperador Nero matou a sua própria mãe, Agripina, alguém abandonou um bebé com um cartaz: “Não te crio com medo de que mates a tua mãe”.

Após esse primeiro e duro desafio, a criança, livre de nascimento e de boa família, tinha a sua educação entregue a um par de escravos. O pedagogo, geralmente idoso e severo, não hesitava em usar o chicote. A maternal nutriz, uma escrava de origem grega, era quem amamentava o bebé, para ensinar a língua e cultura desde o berço. Os escravos ensinavam os meninos e as meninas a ler e educavam-nos até à puberdade, mas apenas os rapazes continuavam os seus estudos – literatura clássica, mitologia e retórica: o ideal da educação não era aprender uma profissão, mas ser capaz de impressionar em debates públicos ou disputas judiciais.

Entre os romanos não existia uma idade fixada como “maioridade” – o jovem só era considerado emancipado se o seu pai morresse. Em rigor, todos os bens de um romano que tivesse o progenitor vivo podiam ser administrados pelo seu pai, mesmo que ele se casasse. O casamento, cujo objetivo principal era a procriação, não tinha nada de romântico: costumava ser um acordo entre famílias. Os rapazes uniam-se por volta dos 20 anos e as meninas aos 14, embora não fosse incomum elas casarem aos 12 anos.

O divórcio era simples: bastava um dos dois querer. Havia maridos que nem sabiam que estavam divorciados: as suas esposas simplesmente voltavam para a casa dos pais e não avisavam. Tal como a taxa de separações, também o índice de amantes era elevadíssimo. Messalina, por exemplo, aproveitou a ausência do marido, o imperador Cláudio, para se declarar divorciada e celebrar o seu casamento com o amante Silius.

Quanto ao último ciclo, a expectativa de vida durante o Império Romano situava-se nos 30 anos. As péssimas condições de higiene contribuíam para a transmissão de doenças e as mortes por meros ferimentos eram comuns. A medicina era tão precária que, nos primeiros anos do império, os chefes de família acreditavam deter o conhecimento necessário para curar os seus parentes. Em oposição aos gregos, que valorizavam os médicos, para os romanos a profissão era considerada inferior – e relegada a escravos, libertos e estrangeiros.
Este paralelismo entre as duas civilizações matriciais do mundo ocidental pode induzir múltiplas reflexões, entre as quais uma relacionada com o que hoje representa a vida humana no negócio da saúde, assim como a dimensão económica associada à atual esperança média de vida. Ao que a “Braga Romana” nos leva…!

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