Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Braga - Cidade das Fontes: A água enquanto memória e futuro

Turismo desportivo

Ideias

2018-04-18 às 06h00

Hilário de Sousa

Celebra-se esta quarta-feira o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, sob o mote Património Cultural: de Geração para Geração. A Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), em colaboração com o ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), promove a divulgação deste tema com o objetivo de impulsionar o diálogo intergeracional, enquanto ferramenta de conhecimento, desenvolvimento e diversidade. Salvaguardar a herança cultural é reforçar laços identitários, fomentar o diálogo entre a tradição e o progresso, assumir os valores da memória como alavancas de futuro, estimular a transferência de conhecimentos entre gerações e reforçar a partilha de informação, sensibilizando os mais novos e aprendendo com os mais velhos, para conhecer mais, preservar melhor e cimentar a importância da cultura e do património como elementos aglutinadores das comunidades.
Segundo dados divulgados pela DGPC, entre visitas guiadas, exposições, concertos e roteiros culturais, prevê-se a dinamização de cerca de 600 atividades, organizadas por 540 entidades em 160 concelhos, com uma adesão de 100 mil pessoas. O Município de Braga aceitou mais uma vez o desafio da DGPC, apresentando um interessante programa histórico-cultural, do qual se destaca especificamente, considerando a temática desta crónica, a visita guiada pelos Jardins Históricos de Braga, realizada no passado sábado, 14 de abril: Jardim dos Biscainhos, Jardim do Museu Nogueira da Silva, Jardim de Santa Bárbara e jardim da Casa Grande de Cunha Reis, no Campo das Hortas, espaço habitualmente vedado à fruição pública.

O ineditismo deste percurso pelos principais jardins bracarenses, associado ao especial deslumbramento que suscita à generalidade dos visitantes o Jardim de Santa Bárbara, porventura um dos mais significativos espaços monumentais da cidade, leva a que neste texto se tome como ponto de partida para esta viagem discursiva a Fonte de Santa Bárbara, uma fonte seiscentista que esteve outrora instalada no centro de um dos claustros do antigo Convento dos Remédios (local onde hoje se pode ver o Theatro Circo).
As razões da centralidade deste elemento devem-se não apenas ao facto de a fonte se ter constituído como uma espécie de mote para a construção do jardim, mas fundamentalmente, numa visão mais abrangente da cidade, porque Braga tem uma enorme riqueza patrimonial a nível das fontes e chafarizes que ainda ornam diversas praças e largos, uma característica que já vem praticamente desde a Idade Média e levou inclusive a que fosse então apelidada de "cidade das fontes". Esta particularidade deve-se ao lençol freático situado por debaixo das edificações, o que permitiu, desde a sua fundação, a captação de água através de poços e a sua distribuição pública em abundância.

M. Fernando Denis, no livro Portugal Pittoresco ou Descripção Histórica D'este Reino, Volume IV (1847), afirmava que seriam mais de setenta: tal a copia dagoas notaveis pela sua boa qualidade, que na cidade se contão, entre fontes publicas e algumas pertencentes a particulares, nada menos de setenta (pp 229-230). Ora, atualmente, as fontes existentes e acessíveis ao púbico são obviamente em menor número, todas porém com uma memória riquíssima, talvez pouco explorada, sobretudo face à importância da água para a construção identitária da cidade ao longo dos séculos. Mas não só, também enquanto fator vital para o futuro da cidade, porque tão certo como saber-se que esta nasce da água é a garantia de que a escassez deste bem precioso vai criar um novo ciclo histórico na relação entre o homem e a cidade.

A forte ligação da cidade à água, desde o período romano, gerida e utilizada de diferentes formas e associada a usos culturais e sociais muito diversificados, teve sempre um contributo relevantíssimo para a criação de múltiplos cenários urbanos. Os testemunhos desta realidade encontram-se não só nas fontes, que se constituem em locais de abastecimento, fruição e sociabilidade, especialmente entre os séculos XVI e XVIII, mas também nos balneários públicos e privados, que remetem para o caráter lúdico da água na sociedade romana. Ao mesmo tempo, o uso simbólico e sagrado da água encontra reflexo em diferentes monumentos, que desde o período romano até à Época Moderna têm contribuído para conformar algumas das particularidades da paisagem urbana de Braga.
Estes diferentes ângulos de análise da relevância da água para a vida das pessoas na cidade levam a que se considere pertinente refletir sobre a dimensão pedagógica que lhe está associada e, nesse diálogo entre a memória e o progresso que o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios sugere, se consciencializem sobretudo os jovens para uma visão da organização e desenvolvimento da cidade futura que atenda a este fator de sustentabilidade absolutamente vital.

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