Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Boreout

Um amor incondicional ou dar sem ter que receber

Boreout

Ideias

2019-03-22 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Autorizem-me o palavrão, mais recente que o primo e simétrico «burnout». Se o burnout codifica uma fadiga de arrebentar, por excesso de aplicação ou trabalho sem folga, já o boreout remete para uma rotina inútil, um entorpecimento, uma repetição anestesiante, a ponto de perdermos os sentidos, o contacto com a realidade, a própria noção da realidade. Assim me sinto, a propósito do brexit.
Não é que não tenha um fraquinho pelo Reino Unido, pelo aliado que tanto tem lucrado com a devoção lusitana. Erro nosso, o de aquiescermos com britânicos, o quanto nos embaraça um relacionamento com Castela, perdão, com Espanha. Histórias sem pés nem cabeça: digladiamo-nos com nuestros hermanos, sem darmos conta que nos diminuímos. Pecado que deles é, também, por aplicação ao quanto miram de través os sediciosos henriquinos.
Engraço com os bretões, mas não há pachorra: vão-se, ou quê? Já imaginamos o que não se diria de nós, se fossemos nós, precisamente, que estivéssemos como tolo no meio da ponte? Ora, o que outros diriam, até é o menos, porque muito pior rezaria uma parte dos portugas, sobre a pele da outra parcela dos lusitos que insistisse em marcar passo. Abençoada intransigência que faz do português o seu pior inimigo. Os britânicos escapam a tais burrices. Fazem figura de urso; porém, como sabemos, o urso é uma espécie sob protecção.
Quanto não lhes custa admitir que o brexit é uma calinada! Pudessem reconhecê-lo, e estariam capazes de inverter caminho. Atordoa, o orgulho, suprime toda a informação que o arrasaria. Assim pessoas se destroem, e estados. A Europa sobreviverá a um brexit levado às últimas consequências, mas poderá não sobreviver a si mesma. A Europa faz sentido enquanto potenciação de valores, sem que o francês creia que suplanta de quatro ou de cinco o mérito do húngaro, sem que o alemão se sinta mais confortável numa ressurreição prussiana a leste, do que numa complementaridade a ocidente, sem que o britânico se encapsule em snobismo insular. A nova Europa surgiu para reformar a velha, mas enredou-se e parece não dar conta do recado.
A indecisão, o pavor de cortar a direito, é a medalha dos fracos. Não se senta o perfeitinho em duas cadeiras, bochecha aqui, bochecha ali. Escolher é prescindir do oposto, igualmente atraente em si. Em todo o caso, saiam, que não saiam, os ingleses, que nem sequer é essa a questão. Quiseram, entre eles, curar uma dor de cabeça à força de golpes de marreta. Enfim, é método que não se recomenda, mas o tolo lá sabe. Contudo, prévia à cefaleia britânica, aos maus cozinhados entre conservadores e trabalhistas, estiveram e permanecem as deficiências da construção europeia. Antes do brexit, já muito havia quem torcesse o nariz à integração que se ia fazendo, entre nós o BE o PCP, a família política da Le Pen e a antinómica de Mélenchon, em França, e tantos outros, no mosaico da UE. Cobras e lagartos se disseram de extremistas, epítetos que a ingleses pouparam – pois não tinham o direito decidir sobre a permanência?
Votaram. A saída passou por uma unha negra. Os mentores da barafunda, envergonhados, meteram a viola ao saco. Pior, passamos insistentemente a mensagem da ingerência russa e das fake news. Ora, se mentiras houve, foram aquelas que os propagandistas do leave puseram a correr. Se ingerência houve, foi a de Trump, que tanto lustro puxou à autodeterminação britânica, em nome duma atlanticidade anglo-saxónica, de um liberalismo lavado, por oposição à tecnocracia de Bruxelas. E nós, como é, vamos com o aliado? Bocejo.

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