Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Boletim Agrário

Escrever e falar bem Português

Ideias

2018-02-22 às 06h00

José Manuel Cruz

Há coisas que dizemos por experiência, há coisas que dizemos por convicção. Arde e seca Portugal. Podemos diminuir os riscos de incêndio, podemos alargar o potencial de retenção de aquíferos, podemos partir para uma utilização mais racional dos solos e dos recursos hídricos, podemos privilegiar um bosque que retenha a humidade, que previna a erosão do coberto superficial, que favoreça o restabelecimento dos lençóis freáticos, etc. Isto debito eu por convicção, que não sou lavrador nem honoris causa na matéria. Sai-me, a modos que por palpite, por cego voto de confiança na natureza, e nos homens, desde que bem guiados por sua cabeça, com a assistência de bons técnicos e de políticos de excelência.
Equação por certo difícil. O que é que nos faltará? Eduardo Oliveira e Sousa – dou-me conta que as pessoas a caminho da importância têm, cada vez mais, uma ascendência castelhana, pena é que não conservem o «y». Bom, mas o tal Sousa, que será um responsável da CAP, lá desancava no Governo, por, a propósito da seca, andar com remendos para trás e para diante, denotando a ausência de um plano consequente. Mais castigava o Governo – o actual, os passados, e os próximo-futuros –, por qualquer programa que se desenhe, digamos a 20 ou 30 anos, acabar por não surtir efeito, uma vez que, a duas décadas de distância, poderá já não haver nos campos quem deles trate, quem beneficie, então, de uma política bonitinha, passada a limpo uma geração atrás.
Eu não quero ser má-língua, mas não desancamos nós na Reforma Agrária? Aquela tinha sido precipitada, malfeita, ideologicamente enviesada? E quem nos impedia de enveredar por uma melhor? Com o canto de cisne do rural encarnado, não desaguaram, em Portugal, rios de dinheiro para apoio à agricultura? Malbaratados de todos os jeitos possíveis, em jipes de belo efeito, por sinal, pelo que se disse.
Executo um salto geracional, passo os olhos por projectos mais recentes de frutos vermelhos e coisas afins, supostamente de alto gabarito e com forte procura no estrangeiro. Projectos que acabaram murchos – alguns – por falta de sustentação, por falta de tudo o resto a jusante. Projectos que bem serviram, no entanto, aos gabinetes que os organizaram e por eles cobraram à cabeça, pelo dossier e despacho.
Vivemos em corredor estreito, emparedados por paradoxos. Por um lado, é enorme o potencial de trabalho do indivíduo português, e atestada a sua versatilidade e adaptabilidade. Por outro lado, e ao que parece, longe estão de ser desprezíveis as nossas condições nucleares de rentabilidade – humidade, solarização, relação produtividade/qualidade. Justificamos um estudo de caso.
É da natureza das discussões que, contra fraco exemplo, se bata a cartada daquele em que tudo correu bem, neste caso, que se ponha em exposição, com comenda da ordem de mérito, o/a lavrador/a que produziu, que vendeu, que exportou, que levou a final a alquimia da transmutação da terra em ouro.
Uns têm mais rasgo do que outros, uns arriscam em termos que a outros assustam: de primeiro penam, e depois triunfam. Eu sei que o sucesso individual não se decreta nem se apaparica. Eu sei que o sucesso colectivo bem pode passar por uma quimera. Mas não é o destino individual que nos interessa, pois não?
Ainda que faça coro com os que possam dizer que um velho Portugal se esgotou, recuso, ainda assim, o epíteto de pessimista. Vivemos dentro do ritmo que encontramos, até que chega o dia em que somos forçados a abrir janelas, arejar salões e espanar tapetes. Posso dizê-lo, até, com a realidade rural francesa: ricas que eram, quase por igual, a maior parte das explorações, e quantas na falência não se encontram, com índices assustadores de suicídios, por quebras astronómicas de preços, por empréstimos bancários inamortizáveis.
Não me chega o palpite para imaginar tecido e feitio para um Portugal do Minho ao Algarve. Do que tenho por perto, porém, cheira-me que muito continua por fazer, relativamente aos vinhos verdes e, já agora, relativamente aos citrinos de Amares. Acredito que uma encosta de monte com laranjais tenha mais encanto do que uma parcela de eucaliptos, mas isso sou eu, que se calhar não valho o papel em que me escrevem. Pão e circo, vogava em Roma. Por mim, seria mais pão e laranjas, num dia, e sopas de burro cansado, no outro.
Um pequeno apontamento para despedida. A Holanda, que conhecida é, também, pelas fortunas que faz com tulipas, pois nem de lá é a florzinha. Os cazaques têm-na como originária das suas terras, da Ásia Central, em todo o caso. Em suma: uns aproveitam o que outros não têm como valorizar. Se ao menos os do costume não complicassem!

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