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Bola vazia

A Martins Sarmento e as Festas Nicolinas em Tempo de Pandemia

Bola vazia

Escreve quem sabe

2020-10-03 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Escutar por estes dias que a Tarde Desportiva da Antena 1 foi descontinuada é ver gretar a inocência do meu futebol de menino. Há aqui um rasgo no olhar. Uma impotência que soletra os dias felizes.
Quem, como eu, viveu um naco da adolescência no sopé da serra sabe o quão importante foi o comboio saído das estações dos domingos à tarde. Ouvia-se poesia nas vozes do Manuel Costa Monteiro, Romeu Correia, Costa Martins, Carlos Júlio Lopes, António Pedro e Óscar Coelho. Estava nos meus eternos anos 80. Arrebatadores. Tudo era líbido para sentir o estalar do ponteiro das três da tarde saído do Óskar, o rádio a pilhas da minha puberdade. Aquele som fuzilava qualquer indiferença. Era o tiro de partida para as minhas imensas tardes felizes. A meu lado o Ruca, amigo de olhar aberto que espantava o calo da sorte. Ambos marchávamos atrás das vacas rumo ao lameiro que nos unia. Um pasto verde, imenso ao meu olhar, por onde desfilavam os relatos. Mais tarde, rendi-me ao Carlos Daniel, Bento Rodrigues, Rui Orlando, Fernando Eurico e ao estonteante Rui Almeida, verdadeiro tenor na arte de narrar. Pelo meio, a tarimba sagaz do Fernando Maciel a dar veludo às tardes frias e soalheiras.

Por esse tempo, era fácil colecionar encanto. Nada desviava o foco. Não havia este inglório mundo social que estrangula o silêncio e dizima a partilha. No farnel, cabia o Mundo. Um pedaço de pão centeio, presunto quando havia, cebola salgada, chouriça a sair do lareiro, bilhós de castanha e, de quando em vez, Laranjina, o néctar que povoava o delírio de qualquer rapaz. Todavia, o que não podia faltar era uma bola, tantas vezes rompida nas eiras da aldeia à espera do gadinho. Antes e após os relatos, as balizas eram pedras ou paus enterrados no campo pintado de verde. O guarda-redes era o Damas. Os remates saíam do Manuel Fernandes e do Jordão. A meio do Outono de 1984, o nome Futre começou a pulverizar protagonismo a quem pegava na bola. O remate passou a ter tentativa de design. Até o cabelo começou a crescer.
Porém, mal o apito soava, tudo parava. Estendidos na capa de burel, abrigados tantas vezes pelos vidoeiros, colocávamos o ouvido em oração, só quebrada nos golos que aconteciam um pouco por todo o país.

Foi com a Antena 1 que ouvi falar, pela primeira vez, de Riopele, CUF, Barreirense, O Elvas, Águeda, Samora Correia, Santacombadense, entre tantos outros. Era um carrocel de vilas e cidades. Uma enciclopédia que ganhava mais brilho na Taça de Portugal e no eco das modalidades. Um bíblico serviço público que orgulhou Portugal nos últimos 50 anos.
Saber que este travão resulta de uma decisão “meramente editorial” motivada pela transformação do futebol “num produto essencialmente televisivo”, é agrilhoar o desporto.
A culpa pelo “vazio de conteúdos” é da televisão paga por quem pode. O argumento compreendo-o, mas não o aceito. Quando o Estado não consegue cumprir, à custa de todos nós, com a obrigação de fazer diferente, é o mesmo que dizer que estamos a saque.

Até quando este garrote que sufoca a alegria de quem insiste em ver a bola a rolar. Os estádios estão vazios. Os malabaristas concentram a fúria na Covid-19. A verdade é que, já antes, os artistas começaram a ver menos apóstolos ao ar livre. Preferem o sofá com um gin tónico por companhia.
A paixão irá mirrar por completo enquanto os donos da bola continuarem a navegar no mar de notas das transferências, algumas sem nexo a não ser a quem gravita neste El Dorado. Enquanto isso, esfuma-se a magia da rádio. O computador debita, sem brancas, a boçal normalidade.
A espaços, gritamos golo. Aumentamos o volume porque o ruído atrapalha. Longe, muito longe, do sino das vacas que afagava o meu rádio a pilhas.

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