Correio do Minho

Braga, sábado

Boatos, falsidades e notícias

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2016-12-20 às 06h00

Jorge Cruz

A rede social facebook vai começar a colocar avisos nas notícias consideradas falsas ou de fontes pouco fidedignas para tentar acabar com a crescente propagação de boatos e peças de propaganda disfarçadas de notícias.
A medida, que surge na sequência das críticas à alegada influência desse tipo de “notícias” nos resultados das eleições americanas, pretende acabar com a disseminação de boatos, colocando alguma ordem naquela plataforma, e acabar com o negócio emergente de difusão de notícias falsas.

Importa referir, antes de mais e à laia de aviso à navegação, que esta regulação não pretende configurar qualquer actividade censória porquanto o facebook garante que não decidirá o que é verdadeiro e o que é falso. Introduzirá, isso sim, um conjunto de ferramentas que permitirão alertar os utilizadores para a possível falsidade de um qualquer conteúdo partilhado, falsidade que será confirmada ou infirmada por equipas internacionais especializadas em verificação de factos ou, eventualmente, pelos próprios utilizadores. Ou seja, os profissionais do boato, muitos dos quais rentabilizam a sua actividade nas redes sociais, mantêm a possibilidade de difundir esse tipo de desinformação mas nos seus posts passará a surgir um anúncio a avisar que a sua veracidade é contestada.

Não creio que esta intervenção dos responsáveis pela maior rede social acabe de vez com a autêntica praga de falsidades que diariamente são postadas na net, e copiadas, replicadas e comentadas até à exaustão. Mas acredito que o exercício intriguista e mexeriqueiro vai sofrer um forte revés o qual, inclusive, poderá ter reflexos - assim o espero - em certos órgãos de comunicação social que ali se abastecem de “notícias”.

Como sublinhou há dias ao JN o cientista social Manuel Castells (entrevista que merece ser lida), “qualquer estudante com conhecimentos informáticos, sem grandes custos, e com acesso a um supercomputador pode criar um site com notícias falsas. Se tiver lucros com publicidade, vai continuar a publicar esses conteúdos. A liberdade que existe de comunicação na Internet não tem volta a dar. Se encerrar um espaço, outros vão abrir.”

Este é um facto indesmentível, uma realidade com que nos defrontamos no nosso quotidiano, e que contribui para a criação de um certo caos na informação, para um ambiente informativo perigoso que naturalmente também descredibiliza a comunicação social.
Nada concorre mais para desinformar os cidadãos do que o excesso de informação, filtrada ou nem tanto, com que diariamente somos autenticamente bombardeados através de diferentes canais, de diferentes plataformas, formais ou informais.

Cientes dessa lógica, os próprios consumidores de informação já se começaram a organizar para “limpar” a net de notícias falsas, conforme Manuel Castells também referiu a Ivo Neto, do JN: “já há alguma atividade nesse sentido, principalmente de grupos de cidadãos anónimos, pessoas normais, sem esquemas de censura, que identificam, denunciam e eliminam as notícias falsas da rede. Em lugar de esquemas burocráticos, pode-se criar um debate contínuo na rede para distinguir o que é falso daquilo que é verdade. Esta forma de autorregulação da sociedade é bastante atractiva.”

O tema é aliciante e certamente vai manter-se na ordem do dia neste tempo da “pós-verdade” (palavra do ano 2016 para o Dicionário Oxford), tanto mais que será também devido às redes sociais - mas não exclusivamente por essa razão - que o jornalismo atravessa uma grave crise.
Em todo o caso, convém lembrar que um boato ou uma falsidade só terá circulação garantida se ninguém questionar a sua veracidade e isso lamentavelmente acontece com demasiada frequência, em particular quando os apelos, as crenças pessoais e a emotividade, já para não falar, num sentido amplo, daquilo que poderíamos chamar de clubite, se sobrepõem à objectividade dos factos.

Não obstante todos os cuidados, é óbvio que as falsidades vão continuar a coexistir com notícias verdadeiras e isso fará o seu curso mesmo em insuspeitos órgãos de informação. A triste realidade, neste caso, é que hoje em dia algumas fontes, em particular na área política, usam e abusam de uma sofisticação cada vez mais avançada para enganar os jornalistas e, através das informações que eles veiculam, o público em geral.

Aliás, quem acompanhar com alguma atenção quer as redes sociais quer a comunicação social facilmente verifica que nem precisa sair de Braga para comprovar aquilo que afirmo. E nem necessita recuar muito no tempo, bastará apenas analisar alguns casos mais recentes, que configuram autênticas trapalhadas e que nascem de informações oficiais que nem sempre correspondem à verdade dos factos. A academia do Braga, a urbanização da Quinta das Portas e o Picoto constituem apenas alguns exemplos de uma prática comunicacional conflituante com a exactidão.

É que dizer apenas uma parte da verdade, omitindo ou deturpando factos, também é uma forma de mentir e de enganar e todos nós sabemos que esses processos têm sido usados com inusitada frequência. Curiosamente, ou talvez não, ainda este fim-de-semana fomos surpreendidos com declarações de Ricardo Rio a admitir pela primeira vez que o processo da SGEB pode dar origem a uma indemnização aos privados da ordem dos 45 milhões de euros. O que, a acontecer, contraria a tão propalada poupança de 90 milhões. Claro que a verdade é como o azeite, vem sempre à superfície. Mas enquanto tal não acontece, enganam-se os destinatários e, de caminho, preparam-se as eleições. Haja tino e, já agora, tenham um bom Natal!

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