Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Bitcoins: as túlipas dos dias de hoje?

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2018-01-05 às 06h00

Margarida Proença

Cada ano novo nos vai trazendo ideias novas, novos projetos, novas tecnologias, novos compromissos, novos debates. As bitcoins - não existe forma de o dizer em português - já andam por aí, ainda que a maior parte das pessoas não conheça suficientemente bem de que se trata, ou quais são os potenciais benefícios ou riscos envolvidos.

Trata-se de uma moeda digital, que não é controlada por nenhuma autoridade central. Foi criada em 2008, não se sabe muito bem se por uma pessoa, ou um grupo de programadores, em qualquer dos casos identificado como Satoshi Nakamoto; procurava-se responder aos problemas levantados pelas transações de bens e serviços feitas através da Internet, e veio a estabelecer-se a partir de 2009, na sequência da crise financeira. É uma moeda inventada, sem qualquer ligação às ofertas tradicionais do sistema bancário, cuja circulação é garantida pela rede dos seus utilizadores; não existe de forma tangível.

A sua existência é virtual, criada pelos computadores, e armazenada na cloud, ou num porta-moedas virtual . A computação na nuvem tem a ver com flexibilidade e com custos menores; permite armazenar, enviar e receber documentos e outros ficheiros de forma muito mais rápida, compartilhar informação e sincronizar arquivos entre pessoas que estiverem autorizadas para o fazer, a qualquer momento e em qualquer ponto do planeta.

As bitcoins, ou melhor a sua circulação, são garantidas pela rede dos seus utilizadores, que naturalmente tem incentivos financeiros em que as transações sejam válidas; as mesmas são registadas numa espécie de livro digital, público, a que todos os intervenientes podem ter acesso. Parece muito cómodo: podemos comprar seja o que for, onde for, e pagar sem ir ao multibanco ou a uma loja física, temos a sensação de possuir controlo total sobre o nosso dinheiro, do tipo que se tinha antigamente com ele numa caixa em casa, por baixo da cama, e que a qualquer altura podíamos ir verificar, contar e recontar, mantendo claro em segurança a sua localização, resguardada dos olhares e mãos alheias...

É ainda possível utilizar os bitcoins de forma livre, sem ter de ter autorizações dos governos ou dos bancos centrais para efetuar as transações internacionais, como acontece em muitos países, e os custos envolvidos são mais baixos do que noutros sistemas como os cartões de crédito ou o Paypal. Trata-se enfim, da globalização em toda a sua extensão - transações não discriminadas pela distância, pelo tempo, pela identidade.

O que é necessário é ter acesso ao computador, à internet, e escolher uma carteira, no fundo um site a que se tem acesso através de passwords secretas, que é absolutamente fundamental que se mantenham como tal; compra-se bitcoins e colocam-se nesse porta moeda digital. Existe muita informação na net sobre carteiras disponíveis; alguns exemplos são a BitGo, a Copay, a BTC.com Bitcoin Wallet ou a Trezoe, entre outras. Como sempre, quando se começa a trabalhar com alguma coisa que não se conhece, é fundamental não o fazer de olhos fechados, e procurar toda a informação disponível.

Dito assim, parece alguma coisa que se traduz em grandes vantagens para todos os que a usam. Pois é - mas quando se fala em anonimato nas transações, estamos a falar de todas as transações possíveis, incluindo droga ou lavagem de dinheiro. Mesmo não se aplicando a qualquer dessas atividades ilícitas, as bitcoins permitem a especulação financeira, e podem registar uma volatilidade muito significativa, com potencial para grandes perdas. Na verdade, mais do que investir em bitcoins, a sua compra remete para um jogo onde se pode ganhar muito, mas onde os investimentos feitos não têm qualquer tipo de proteção. Perder é perder mesmo, mas o entusiasmo por esta estranha moeda tem vindo a crescer de forma clara por todo o mundo. A Blomberg já tem um índice de preços para as bitcoins.

Faz lembrar uma história que aconteceu no séc. XVII na Holanda , quando a mania das tulipas se generalizou de tal forma que o preço de um pequeno conjunto de bolbos podia chegar quase ao preço de uma casa. Por 1590, foi criado um jardim botânico, e feitas muitas experiências para criar novas tulipas, com novas cores. Por então, a Holanda era já um país muito rico, tinha sido criada uma Bolsa em 1602, bem como uma espécie de mercado de futuros para produtos agrícolas. Toda a gente queria tulipas, e por 1633 os bolbos começaram mesmo a ser usados como moeda. Claro que tudo acabou numa enorme crise e em múltiplas falências. Parece uma anedota sobre comportamentos irracionais, mas é verdadeira. A regulação pode ser uma coisa bem chata, mas é fundamental - cada vez mais.

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