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Ideias

2018-01-11 às 06h00

José Manuel Cruz

OPSD jamais ganharia as próximas legislativas – Rio sabe-o, Santana idem. Perante o facto, Rio dá largas a discurso assente em estratégia criativa de baixa aderência, enquanto Santana satura o éter com as lengalengas do costume, com os discos pedidos que o basbaque gosta de ouvir. Rio faz mão de carta alta, Santana destrunfa-o com palha.
Caiam Costa e o PS em aselhices de última hora na segunda metade do mandato e, ainda assim, é pouco provável que uma vitória calhe em sorte aos sociais-democratas. Com que confortos vencerá Costa – interrogam-se os magos do regime. Aqueles de não carecer do apoio de ninguém? Rio reza baixinho para que nenhuma maioria sorria ao PS.
Aposta, Rio, em cartada até hoje não jogada, ou, se o quisermos, em regra nova para jogo velho. Recordo que a aliança geringonceira do Costa resultou de um roque de Jerónimo de Sousa, muito mais do que do génio maquiavélico do nosso actual primeiro-ministro. Jerónimo o disse, em cima dos resultados eleitorais, que o PCP e a CDU estariam disponíveis para viabilizar um governo à esquerda. Escorraçar o Passos Coelho bem que lhe valia a cerimónia do engole-sapo. O Bloco associou-se à inovação, e o resultado foi o que se viu e ao presente sente.
A bem do interesse nacional, ao centro, ante facto, Rio confessa-se disponível para ensaiar o que o Jerónimo e a Catarina protagonizam na ponta maldita do espectro partidário. Santana revolta-se e insulta Rio do piorio. Ao mesmo tempo, Santana abomina a bicha de três cabeças que nos governa. Não haverá por aí uma incoerência? Com que é que Santana conta, na realidade: com uma vitória do PS, que reduza o PSD a um esganiçado ridículo, ou com um sucesso do PSD, com ele como cabeça de lista?
Pensando bem, a cartada de Rio é uma de se lhe tirar o chapéu. Gera a sensação, desde logo, de que não é necessário um voto expresso no PS para que uma governação dita à esquerda se mantenha. Melhor, recupera a metáfora soariana dos ovos distribuídos por cestas distintas, cortando nas veleidades do poder maioritário, coisa que parecerá sensata a uma percentagem não desprezível dos eleitores do centrão. Constitui, por outra, uma espécie de presente envenenado: abdicando de bengala construtiva à direita, pior fica o PS na fotografia, mediante as cedências destemperadas a bloquistas e comunistas, a sindicalistas e corporações profissionais.
Em entente cordiale com o PS e com ele disputando franjas voláteis, sedentas de exercício governativo positivo, pragmático, Rio reduz de uma penada as aspirações do CDS. Caro se tem feito pagar o CDS pelos endossos, e não é Rio um bom-serás que fuja a massacrar com troco em moeda miúda.
Tudo somado, fica a sensação que Rio pretende reformar as condições da governação e as ladainhas da oposição: governa quem ganha, será o seu credo, e por pé próprio se enterra, parece acrescentar. O Poder desgasta, distorce, macula – quem não o saberá! Por muito que tudo pareça evoluir da melhor forma, Costa e o PS não estão a coberto de nenhum contratempo com sério impacto na opinião pública e reflexo em urna. E, não sendo seguro que as perdas dos socialistas engrossem por inteiro o pecúlio do PSD, criando, à direita, um quadro de maioria parlamentar ou de tal vizinho, entre os dois, por arranjo expresso e novidade, se poderão jogar os destinos do País.
Rio abdica dos espalhafatos: uma oposição paciente, reputada de séria, é capaz de extrair benefícios majorados de uma imprevidência, de um erro de cálculo, de uma ilusão de impunidade, que em colo de ministro aterrem e a quem Costa caia na asneira de respaldar, para não dar partes de fraco. A oposição de Rio caçaria de emboscada, trajando de camuflado, a rigor. O diabo propalado por Passos voltou--se contra o próprio invocador. Passos conseguiu a proeza de sofrer maior erosão na oposição, do que à frente de um elenco governativo. Rio tem tudo para não ir por aí, até o exemplo dos que ficam para trás.
Resta saber o que é que o colégio eleitoral do PSD pretende. É evidente que Rio patina, como se de galochas se aventurasse sobre paralelo vidrado com as geadas da noite. É evidente que Santana o leva às cordas, com o patuá de quem nunca está na frase à qual tardiamente se responde. Por que outra razão quereria Santana uma profusão de debates?
Santana quer palco – teatral vocação para sempre perdida. Santana não quer ser primeiro-ministro, quer representar-lhe o papel. Rio quer ser líder partidário, e putativo primeiro-ministro, mas está em riscos de falhar o casting, por excesso de secura na composição do personagem. Faltou, a Rio, colorir ramalhete com mais umas coisinhas, e não era coisa que, de fora, não lhe pudesse ser dita. A Política presta-se pouco a cavalheiros. Quanto ao tal joguinho de cartas: quem é que nunca lerpou de bisca?

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