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Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias

2010-03-02 às 06h00

Jorge Cruz

Pelos vistos, Mário Soares e os incondicionais que gravitam à sua volta continuam a gostar de Cavaco Silva. Depois de objectivamente o terem ajudado a eleger, em 2006, tentam a todo o custo mantê-lo em Belém após as eleições presidenciais do próximo ano.
Só à luz deste raciocínio se pode compreender a insistente teimosia de elementos da ala soarista em encontrar um candidato presidencial que possa fragmentar a esquerda e, dessa forma, beneficiar a reeleição do actual presidente da República.

Penso que ninguém tem dúvidas quanto à utilidade prática da candidatura de Soares nas últimas presidenciais: apenas serviu para ajudar a eleger Cavaco. E também creio que ao próprio antigo presidente da República, a quem todos reconhecem excepcional visão e experiência políticas, nunca restaram quaisquer incertezas ou ilusões sobre as suas reais possibilidades de vitória.

O único erro de cálculo que cometeu terá sido na dimensão da derrota e, digamos, na hierarquização dos resultados pois acredito que nunca lhe passou pela cabeça sofrer uma punição tão humilhante quanto aquela que lhe foi infligida. Assim sendo, e tendo em conta o que se passou em 2006, parece haver agora quem pense que as próximas presidenciais deverão ser também um ajuste de contas.

É do conhecimento público que a ala soarista se desdobrou em contactos para tentar encontrar um candidato alternativo a Manuel Alegre. Procurou uma personalidade que pudesse vir a recolher o apoio formal do Partido Socialista para, dessa forma, fragilizar a previsível candidatura de Alegre. Jorge Sampaio, Jaime Gama, António Guterres, Rui Vilar, Artur Santos Silva ou Carlos Monjardino terão sido apenas alguns dos nomes sondados e que recusaram, manifestando indisponibilidade para avançarem.

Agora, porém, o surgimento da candidatura do médico Fernando Nobre constitui uma machadada na estratégia dos soaristas e acabará por ser sempre uma derrota para eles, independentemente de ser ou não pensada ou patrocinada por Soares.
E resulta em revés, em primeiro lugar porque mesmo a ser verdade que a ala soarista nada tem a ver com esta candidatura, não me parece que fique qualquer espaço de manobra para o aparecimento de outro candidato da área do Partido Socialista. Sinceramente, não estou a ver alguém com disponibilidade para fazer o papel de “cordeiro” pronto para o “sacrifício”.

Depois, porque se sabe que historicamente o impacto dos candidatos independentes e não políticos nas eleições presidenciais portuguesas é muito escasso, praticamente nulo. A excepção foi Maria de Lurdes Pintassilgo, que obteve cerca de 7% dos votos, mas não nos podemos esquecer que a candidata tinha alguma actividade política e havia desempenhado o cargo de primeira-ministra. Finalmente, porque não creio que o PS tenha condições, nas actuais circunstâncias, para apoiar outro candidato que não Alegre.

Quer isto significar que nas próximas eleições presidenciais, aos socialistas, onde naturalmente também se incluem os soaristas, não restará outra solução que não seja o voto no candidato apoiado pelo seu partido.

Ora, como na actual conjuntura não é minimamente expectável o aparecimento de outra candidatura oriunda desta área, a lógica parece apontar para que a escolha recaia em Manuel Alegre. Sim, porque ninguém acredita que o PS troque o seu prestigiado militante histórico por um candidato de direita - Cavaco Silva ou outro - ou por um “outsider” da política, como é o caso de Fernando Nobre.

Não está em causa, obviamente, o prestígio deste médico altruísta, respeitado transversalmente pela sociedade portuguesa pelo trabalho humanitário que tem desenvolvido em praticamente todo o mundo. Trata-se, tão-somente, da sua falta de currículo e de experiência política, decisivamente necessárias ao desempenho do cargo de presidente da República.

A experiência da AMI, de ligação directa a uma entidade um tanto ou quanto anónima que dá pelo nome de povo, pode resultar no caso específico da organização de missões de ajuda humanitária, mas não tem razoabilidade nem me parece capaz de ser levada à prática com sucesso quando o objectivo é a eleição para o mais alto cargo da Nação.

Finalmente, como poderia a direcção do PS explicar ao partido uma eventual preferência por uma candidatura exterior, quando se sabe que Manuel Alegre tem vindo a recolher cada vez maior número de apoios entre as bases e até mesmo entre alguns quadros e dirigentes socialistas.

Por todas estas razões penso que a candidatura “civilista” de Fernando Nobre acabou por ter um efeito directo e quase imediato na vida partidária, ao contribuir para reduzir drasticamente a margem de manobra da direcção do Partido Socialista.

Se será assim ou não é o que estará prestes a saber-se. Isto porque a posição oficial do PS sobre as eleições presidenciais será conhecida após a aprovação do Orçamento do Estado, conforme já foi sublinhado pelo presidente do grupo parlamentar socialista. Como a votação final do diploma está marcada para o próximo dia 12, é de admitir que a decisão seja anunciada até final do mês. Mas até ao anúncio formal, e pesem embora os vários sinais que vão sendo dados, tudo o que se disser pode ser considerado especulativo.

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