Correio do Minho

Braga, sábado

'Bela com senão', por Filipe Moreira

Investir em obrigações: o que devo saber?

Conta o Leitor

2010-07-27 às 06h00

Escritor

Chamavam-lhe a Russa, principalmente por ser loura. Tinha um cabelo longo e liso, bonito. Quem dera a todas as outras, pensava e dizia para quem a quisesse ouvir. E com a razão de quem sabia que a inveja era o mal de que padeciam as outras todas na aldeia, por ela ter nascido com um rosto, corpo e cabelo que pareciam tocados por Deus, de tal forma moldados com perfeição de medidas e proporções, e que aos homens da aldeia não deixavam dúvida alguma na hora de as considerarem divinas.

Todos a desejavam, todos a queriam ter. E ela, com o seu olhar frio e azul, e uma língua afiada, não dava qualquer hipótese a quem quer que fosse. Nenhum homem da aldeia a tivera, nem tão pouco conheciam alguém de fora que tivesse sido visto com ela, alguma vez. As más-linguas e os mal-dizentes, à boca pequena, diziam-na mulher de mulheres, muito embora nunca tal pudessem afiançar com certezas, visto nunca terem sabido de nada em concreto que o confirmasse. Que era uma pessoa estranha, sem dúvida.

O facto de ter sido trazida para a aldeia ainda criança, pela mão do Sr. Doutor, único médico das redondezas durante décadas e que a todos conhecia bem, falecido há dez anos já, quem diria, como o tempo nos prega partidas e ficamos abismados com a sua passagem, abrupta tantas vezes e arrastada tantas outras, essa vinda ainda em tão tenra idade, dizia eu, fez com que se tornasse mulher da terra, como se houvera nascido por cá. Diziam que o Doutor a tinha adoptado numa viagem à Rússia, que a tinha encontrado algures por lá, orfã de pai e mãe e perdida numa estrada qualquer, e que o Sr. Doutor, que Deus o tenha, com o bom coração que todos reconheciam, se teria condoído pelo drama e a adoptou, para que pudesse ter alguém que lhe acompanhasse a velhice e amparasse a viuvez recente, dado que, concerteza pela doença prolongada da sua mulher, nunca tinha tido filhos.

Todos se lembravam bem da sua infância, dos episódios com que ela marcara a vida da aldeia. A beleza inquestionável da miúda, aliada à inteligência que demonstrara ao aprender a falar português, correctamente e sem qualquer vestígio de pronúncia eslava, ainda antes do fim do primeiro período de aulas da primeira classe, sem mácula na escrita, na gramática, ortografia e caligrafia e tudo, fizeram-na o foco de atenção da Sra. Professora, que a recomendou ao Sr. Padre, para que fizesse daquele anjo a leitora na missa, se não das leituras todas, pelo menos um salmo qualquer.

Ela ainda foi a um ensaio, a casa do pároco, um ensaio particular, e como o Sr. Padre, desconfiado de tanta beleza e inteligência juntas, tentara certificar-se se ela era um anjo de Deus ou uma tentação do Demo, ela negou-se a tocar-lhe e a despir o vestido, e com uma língua que todos desconheciam, correu para a rua, gritando a plenos pulmões que a tinha tentado violar, profaná-la, e que ia até Braga fazer queixa ao Arcebispo daquele abusador em nome de Deus, e que ele havia de arder no fogo dos Infernos todos pelo que tentara fazer. Ninguém acreditou, é certo. Logo o Sr. Padre, aquela alma caridosa, tão amiga de todos como sedenta de um bom vinho, ou mesmo mau, porque a Igreja professa a tolerância e não discrimina nada nem ninguém desde que não seja fruto do Demo.

A verdade é que inexplicavelmente, depois de dois dias sem missa por manifesta indisposição do padre, encontraram-no pendurado pelo pescoço na corda do sino, com uma carta fechada num sobrescrito da paróquia, endereçada ao Arcebispo. Nem os senhores da Judiciária que vieram averiguar o estranho acontecimento, e recolher a carta para a entregarem a quem de direito, como se acumulassem a função de carteiros dos mortos, nem ninguém na aldeia entendia muito bem o que levara o santo homem a tal acto, incomodando toda a gente às três e tal da manhã com o badalar estranho e fora de horas do sino, e deixando toda uma comunidade sem confessor, assim, sem aviso.

O Sr. Doutor afiançava tratar-se de suicídio, mas era quase certo que defendia a Russa, visto que ela o ameaçara dias antes com o fogo dos Infernos, e que com aquela personalidade irascível e endemoninhada podia muito bem ter transtornado o bom do Sr. Padre, levando-o a cumprir aquele ritual macabro. Houve quem a comparasse à menina que vomitava verde e rodava a cabeça como um saca-rolhas, no filme que se viu em tempos no salão paroquial, mas também era sobejamente conhecido de todos o problema em que o vinho bom ou mau se podia tornar, quando começava a cobrar a saúde física ou mental dos homens que o apreciavam muito.

Anos mais tarde, o filho do Sr. Doutor Juíz, que vinha passar as férias grandes à casa na aldeia todos os anos, perdeu-se de amores pela Russa, que entretanto crescera, mulher precoce nas formas que a distinguiam já das suas colegas de escola da mesma idade, e numa noite de calor tentara a sua sorte, atrás do palco que se tinha montado no adro durante as festas do Santo padroeiro da freguesia, numa investida amorosa sem sucesso e que resultara na vergonha de ter de voltar para casa sem calças e com o lábio rachado e a sangrar, humilhado publicamente por todos, enquanto as suas calças completamente esfarrapadas drapeavam ao vento no topo do mastro da bandeira. Nunca mais foi visto por cá. Dizem que entretanto foi visto vestido de mulher num show de uma casa nocturna na cidade, e com cujo dono, ao que dizem, vive em concubinato.

Estas histórias sempre afastaram qualquer pretendente, alertados por quem cá vive e não houve mais quem se perdesse por ela e não fosse avisado antes de intentar uma aproximação.
Desde que o Sr. Doutor morrera, a casa onde outrora viviam os dois aparentava estar mais escura e descuidada, as senhoras que a limpavam e cozinhavam foram mandadas embora, e era agora habitada apenas por ela, os seus dois gatos, um papagaio velho e malcriado que da janela aberta insultava toda a gente que passava com impropérios irrepetíveis, e as duas dúzias de pombos que, amestrados, viviam soltos num pombal aberto nas traseiras da casa, e que infernizavam a vida das mulheres que deixavam a roupa nos estendais, sempre que saíam e esvoaçavam por aí nas suas voltas.

Todos os dias ao fim da tarde, ouvia-se, da rua, o som do piano que a Russa tocava aplicadamente, e durante duas horas o ar era inundado de músicas que ninguém nunca ouvira, parecidas com as que se ouviam naqueles concertos chatos que davam de vez em quando no segundo canal da televisão e que faziam toda a gente virar de canal logo a seguir, nem as da missa eram tão enfadonhas, enquanto o papagaio insultava a plenos pulmões a mãe deste e daquele, a senhora que passava a carregar os sacos das compras, e os miúdos que lhe atiravam pedras e se riam da desfaçatez do bicho.

Até que apareceram cá os senhores da televisão, numa reportagem sobre as aldeias que prezam e praticam ainda as tradições todas que fundaram e formaram este país, e se cruzaram com ela na rua, estupefactos que ficaram a olhá-la, a filmarem-na às escondidas, já que ela recusava ser filmada, e convenceram-na a contar-lhes a sua história, a tocar piano para eles ouvirem, e por fim a ir com eles, até à capital, onde poderia ouvir outros que tocavam o mesmo que ela. Vimo-la a carregar as malas, o piano, os gatos e o papagaio na carrinha deles e a partir sem se despedir de ninguém. Nunca mais a vimos por cá.

A casa ainda aí está de pé, embora em ruínas, os pombos continuam cá como uma praga, divina ou demoníaca, a dúvida é justa, e o papagaio que foi com ela não deixou saudades.
Vimo-la ontem na televisão, ao que parece ganhava a vida a tocar piano para salas cheias de gente no estrangeiro, morreu de overdose num quarto de hotel em Itália, como as estrelas de rock e do cinema, e ficamos a saber assim que ficou conhecida internacionalmente pelo estranho nome de Vladimira Demo, o anjo russo do piano.

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