Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Aventuras de um confinado

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Aventuras de um confinado

Ideias

2020-05-15 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Confinado numa quinta, para os lados da Póvoa de Lanhoso, nesse engano de alma ledo e cego que espero a fortuna não deixe durar muito, ao mexer em uns papéis, para preparar uma aula, encontrei As Memórias de Soldado na Índia. Trata-se de um manuscrito que foi parar ao Museu Britânico e que é atribuído a Francisco Rodrigues Silveira, que serviu no Oriente entre 1586-1589, e que procurou reformar a administração portuguesa no Oriente com a Reformulação da Milícia do Estado da Oriental Índia. Não conseguiu o seu intento, não deve ter caído nas boas graças do vice-rei e viu o Oriente cair aos bocados nas mãos dos holandeses.
Regressa a Portugal nos finais do século, com grandes meios de fortuna, adquiridos na Índia, que, como bom soldado prático, conseguiu acumular, seguindo as orientações do seu contemporâneo e amigo Diogo de Couto, funcionário no Arquivo de Goa e que afirmava: “… porque eu quero vender o meu saber, pois sou mal pago no meu serviço…”.

Este veterano volta à sua terra na Beira Alta, compra uma quinta e casa com uma nobre, senhora prendada, mas pobre. E quando julgava ”dar-se inteiro aos affectos conjugais e às serenas e sans alegrias da vida campestre”, viu-se a correr perigos, trabalhos e aflições como nunca experimentara nos mares e campanhas do Oriente.
Não tendo o estatuto de nobre, nem o alvará de cavaleiro, caiu debaixo da alçada do tabelião de Caria que o perseguiu, estando preso um ano. E, tendo querelado do tabelião, apelou para o corregedor de Lamego, onde foi baqueado mais uma vez pelo dito tabelião, sem lhe restar mais vantagem que o vão desforço de acoimar de sangue judaico o seu titânico contentor, o qual, entretanto, era eleito juiz do povo. Depois de perorar contra os juízes do povo, apelando para a sua substituição por juízes de fora, apelou para a Relação do Porto, onde foi novamente condenado a cadeia, junto do chafariz de S. Domingos, na entrada da rua das Flores, tendo-lhe sido dito no final da sentença: ”que soffresse tudo e calasse, tendo para si que ainda muito mais merecia.” E foi assim o guerreiro, que affrontara a morte em tantas batalhas, prostrado pela mão certeira de um tabelião de aldeia.

Entretanto, a sua mulher D. Maria Saraiva, não ficou tranquila na Quinta do Ribeiro. De requerimento em requerimento, foi falar do caso a um certo desembargador, tendo-lhe este “prometido que se o quizesse comprazer, faria de modo que o seu marido saísse logo da cadeia (…) e vendo que a generosa e casta matrona não deferia o seu propósito lhe disse-pois não queria comprazer-lhe, tivesse por certo que em seus dias não veria o seu marido solto”.

A prisão do malogrado litigante não duraria mais do que o ano de 1619. Entretanto, o tabelião seu inimigo havia sido nomeado juiz de fora na comarca de Lamego. Em 1626, foi Silveira e sua mulher, D. Maria, condenados pela Relação do Porto em cem cruzados e dois anos de degredo. De 1626 a 1634 não nos dá notícia o manuscrito. Mas em 1634, foi a princesa D. Margarida, duquesa de Mântua, nomeada regente do reino de Portugal. E é a ela que o manuscrito foi enviado, tendo-lhe sido dado o seguinte conselho: “Nunca ninguém foi á Índia senão vós? Se se perde, deixae-a perder. Tratae do vosso negocio e deixae a Índia que não havemos cá mister quem nos dê conselho”.

Já neste século apareceu no Museu Britânico, como tantos outros documentos de que os ingleses se apropriaram, argumentando que poderiam cair nas mãos dos franceses. Mas estes só queriam ouro, prata e bronze para balas de canhão. E, de resto, muitos outros documentos se perderam na praia a quando da debandada da corte para o Brasil.
É esta diatribe que me apeteceu escrever, em primeiro lugar porque representa um panfleto contra a administração local, mesmo da justiça; em segundo lugar, porque os portugueses exportaram para a Índia os seus truques, artimanhas e processos,o que explica a derrocada do império português do Oriente. Em quanto Afonso de Albuquerque reinou, a coisa funcionou, mas mesmo este acabou mal; finalmente, os reformadores, em Portugal, não têm grande fim.
As instituições, a cultura, os hábitos pouco mudaram ao longo dos séculos.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho