Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Até a nossa altura…

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2015-04-03 às 06h00

Margarida Proença

Estou finalmente a ler um livro que já há muito constava da minha lista - ‘Armas, Germes e Aço’, de Jared Diamond, recentemente publicado em português numa edição do Círculo de Leitores. Trata-se, claro está, de uma tese, de uma tentativa de interpretação da história do mundo.

Basicamente, o autor questiona porque é que alguns povos tiveram uma evolução diferente dos outros, quando se encontram pessoas com níveis de inteligência perfeitamente similares nos mais diversos pontos do globo, e tal sempre aconteceu. Porque é que a riqueza e o poder estão distribuídos como estão? Porque é que não foram os índios americanos ou os aborígenes australianos, ou outros, a acabar com os europeus e os asiáticos, e a história aconteceu como sabemos?

Tem havido diversas tentativas de responder a esta questão intrigante, de âmbito e natureza mais ou menos limitada, por autores na generalidade das áreas científicas. Weber, por exemplo, numa obra muitíssimo conhecida, ‘A Ética do Protestantismo’, argumentava que a religião era importante, e nessa medida, o espírito e a ética calvinista, que sublinha o valor positivo do trabalho, da poupança e do enriquecimento, tinha conduzido a florescimento do capitalismo, enquanto o catolicismo, na sua desaprovação implícita dos lucros, o tornava mais difícil.

Esta tese é por vezes utilizada para contrapor a chamada Europa do Norte, protestante e rica, à chamada Europa das Oliveiras, o sul católico , mais pobre, com as consequentes usuais interpretações ligeiras sobre a capacidade de trabalho de cada. Mas a questão é mais complexa; na verdade, foi ainda nos sécs. XIV e XV que se começaram a desenvolver os princípios que conduziram ao capitalismo, claramente em áreas católicas. Pode até mesmo colocar-se a questão ao contrário - os calvinistas adaptaram a sua filosofia à crescente importância da burguesia, e são portanto um resultado possível, não uma causa, como von Mises sublinhava.

Outras teorias que fizeram a sua história têm a ver com interpretações baseadas na raça, na geografia, na cultura, até o destino tem sido utilizado para explicar porque é que uns falham mais do que outros. Acemoglu e Robinson argumentam que tem a ver com as instituições políticas e económicas dos países. Um dos exemplos que usam é o caso de duas cidades, idênticas, mas uma do lado mexicano da fronteira, e a outra no lado dos EUA; uma com pobreza elevada, outra afluente. Ao longo de um significativo trabalho de revisão da história, desde o tempo do império romano, os autores propõem a tese de que a riqueza moderna tem bases políticas.

O investimento e a inovação são fundamentais para que a riqueza seja produzida, mas só aparecem quando se acredita. Só se investe quando se acredita que haverá retorno, só há verdadeiramente desenvolvimento quando as instituições políticas são inclusivas, quando são criados, e generalizados, incentivos para investir.

Neste sentido, as vantagens competitivas dos países assentam de facto em instituições económicas que garantam nomeadamente o direito à propriedade, validados por quadros legais que garantam a igualdade de todos perante a lei, o respeito pelos contratos ou o direito ao trabalho. No fundo, esta abordagem responde ainda a uma das discussões mais famosas do pensamento económico recente , e que se deu entre Krugman e Porter.

Tem a ver com a questão, já muito antiga, sobre se os países são mais competitivos , porque são mais produtivos, ou se pelo contrário, são mais produtivos porque são mais competitivos. Parece assim um tanto a história de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, mas é mais do que isso. Devemos manter os salários baixos, sendo mais competitivos dessa forma, e logo crescendo e enriquecendo mais rapidamente, ou pelo contrário , sendo mais produtivos, até porque temos níveis de acumulação de conhecimentos mais elevados, e produzimos produtos com maior valor acrescentado e mais inovadores, somos mais competitivos, embora com níveis salariais mais altos.

De acordo com o pensamento de Acemoglu e Robinson, foram as sociedades que conseguiram criar mais riqueza para todos, empresas, trabalhadores e estado, que se tornaram mais competitivas.
E no fundo depende da capacidade dos governantes, e das escolhas políticas que fazem. Esta tese agora de Jared Diamond vem argumentar que no fundo, o destino das sociedades humanos dependeu sempre de quem tinha mais acesso à tecnologia, e ao poder político-militar, num quadro em que sempre existiram contágios, em que as doenças proliferaram e mataram quem não tinha defesas. Defendem ainda que as “boas instituições” não são uma variável aleatória, mas que resultam de uma “longa cadeia de ligações históricas”.

Parece que a altura dos portugueses, de acordo com dados antropométricos do início do séc. XVIII , era perfeitamente comparável ao do resto da Europa. Num artigo curioso, e aparentemente bem fundamentado de Stolz, Baten e Reis, a altura começou a divergir por meados do séc. XIX, cada vez mais, e por 1890 éramos já os mais baixos da Europa.
Os autores argumentam que a industrialização tardia e o menor crescimento económico, acompanhando salários mais baixos, e por outro lado, o menor investimento na formação de capital humano foram os principais fatores de explicação.

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