Correio do Minho

Braga, terça-feira

Assim se lutou...por este país

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2016-07-04 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares

Aimigração sempre foi uma aventura, se para muitos foi bem-estar e prosperidade, para outros foi, infelicidade e precariedade. Era isso que os pais do João argumentavam quando ele decidiu ir para França aos dezoito anos, na década de sessenta. Então pensou pedir dinheiro e partir sem dizer aos seus pais, nesse dia contou à namorada as suas intenções de partir em segredo. Ainda não tinha acabado de expor a situação e já duas lágrimas lhe corriam na face, era a primeira vez que alguém chorava por ele, a namorada pediu-lhe que não fizesse isso aos seus pais, encorajando-o a falar com o seu pai. E foi aquele olhar triste, que o deixou abalado, ao despedir-se da namorada, sentiu que alguma coisa se tinha passado. Naqueles olhos estava a sua sina, banhada em lágrimas que o deixaram de novo uma criança indecisa e frágil.
Despediu-se com a intenção de falar com o seu pai logo que a ocasião se apresenta-se. Uns dias de pois, estava o seu pai no quintal sozinho, encheu-se de coragem e foi então que lhe disse, que ia para França, já tinha quem lhe empresta-se o dinheiro e que ele não o podia impedir. Foi a primeira vez que viu o seu pai chorar, então viu quanto mal tinha feito a seu pai, pessoa que pensava ser à prova de tudo. Seguiram-se uns segundos de silêncio, mas o seu pai logo se recompôs e propôs-se ajudá-lo, dispondo-se a pedir dinheiro para a passagem e arranjar passador, sobe a promessa de o filho vir fazer o serviço militar, que ele prometeu e também pagar a divida da viagem logo que pudesse. Lembro que nesse tempo aos dezoito anos ainda se era menor, era uma dificuldade acrescida para os jovens.
O João andava impaciente com esta situação, evitando falar com o seu pai. Umas semanas depois, o pai perguntu-lhe se ainda queria ir para França. O João respondeu-lhe que sim, então o pai disse saber de passador e já tinha pedido o dinheiro, seriam dez mil escudos para o passador e mil e quinhentos escudos para ele levar, mais uma vez, tive de prometer pagar a divida que o pai vinha de contrair por sua causa. O pai planeou tudo e só informou o filho dois dias antes da partida. Agora o filho vinha de conhecer a verdadeira dimensão da sua aventura e todo o segredo necessário para conseguir sair do país. Mas uma coisa lhe vinha à mente, como poderia partir sem se despedir da família como tinha planeado! Dos seis irmãos, era o primeiro a partir, deixando a sua irmã com apenas cinco meses. Também a eles tinha de provar ser um homem e que as promessas feitas a seu pai seriam cumpridas.
Chegado o dia, partiu com um grupo de sete pessoas destino a Montalegre num carro velho, foram escolhidos dois magrinhos para ir na mala do carro, por motivos de segurança tiveram de parar e dormir junto à barragem dos Pisões. No dia seguinte às cinco da manhã, apresentou-se um jovem sem carta de condução que não teria mais de dezassete anos, para os transportar, a confusão instalou-se e já ninguém queria entrar naquele carro, o João era o mais novo do grupo e estava com medo do que viesse acontecer, como estariam os que deixavam mulher e filhos? Muito preocupados com certeza. O jovem passador abriu as portas do carro e ameaçou! Quem não entrar fica aqui e todos entraram, o João entrou para a mala com o seu companheiro de viagem chamado José que vinha de conhecer, depois de muitas paragens e informações ao longo do percurso, chegaram a Chaves, perto da noite, seguindo a pé para a fronteira. Ali foram aparcados junto a uma cabana de guardar animais, apontando-lhes uma fonte a poucos metros, para matarem a sede que há muito suportavam. Foi-lhes dado uma refeição de pão e chouriço, já era o segundo dia sem comerem nada quente. Pela senhora que trouxe a refeição, foram informados que passariam ali a noite e que partiam na madrugada para Orense. Houve uma surpresa ao meio da noite, quando um grupo de mais de trinta pessoas se viera juntar a eles, homens mulheres e algumas crianças. Não houve sossego durante a noite, com discussões entre grupos. Na madrugada, veio um casal com uma lanterna, contou-os e dividiu-os em dois grupos, o João ficou no segundo grupo.
O primeiro grupo partiu, mas o João ficou muito assustado, ao ver partir tanta gente com crianças a chorar, quando a consigna era silêncio absoluto, todos sabiam que era muito perigoso passar a fonteira, os guardas estavam armados e havia registo de feridos e mortes nas fronteiras. O grupo do João partiria às cinco, mas ninguém apareceu e do primeiro grupo nada se sabia, foi a manhã mais longa do João e dos seus colegas de infortúnio. O João á muito desejava a casa de seu pai, estava mil vezes arrependido de fazer sofrer a sua família. Também a namorada lhe vinha à mente, como estaria ela? Teria forças para esperar por ele um ano, como prometido na despedida? Só agora o João tinha consciência da verdadeira dimensão da sua aventura.
Às duas horas da tarde chegou o mesmo casal, que os encaminhou para a fronteira, passaram o regato que os separava da Espanha e caminharam alguns quilómetros, por fim, encontraram um autocarro que os transportou à estação de Orense, aqui foi-lhes dado mais pão, chouriço e os bilhetes de comboio a cada um, segundo os seus destinos. O João levava uma bagagem muito difícil de transportar num mês de Agosto, duas camisas e duas camisolas e dois pares de calças, vestidas, visto não poder levar nada na mão. O João cumpriu todas as promessas feitas a seu pai, pagando a viagem e vindo fazer o serviço militar no Ultramar. A sua namorada esperou por ele cinco anos, mas ele voltou e cumpriu a promessa, de serem felizes para sempre. O País tem uma grande divida para com estes imigrantes, que contribuíram também para o bem-estar dos que cá ficaram. Participando assim, no desenvolvimento económico do Portugal rural do seculo vinte.

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