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Assim-assim, ou assim, sim?

Uma máquina consciente

Assim-assim, ou assim, sim?

Voz aos Escritores

2020-02-28 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Que tal correu o exame? Correu assim-assim, respondeu ela. E encolheu os ombros, querendo talvez sugerir uma realização a descair para o mal, ou para o menos bem. Quando dizemos assim-assim a coisa, sob a capa do razoável, parece preta. Foi sempre deste modo que interpretei as respostas dos meus filhos à pergunta sacramental, e quase sempre acertei. A Paula, de todos a mais eufemística, amortecia o impacto com estrangeirismos moinantes, do tipo «so,so», ou «comme ci, comme ça», e eu engolia em seco, amofinado com tão repreensíveis resultados. Aliás, quando respondia «sim», eu torcia o nariz e desconfiava, que a rapariga é fina como o Alho, para além de saber latim. Um dia, a propósito da Sic, estação de televisão que frequentava excessivamente por mor de novelas brasileiras, pespegou-me com a locução latina «sic transit gloria mundi», sugerindo a efemeridade do êxito e da fama como justificação dos resultados. E efabulou comparações entre a Sic e o «sic» latino, originário do nosso advérbio da afirmação. Quando um dia me surgiu, entre gaguejos estudados, com um «então é assim», carregado daqueles dois pontos que ferem os neurónios mais inteligentes, fiquei a esmiuçar o saco da minha culpa, que, pelo visto, abarrotava no inferno. Ajudou-me o «ad sic» e o português derivado, que o «então» não me pareceu temporal. «Assim o quê», ralhei. «Ó pai, assim, deste modo, desta forma, que vou explicar». E lá ouvi, com atenção canina e cauda balouçante, a lógica quase adulta plena de sedução. Com ela aprendi, e continuo a aprender, o significado do «sim» e do «assim», para além das tiradas à Cícero aprendidas nas aulas do amigo Cosme. Isto é: alguns significados, que este tema está assim de possibilidades. Não sei se repararam, mas quando disse «está assim de» eu fiz um gesto com os dedos, à italiana, querendo relevar a quantidade. «Estar assim de» é, com efeito, uma fórmula quantificadora.

Não sei se a miúda aprendeu muito da avó, minha santa sogra, mas desconfio que sim. Um dia, na recidiva de grande discussão política, de garfo ao alto e voz esganiçada, esta levantou-se e disse: «Sinquetal, deixo-vos sozinhos e vou passear o cão». Percebi logo a do cão, mas só depois a do «assim que tal», locução que esfarrapei pelo contexto. Bem tentei encontrá-la em dicionários e gramáticas, mas nem vê-la. Alguém me sugeriu, mais tarde, uma comparação com o «cantal» («quando tal»), e desta eu já tinha uma ligeira reminiscência. Assim como assim, aprendi a não discutir política nos jantares de família, aceitando, com algumas reservas, loas ao Benfica e pai-nossos desesperados, culminados com «assim-seja» no final das refeições. Por mera coincidência, o meu pai tinha por hábito repetir sistematicamente um «como assim» interrogativo, pedindo explicações ou esclarecimentos no fim de cada enunciação, e eu ficava sempre muito admirado com o seu rigor. Soubemos todos mais tarde que estava com graves problemas de audição, e que aquele «como assim» parecia a sua muleta inteligente a funcionar. Ainda assim, assim que pudemos, levámo-lo a um otorrino que, com gestos amplos e compreensivelmente esquivos, lhe ensinava que devia fazer assim e fazer assado, e o velhote lá foi assimilando a coisa.

Mas entenda-se: o «como assim» tinha explicação, resultado das características sintáticas de um seu antigo professor de português, que, perante respostas muito duvidosas dos seus alunos, abria as mãos e perguntava, meio abananado: «como assim?». À verborreia quase nula das respostas, puxava da caderneta e, resmungando um «sendo assim», arremessava traços negativos à esquerda e à direita.
A propósito deste tema, podia ir «assim por diante». Ou podia aproveitar algumas tiradas poéticas do Pessoa e do Camões, que eles usavam advérbios, expressões e locuções cheias de «sim» e de «assim», à boa maneira portuguesa. Se não acreditam, quem escreveu «e assim nas calhas de roda», ou «Assim em cada lago a lua toda brilha», quem foi? E o Camões? Não foi ele que, desesperado, disse «assim que, só para mim, anda o mundo concertado»?
Acreditem que sim, foram eles, e que assim, ou assim-assim, deram uma pujança do caraças à língua portuguesa.?

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