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Ascensão e queda de Miguel José Raio

Oh não, outra vez a paixão pela educação!

Ascensão e queda de Miguel José Raio

Ideias

2021-05-30 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Uma das grandes atrações arquitetónicas de Braga é, sem dúvida, o Palácio do Raio, um dos expoentes do Barroco português e que a 13 de julho de 1956 o Ministério da Educação Nacional, através da Direção-Geral do Ensino Superior e das Belas-Artes, classificou como monumento nacional a “fachada rocaille e escadaria do Palácio do Raio” (portaria n.º 15904).
Este imóvel, verdadeiro palácio, foi mandado construir pelo rico comerciante de Braga, João Duarte de Faria, e foi adquirido em 1867 (110 anos após a sua construção), pelo bracarense Miguel José Raio.
Com um percurso bem peculiar, Miguel José Raio enfrentou várias etapas da sua vida marcadas, por um lado, por pobreza extrema e, por outro lado, pela grande pujança económica.
Filho de pais muito pobres e humildes, caraterísticas bem comuns na época, Miguel José Raio não teve outra alternativa senão seguir o destino de muitos bracarenses de então: emigrar para o Brasil, onde em terras do Pará tentaria melhorar o seu fado.

A maioria dos portugueses que emigrava para o Brasil tinha, na época, um de três destinos: ou morria durante a longa e desgastante viagem marítima; ou acabava na miséria em terras brasileiras; ou obtinha uma enorme riqueza, devido às oportunidades que nessas terras se apresentavam.
Fruto da sua entrega ao labor em terras do Pará, Miguel José Raio conseguiu acumular uma grande fortuna, partilhando-a com muitos familiares e amigos quando regressou a Braga, tal como é afirmado no “Commercio do Minho”, de 17 de agosto de 1875: “Foi sempre bom irmão e amigo generoso e franco, qualidades que lhe valeram a geral estima de que justamente gozou durante a sua peregrinação por este valle de lagrimas”.
Uma das mais nobres ações de Miguel José Raio, durante toda a sua vida, ocorreu no dia 28 de abril de 1872, quando concedeu a liberdade a todos os escravos que trabalhavam para si no Brasil.
Profundamente religioso, outra das caraterísticas da sociedade bracarense de então, Miguel José Raio não se coibia de patronear várias obras de cariz social e religioso: “Era dotado de bons sentimentos religiosos, e de grande caridade” (id.). Tinha particular devoção por Nossa Senhora dos Desamparados, que se venerava na igreja dos Terceiros, e para onde encaminhava vários donativos. No mesmo sentido entregava várias somas de dinheiro para as casas de caridade de Braga.

A preocupação com a família, especialmente com os seus filhos, incentivou-o a abrir uma rua, em frente à sua majestosa casa, para dessa forma poder construir duas habitações para as suas filhas.
A dedicação demonstrada à sua terra e às suas gentes está espelhada nos cargos que ocupou: foi um dos fundadores do Banco do Minho e vice-presidente da assembleia-geral e membro do conselho fiscal dessa instituição bancária; foi um dos fundadores e diretor do Asilo D. Pedro V; foi um dos fundadores do Teatro de S. Geraldo.
O reconhecimento público e institucional de Braga e do país a Miguel José Raio está espelhado nas diversas homenagens que teve: fidalgo de cota de armas; comendador da Ordem de Cristo e da Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; cavaleiro da Ordem de Cristo do Brasil e visconde de S. Lázaro, são alguns exemplos.

Este notável bracarense faleceu no dia 14 de agosto de 1875, no Bom Jesus do Monte, em Braga, com 62 anos (nasceu a 7 de março 1814). O seu desaparecimento terá ficado a dever-se a uma congestão fulminante, após ter recebido a notícia de que um seu sócio, que se encontrava em Pará, no Brasil, tinha entrado em falência e fugido, deixando-o apenas com os bens que possuía em Portugal.
Os anos que se seguiram foram de grande perturbação na sua família, nomeadamente entre os seus três filhos, Adelaide Maria José Raio, Gabriela Maria Raio e Miguel José Raio. Prova-o o facto de após a sua morte, os bens de Miguel José Raio, em Braga, terem sido postos em causa, acabando mesmo por ser colocados em hasta pública. No “Commercio do Minho”, 17 de março de 1877, encontram-se a descrição desses bens.

Depois do título “Arrematação voluntária dos bens imobiliários do falecido visconde de S. Lázaro”, segue-se a informação que, pelo “juiso de direito d’esta comarca, e cartorio do 3.° officio, de que é escrivão Motta, no dia 13 do proximo futuro mez d’abril, pelas 9 horas da manhã, á porta do tribunal judicial sito no largo de Santo Agostinho, se tem d’arrematar, e entregar a quem mais der-quando convenha” os seguintes bens do falecido Miguel José Raio:
- “A casa nobre, com seus respetivos jardins, e quintal junto, tudo circuitado por muro, de natureza alludial, no valor de 25:0000$000 rs”;
- “A propriedade rústica contígua aos ditos jardins, comprehendendo a cocheira, casa de cazeiros, eira, coberto, aguas e mais pertenças, que se compõe de vários prasos foreiros ao revm.° cabido da Sé Primaz, aos herdeiros d’Estevão Falcão Cotta de Menezes, á real irmandade de Santa Cruz. Hospital de S. João Marcos, á Mitra Primaz, e á coraria da Sé, confronta do nascente com a rua de S. Lazaro e quintaes das casas da rua da Ponte, e com terra de D. Adelaide Raio de Paiva; do sul com a mesma; do poente com o caminho chamado do Fojacal; e do norte com o quintal da dita casa nobre, no valor de 12:000$000 rs”;
- “Uma morada de casas em princípio de construcção, defronte da referida casa nobre com toda a pedraria aparelhada e por apparelhar, que se acha depositada no campo dos Remedios, no valor de 3:000$000 reis—e finalmente uma outra morada de casas com seu eido, denominado da Calçada, no logar do Sobreiro, freguezia de Santa Eulália de Tenões, no valor de reis 400$000; por isso toda a pessoa que quizer lançar póde comparecer no dia e hora indicado”.

Este documento foi assinado em Braga, no dia 5 de março de 1877, pelo solicitador João Ferreira Torres, em nome da comissão administradora e liquidatária.
De referir ainda que, como consequência das complicações económicas, em 1882, os seus herdeiros entregaram o Palácio do Raio ao Banco do Minho que, por sua vez, o revendeu no ano seguinte à Santa Casa de Misericórdia, onde viria a ser instalado o Hospital de São Marcos.
Miguel José Raio é um bom exemplo de um homem que sempre lutou para melhorar a sua vida, da sua família e da sua comunidade, mas que alguns acontecimentos infelizes acabaram por ser fatais para si e para os seus descendestes.

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