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As vítimas mortais no S. João de Braga

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Ideias

2016-06-05 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O mês de junho, que está no seu início, é sempre marcado pelas homenagens aos Santos da Igreja Católica mais populares: S. António, S. João e S. Pedro.
São muitas as localidades do país que veneram estes Santos, ficando essas festividades marcadas pela boa disposição, pelas marchas populares, pelo folclore e pelas sardinhas assadas.
Por se tratar de um mês marcado, normalmente, pelo bom tempo, e por um período de férias, são milhares as pessoas que aproveitam para se divertirem nestas festas do povo.

A maioria das pessoas, atualmente, desloca-se com grande facilidade para os vários locais onde se desenrolam estas festas, mas houve tempos, não muito distantes, em que as deslocações eram maioritariamente feitas em transportes públicos, não necessariamente de passageiros, mas de carga, e com pouca segurança. Neste contexto, irei recordar aquele que terá sido, provavelmente, o acidente mais grave que ocorreu nas festas do S. João de Braga nos últimos cem anos.

O ano de 1920 ficou marcado por uma gravíssima crise política, económica e social. Basta recordar, por exemplo, que no dia 6 de junho de 1920, o Chefe do Governo, coronel António Maria Batista, foi vítima de uma apoplexia, depois de receber uma carta injuriosa, morrendo em plena sessão do Conselho de Ministros!
Neste ambiente de grande amargura, os portugueses aproveitavam todas as oportunidades para tentarem esquecer as agruras da vida. Foi o que aconteceu com um grupo de forasteiros do Porto, que resolveu vir ao S. João de Braga, de 1920.

O S. João de Braga era muito apreciado nessa época. De várias localidades da região chegavam a Braga milhares de pessoas, desejosas de extravasar a tristeza que as marcava, fruto de uma vida dolorosa, árdua e de extrema pobreza. Assim, no dia 22 de junho de 1920, deslocou-se, da localidade de Arca de Água (Porto) para Braga, um camião de carga que transportava várias pessoas. Vinham na sua maioria sentadas na carroçaria do camião, sem a mínima segurança. Este era, aliás, o procedimento comum na época, ou seja, o transporte de passageiros efetuado em carroças puxadas por animais ou então por camiões, sem lugares para se sentarem!

Não há confirmação de quantos passageiros estariam nesse fatídico camião, que chegou a Braga na manhã desse dia 22 de junho de 1920. Sabe-se, contudo, que entrou com grande velocidade, no largo da Senhora-a-Branca, por volta das 11 horas da manhã. A velocidade era tanta, para um camião cheio de pessoas, que Alfredo Fernandes de Oliveira, o condutor do veículo, não o conseguiu segurar, embatendo violentamente num carro eléctrico, que fazia o percurso da Arcada para o Bom Jesus do Monte.

Da violência deste embate resultou a morte de quatro pessoas e ainda vários feridos, muitos dos quais em estado grave. Logo no local faleceram duas pessoas: Ana Rosa Pacheco (mãe do condutor do camião) e Maria Amélia Fernandes da Silva (de 16 anos de idade), filha de Alexandre Teixeira da Silva, naturais de Paranhos (Porto).
No dia seguinte, 23 de junho, faleceram mais duas pessoas: Alexandre Teixeira da Silva (que tinha perdido a filha no dia anterior) e a sua cunhada, Emília Rosa da Silva.

Os vários feridos, resultantes deste grave acidente, receberam tratamentos médicos nas farmácias e no Hospital de Braga.
Quanto aos mortos, o cadáver de Ana Rosa Pacheco foi sepultado no Cemitério de Monte de Arcos, em Braga. Os três restantes foram trasladados, no dia 26 de junho, para o Porto, onde ficaram sepultados.

Os contornos deste acidente foram analisados pelas autoridades policiais e judiciais da altura. Depois de ouvirem alguns sobreviventes, os intervenientes nesta acidente e alguns populares, concluiu-se que a responsabilidade maior foi do condutor do camião, uma vez que entrou a grande velocidade no largo da Senhora-a-Branca, não conseguindo travar a tempo de evitar o violento embate com o carro eléctrico que circulava naquela ocasião. Por isso, e para evitar a prisão, o condutor do camião, Alfredo Fernandes de Oliveira, teve que pagar uma caução, no valor de 2.000$00.

Nos anos seguintes, este triste episódio foi recordado por muitos que participavam no S. João de Braga.
Hoje, os transportes públicos de passageiros evoluíram muito, tal como a formação dos condutores destes veículos. E, apesar de nunca estarmos livres de acidentes, a segurança e a fiabilidade com que os passageiros são transportados é incomparavelmente maior. Para bem de todos e também para que possam festejar os Santos Populares com mais alegria e segurança!

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