Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Às vezes, quase e só entretainers, a seu jeito

A Europa e o futuro

Ideias

2015-04-13 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Tendo arguido muito recentemente a tese de doutoramento de um jovem cidadão brasileiro, aluno da Universidade Nova de Lisboa, deu-me essa tarefa a grata oportunidade de ler um excelente trabalho de campo sobre pessoas deslocadas internamente no Brasil e em Angola. Um trabalho que, sem deixar de ser Ciência, traz nas suas páginas o relato de vidas muito sofridas, e que obriga por isso a recordar que o mundo académico que se debruça sobre os desapossados, pese embora as suas boas e intenções, não deixa de ser um mundo que se move dentro de um luxuoso condomínio de direitos, de liberdades e de confortos vários que não cabem na realidade das pessoas que o jovem entrevistou. Dou então por mim a pensar que tenho muita sorte.

Tenho muita sorte também porque a minha profissão me permite contactar (ainda que muitas vezes mediado pelo olhar de outros) realidades tão distantes e tão paradoxais.
De facto, o “Brasil” do fazendeiro do agro-negócio da soja transgénica, para quem em última instância haverá sempre a força da bala para desbravar terreno à sua insaciável ganância, não é o “Brasil” do campesino enxotado, arrancado às terras.

Da mesma forma, há a Angola das autoridades públicas, que nas entrevistas que li descreviam os inúmeros e atenciosos esforços do Governo central para garantir um realojamento muito condigno de populações que, na sua ótica, estão afinal pejadas de ‘oportunistas’ (o termo vulgarizou-se a ponto de integrar a linguagem oficial com que se fala dos desalojados) que resistem à ideia de que as suas habitações ilegais apenas atrapalhavam a edificação de infraestruturas de desenvolvimento tão essenciais ao país.

E há depois há outra Angola, a dos que conheceram o êxodo da guerra e da fome, e que agora enfrentam uma nova batalha: a do abandono das suas casas, construídas durante os longos anos da guerra civil, à medida que iam chegando às periferias de cidades como Luanda e Benguela, desenraizados e apenas senhores do seu instinto de sobrevivência que lhes aguçava o engenho do improviso.

Hoje, a pretexto de não possuírem documentos (o termo “usucapião” passa ao largo das autoridades entrevistadas) - e a pretexto das tais infraestruturas tão necessárias à sociedade, os cidadãos pobres das periferias enfrentam violentas ações de despejo, e são lançados para novos bairros de miséria. Aí, onde na descrição fantástica das autoridades, há escolas, centros de saúde e um sem número de benesses sociais, vemos fotografias de pobres que aprenderam a reorganizar-se, erguendo as suas próprias escolinhas, feitas de chapa.

As aulas decorrem uma, duas vezes por semana, não é o suficiente para os meninos aprenderem, queixa-se um dos moradores. O povo reclama. Mas que fazer, se o que está feito, mesmo sendo tão pouco, foi o muito que se conseguiu fazer com o que se tinha à mão? E nas fotos dessa realidade caótica, suja, feita de improvisos e de muita vontade, vêem-se em segunda linha, lá atrás, casas bonitas, alinhadas, claras, em jeito de sonho americano. O que é aquilo? É o condomínio de luxo construído nos terrenos que as pessoas tiveram de abandonar. Afinal, o termo “infraestrutura” parece sofrer de uma estranha polissemia por aquelas bandas...

Eu tenho sorte de ver e de aprender sobre estas e muitas realidades que me estão distantes, porque o meu trabalho me permite (e em certo sentido até me obriga), estar atenta ao mundo. Mas, quando não se tem essa sorte, quem poderá ajudar-nos a perceber um pouco melhor o que se passa à nossa volta? Seja sobre a recente guerra no Iémen, seja sobre o reatar das relações EUA-Cuba, seja sobre o assassinato de 147 estudantes não-muçulmanos na Universidade de Garissa no nordeste do Quénia, às mãos dos extremistas islâmicos do Al-Shabaab, e cujas mortes não suscitaram nenhum choro coletivo, nem marchas de líderes, nem sequer ergueu colinas de velas e de flores silenciosas nas principais praças europeias.

Eu arriscaria a afirmar, e isto sem qualquer intuito provocatório, que essa missão de ajudar a perceber mais a fundo o mundo que nos rodeia, compete pelo menos em parte à Comunicação Social e também a quem com ela colabora a seu convite. Refiro-me em concreto aos colunistas e cronistas, e que não são poucos. Professores, políticos (devemos ser dos países onde mais políticos-comentadores em serviço na Comunicação Social), jornalistas, fiscalistas, especialistas, enfim, às vezes, quase e só entretainers, a seu jeito.

Passando os olhos pelas crónicas e artigos de opinião da principal imprensa, o cenário que encontro é quase sempre deprimente. Militância há, e muita, mas não é militância cívica, de compromisso com os Direitos Humanos, com o Mundo que sofre. O compromisso existe, mas não é com o cidadão, com o objetivo de o ajudar a formar ideias próprias, esclarecidas, sólidas, sobre a sua realidade complexa e exigente.

O compromisso existe, mas com agendas muito pessoais onde se aninham vaidades intelectuais, ambições partidárias, e ódios (muitos) de estimação académica, profissional, ou pessoal. Não é por isso de estranhar que uma parte significativa da nossa imprensa de opinião se centre na política doméstica, com algumas incursões pela Europa e pelos mercados internacionais, quando o compromisso com a própria política doméstica a tal obriga. Fora isso, muito pouco.

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