Correio do Minho

Braga, sábado

- +

As prostitutas e o estudante de teologia

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2011-12-12 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Os últimos textos aqui publicados, referentes ao Liceu Nacional de Braga e aos seus estudantes, mereceram comentários de algumas pessoas, os quais incidiam na questão da bondade dos estudantes do Seminário de Braga, em oposição à “malvadez” dos estudantes do Liceu de Braga.

Àqueles que ousaram esta divisão, digo-lhes que os estudantes do Liceu de Braga eram, por norma, mais controversos e mais irreverentes, mas não estavam isolados nesses comportamentos. E, para comprovar que os seus colegas de Teologia também tinham alguns comportamentos menos adequados, vou apresentar aqui um exemplo, que espantou, então, toda esta região.

Corria o mês de Maio de 1881, e com ele os exames de final de ano lectivo, quando um grave episódio ocorreu no interior das instalações do Seminário de Braga. Tudo se passou quando um estudante do Curso Superior de Teologia, em Braga, resolveu faltar a várias aulas, precisamente no último ano da sua formação.

Como havia sido, nos anos anteriores, um aluno muito cumpridor com os seus deveres de estudante, esse jovem foi alertado pelos seus colegas e pelos professores, das consequências do seu elevado número de faltas. Não ligando muito a estes avisos, o estudante, cujo nome por ora me dispenso de anunciar, foi mantendo o seu comportamento de abstinência a Deus e distância às aulas.

Insistentemente aconselhado, até pelos dirigentes do seminário, das graves consequências deste seu comportamento, o estudante lá continuava a primar pela ausência às suas obrigações escolares e teológicas, agravadas pelo facto de frequentar o seu último ano de formação.

O limite de 33 faltas foi atingido no início do mês de Maio de 1881, o que motivou uma reunião de docentes do seminário, para decidir o que fazer com este aluno finalista. No dia 15 de Maio, reuniu então o Conselho dos Professores, tendo estes decidido que o aluno deveria perder o ano lectivo e ser impedido, por isso, de fazer a sua ordenação sacerdotal.

Quando soube desta decisão, o estudante não esteve com rodeios e dirigiu-se, logo na tarde do dia seguinte (16 de Maio), aos claustros do seminário, onde exigiu falar com o vice-reitor, monsenhor Rebelo de Menezes. Como este não o recebeu, exigiu ser recebido pelo decano dos professores do Seminário, dr. Moreira Guimarães. Como este, também, não o recebeu, o estudante começou a gritar e a insultar o vice-reitor e o decano dos professores, usando termos nada condicentes com um finalista de Teologia. Pior do que isso, e usando um tom exaltado e emocionalmente descontrolado, resolveu ameaçar de morte essas duas figuras do Seminário de Braga.

Logo após, o estudante resolveu abandonar as instalações do Seminário, pensando na altura, aqueles que assistiram a este espectáculo, que o assunto teria ficado arrumado. No entanto, o espanto foi geral quando o estudante regressou, pouco depois, ao interior do Seminário, acompanhado por duas prostitutas e, renovando os desejos de agressões, afirmou que estaria ali para matar, tanto monsenhor Rebelo de Menezes (vice-reitor), como o dr. Moreira Guimarães (decano dos professores do Seminário).
Assustados, os dirigentes do Seminário resolveram então chamar imediatamente um polícia, que logo compareceu no local, decidindo prender o seminarista descontrolado.

O episódio foi comentado por toda a cidade de Braga, causando espanto e admiração geral. Esta admiração vinha do facto de ninguém entender como foi possível um estudante, com atitudes destas, ter chegado ao último ano da sua formação sacerdotal com este comportamento, ainda para mais quando eram os próprios párocos que tinham, na altura, que emitir uma certidão de bom comportamento moral, para que qualquer cidadão pudesse exercer uma profissão pública!

Ao que se sabe, o estudante, dias depois, resolveu arrepender-se dos actos e ameaças, que tinha praticado, e dirigiu-se ao Seminário para pedir desculpa pelos impropérios que tinha cometido, não acabou por não obter o perdão que desejava. E acabou mesmo por perder o ano.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho