Correio do Minho

Braga, quarta-feira

As pessoas em primeiro!

Saboaria e Perfumaria Confiança – pela salvaguarda do seu património

Ideias

2011-09-12 às 06h00

Artur Coimbra

‘As pessoas estão primeiro’. Esta foi a palavra de ordem mais forte do XVIII Congresso do Partido Socialista que este fim-de-semana decorreu na cidade de Braga.
É uma expressão com força simbólica, um emblema que faz todo o sentido nos dias de hoje, em que um governo sem alma adoptou uma estratégia de esmagamento das pessoas e das famílias, através dos cortes despudorados de vencimentos e subvenções e do aumento monstruoso dos impostos e do custo de vida.

As pessoas não têm, de facto, qualquer valor para o poder que nos coube na rifa. Há uma política de cortes cegos em tudo o que mexe, em nome de uma mera tirania contabilística, que arreda qualquer consideração ou sentimento humano. A classe média, que é quem paga impostos, porque os pobres não têm recursos e os ricos são difíceis de taxar (descobriu-se agora…), tem a sobrevivência cada vez mais difícil, porque o executivo se compraz num ataque feroz e desenfreado à bolsa de quem trabalha, que já está a pagar mais a crise do que os detentores do capital.

Ao contrário do que havia sido prometido na campanha eleitoral pela direita, o certo é que o Governo que tomou posse há pouco mais de dois meses já aumentou os impostos por três vezes, apresentando-se hoje mais que um fiel servidor da “troika”. É um governo mais “troikista” do que o que manda a dita cuja. Dir-se-ia que está em campanha para entrar no Guiness dos recordes das medidas mais penalizadoras dos portugueses num menor período de tempo.

É claro que as medidas de austeridade impostas pelos compromissos decorrentes do empréstimo internacional são necessárias e inquestionáveis. Decorrem de um acordo e nada há a fazer.
Porém, já não é suportável que se pretenda ir além desse limite, com todos os prejuízos individuais e sociais que estão subjacentes, e é exactamente isso o que está em causa. É o que o governo, através do ministro das finanças, anunciou: quer esbulhar os portugueses em mais 6 mil milhões de euros, até 2013, para lá do que estipula o compromisso, o que se revela absolutamente ofensivo e até criminoso.

A “troika” é já o limite do aceitável. Ir mais além, para além de contradizer promessas e garantias eleitorais, é atentar contra a capacidade de os cidadãos terem vidas dignas e aceitáveis. Eles que estão a pagar os erros de governações e decisões que não tomaram (buracos orçamentais, BPN, Madeiras e outras loucuras, que deveriam responsabilizar, não apenas politicamente, mas criminalmente quem as tomou).

É que a vida dos portugueses está nas raias do tolerável. Não é apenas o pagamento do imposto extraordinário equivalente a metade do subsídio de Natal, que está em questão e que muitos consideram um “roubo”, porque não consta do memorando. São as subidas até ao máximo das taxas do IVA no gás e na electricidade, que entram em vigor já em Outubro e que vão infernizar muitas vidas.

Somem-se a este descalabro social o aumento brutal dos transportes públicos que afectam milhões de pessoas, os absurdos cortes, da ordem dos 11%, nos custos operacionais dos hospitais (a “troika” apenas exigia 5%...), o que traduz a insensibilidade de um ministro tecnocrata e meramente economicista, a redução dos efectivos e o congelamento dos salários, das progressões e promoções dos funcionários públicos. Uma cáustica austeridade que afectará a classe média até pelo me-nos 2014, enquanto o alegado “subsídio solidário” dos mais ricos se estende apenas “por dois anos”. É a “justiça” a funcionar!...

Dos afamados cortes nas “gorduras do Estado”, de que Passos Coelho tanto se gabava de saber onde efectuar, zero. Na melhor das hipóteses, lá para 2012. Uma desilusão colossal, sem dúvida!...
Acresce um país em que as famílias mais pobres são obrigadas a adquirir os manuais escolares (que podem chegar às centenas de euros) e só recebem o dinheiro passados meses.
Para já não falar dos 37 mil professores que não conseguiram emprego nas escolas, colocando em situação dramática aqueles docentes, que se qualificaram para o ensino das novas gerações e vão assim engrossar a legião dos desempregados.

Este Governo parece apenas ter a ciência e a competência para espoliar os cidadãos trabalhadores, os reformados e os subsidiados. A malta do capital, coitadinha, não se toca, porque pode querer fugir com os capitais para os célebres offshores…

A realidade impõe-nos um país irrespirável, onde apenas relevam a tirania das contas, o deve e o haver, as “troikas” e os défices. Estamos no reino da política de mercearia. Dos cortes indiscriminados dos rendimentos do trabalho e dos aumentos de impostos. Para os cidadãos trabalhadores e para a classe média, que são a carne para canhão para o malfadado “ajustamento orçamental”.

As pessoas não interessam, como já se viu fartamente. São esmagadas com tributos, com cortes, com dificuldades agravadas. Deixam de ir a restaurantes, tiram os filhos dos colégios, consomem menos, investem menos. Pergunta-se ao ministro das Finanças o porquê de toda esta paranóia, e o ministro das Finanças, no seu economês gaguejado, responde porque sim. Porque há necessidade. Porque é preciso. Porque a “troika” manda. Ou porque a “troika” não manda.
Ninguém explica coisa alguma, numa altura em que o primeiro-ministro desapareceu de cena e quem ordena são os ministros Relvas e Gaspar. Podemos dispensar todos os outros, que não estão lá a fazer nada!...

Por isso, não será surpresa que nos próximos meses as ruas se encham de manifestações e o ambiente social se exaspere, apesar dos cândidos apelos governamentais para que os indignados e ofendidos se resignem cristãmente à sua má sorte.
Eles bem sabem que essa coisa dos “brandos costumes” não passava de propaganda salazarista!...

NB - E por onde anda a famosa “indignação” do Presidente da República pela sorte do seu povo? Ou mudou o governo, para a sua cor política, e os problemas resolvem-se agora pelo facebook?

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