Correio do Minho

Braga, quarta-feira

As pessoas e as instituições e o país

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2015-04-22 às 06h00

José Hermínio Machado

No seu livro, Diário de um condenado, João Chagas (1863-1925), um escritor, jornalista e político da I República, um daqueles duros ou mais radicais propugnadores da causa republicana, conta as suas memórias do tempo que passou na prisão de Luanda. Li este livro com aquela curiosidade de compreensão dos mecanismos culturais que enformam as reivindicações políticas. Interessam-me as obras que se dão ao propósito de revisão de ideias feitas ou de ideias, que tendo parecido as melhores, são revistas criticamente pelos seus corifeus e proporcionam uma alteração de percurso.

Numa palavra, para compreender a minha posição dentro da toada desta coluna de jornal, interessam-me as leituras que questionam e se questionam no interior desse mapa de conteúdos e de dinâmicas de criação a que chamamos tradição ou que consideramos numa perspectiva de tradição.

Ora bem, João Chagas, que foi fundador da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, ao narrar as suas vicissitudes de vida nesses anos em que esteve preso e deportado (1892-1893), com fuga e regresso à prisão, deixa apontamentos que descrevem práticas musicais populares e que de algum modo configuram uma percepção do país em termos de capacidade de desenvolvimento cultural e de mobilização de recursos para a mudança política.

Esta percepção pode sumariar-se nestes termos: há indivíduos dotados de muita habilidade, há casos singulares de perícia e de capacitação cultural que motivam uma esperança no colectivo, mas esse colectivo pode nunca concretizar-se e pode não merecer sequer esses valores individuais, Ou seja, as pessoas são o mais importante, as pessoas demonstram uma habilitação singular, as pessoas são um recurso esperançoso, mas o colectivo pode ir noutro sentido. Vou transcrever.

O primeiro apontamento é sobre um passageiro que vai no barco para África. «Todas as tardes, um passageiro de 3ª classe entretém-se a tocar ocarina, sentado em uma talha, no castelo de proa.(…) Os motivos que ele toca são todos de Portugal - cantares das montanhas do Norte, trovas algarvias, estribilhos de opereta, coplas de revista de ano, hinos, canções de lupanar.»

O imaginário musical de um passageiro de 3ª classe e a sua perícia instrumental da ocarina são reveladores da circulação de repertórios e do entrosamento de conteúdos de várias proveniências. Mais à frente: «Estão ali presas três mulheres. Uma delas canta uma canção de lavadeira, como as que tantas vezes ouvi no Porto às raparigas que iam bater roupa para as Fontainhas.»

Estes caso vão contrastar com uma percepção do colectivo, ei-la: «Lisboa, com a sua falsa existência de capital, indo à repartição de sobrecasaca e aos touros de jaleca, educando a sua mocidade nos prostíbulos da Rua da Prata e consagrando a sua velhice nas batotas do Arco da Bandeira; o Porto inçado de Ingleses e Alemães, a dar concertos de música clássica e a politicar nas mãos de estrangeiros de todas as proveniências, desde galegos de Pontevedra até carregadores de Hull; a província, emigrando para o Brasil ou lendo o Diário do Governo… Tudo isto sem um pataco de seu, empenhado e arruinado, mas tocando guitarra, batendo o fado, ou, de pança para o ar, vendo morrer o Sol todas as tardes na orla arenosa da costa! Chegou, chegou, chegou - Agora, agora, agora - Cala-te, Diabo! - Rosa! Tirana! Que é da tua tirania? Trolaró, laró laró...»

Esta problemática da tradição como campo de observação do real, para ser depois fundamentadora de mudanças ou reguladora das mesmas, está catalogada em várias perspectivas ideológicas, desde as conservadoras às radicais, passando pelas liberais, reformadoras, etc. Mas a leitura de quem passou por elas e foi corifeu de uma dada perspectiva, interessa hoje mais, não só em termos de balanço de perdas e ganhos, mas sobretudo em termos de avaliação de caminhos percorridos. Conhecer os indivíduos, fundar instituições, implementar programas políticos - eis uma história de encontros e desencontros.

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