Correio do Minho

Braga, terça-feira

As Novas Oportunidades

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2012-05-21 às 06h00

Artur Coimbra

1 O primeiro-ministro, na sua já proverbial verbosidade, o mor das vezes despida de conteúdo, acaba de acrescentar mais uma pérola ao rol da notória insensibilidade com que, sobranceiro e suburbano, olha o país que o elegeu e que parece não governar.
Afirmou Passos Coelho, em essência, que o desemprego pode constituir uma oportunidade. Nem mais. Afirmou e reafirmou. E irritou-se com aqueles que alegadamente fomentam “crises artificiais”. Certamente estava a pensar no seu ministro das Finanças, o devagaroso Gaspar, que sustentou que a situação do desempregado “é uma das experiências mais difíceis de ultrapassar”.
Desde logo, o chefe do governo deveria olhar para ele próprio e interiorizar que deveria agarrar a oportunidade, novas oportunidades, para estar calado.
Alguém deve explicar ao actual inquilino de S. Bento, que há um ano proclamava conhecer profundamente a situação do país e estar preparado para governar e se veio a revelar, passados estes meses, que nem uma coisa nem outra, que anda a falar em demasia. Fala por tudo e por nada. Não há pachorra. Alguém tem de lhe chamar a atenção de que os cidadãos começam a ficar fartos de o ouvir de manhã, à tarde e à noite, a falar para não estar calado. Não é profícuo, politicamente, para ele, nem benéfico para a sanidade mental dos portugueses.
Mas voltando ao essencial da questão: afirmar que uma situação de desemprego pode transformar-se numa oportunidade, teria cabimento, se não estivéssemos num país com um desemprego real de mais de 1 000 000 de pessoas, como a semana passada foi revelado. Uma tragédia colectiva está a abater-se sobre o país, como nunca antes se assistiu. Uma situação que pode tornar-se explosiva. E um primeiro-ministro, levianamente, im- becilmente, vem a público declarar que o desemprego pode constituir uma oportunidade para mudar de vida, como se fosse a coisa mais simpática ficar desempregado e a mais simples arranjar novo emprego. Uma situação que marca profundamente quem a sofre, que abala a auto-estima e afunda num abismo a existência dos desempregados é assim catalogada com toda a ligeireza pelo chefe do governo, como se estivesse à mesa do café de Massamá, em arenga com o vizinho do segundo-esquerdo.
É inacreditável a precipitação com que Passos Coelho trata um dos assuntos que mais devia inquietar e tirar o sono aos governantes, neste preciso momento, se os governantes, na verdade, se preocupassem com a sorte dos portugueses, do que sinceramente duvidamos. Preocupam-se com eles próprios, com os seus grupos de interesses, com os seus lóbis.
Será caso para questionar: as alegadas “oportunidades” estão aonde, senhor primeiro-ministro? Não faz o favor de explicar ao milhão de portugueses desempregados, como se todos tivessem 10 anos?
Em que é que o seu governo - que já está há cerca de um ano no poder, não nos esqueçamos e já basta do discurso enfadonho de radicar toda a inoperância no legado do executivo de José Sócrates, que Deus haja - está a contribuir para desenvolver a economia e aumentar o emprego? Onde estão o investimento e a criação de condições para que o empreendedorismo apareça e os empregos floresçam?
Numa altura em que não há investimento público, em que o governo limitou e condicionou os fundos do QREN; em que o investimento privado não existe; em que o crédito bancário é uma impossibilidade, que alternativas é que se colocam aos desempregados, a não ser a emigração, sobretudo das gerações mais jovens e qualificadas, como já está a acontecer?
Afinal, que projecto de socie-dade é que tem para oferecer aos portugueses o primeiro-ministro Passos Coelho? Encolher os ombros face aos números catas-tróficos do desemprego, afirmar que não há nada a fazer e que os jovens em quem o Estado inves-tiu milhões, e que o governo deveria ser o primeiro a tentar fi-xar no seu próprio país, devem emigrar? Foi para isso que foi eleito?

2 O governo prepara-se para acabar com o programa Novas Oportunidades, em lugar de o reformar e melhorar, como seria legítimo esperar. Num país de baixas qualificações académicas, o programa de validação e reconhecimento de competências, pelo simples facto de promover o regresso à escola de centenas de milhares de portugueses que as circunstâncias da vida afastaram precocemente dos bancos escolares, e que acabam sempre por aprender e reforçar conhecimentos, mereceu o aplauso das instituições europeias e o reconhecimento dos beneficiados. Os “inteligentes” que ocupam o Ministério da Educação entendem que o povo português deve regressar à idade da pedra, à ignorância, ao obscurantismo, para assim ser mais facilmente manipulado. Acabam as Novas Oportunidades. As turmas escolares crescem para os impraticáveis trinta alunos. Tudo estratégias para embrutecer os portugueses. Em nome, certamente, de neoconservadorismos e neoliberalismos sem sentido, de Cratos, Álvaros e companhia!...
É que a receita da troika não explica tudo!...

3 Ao contrário do que não se cansavam de afirmar, definitivamente, alguns espúrios comentadores, ideologicamente à direita, como é óbvio, o socialismo não está morto nem enterrado. Mais: acaba de impôr-se, paradoxalmente, como projecto de esperança para uma Europa exangue em consequência de medidas absolutamente estúpidas de uma política de terra queimada ditada pela especulação financeira internacional, e que Passos Coelho servilmente prossegue.
Afinal, depois de o capitalismo internacional nos ameaçar de anos intermináveis de austeridade em cima de austeridade, com as sequelas do avolumar do desemprego e da perda do poder de compra da classe média, de repente, a eleição do presidente da República francesa, o socialista François Hollande, trouxe uma lufada de ar fresco ao espaço europeu e a Portugal, obviamente. Fico com a sensação de que a Europa estava à espera de que fosse um povo, o francês, a pátria lídima da liberdade e da Revolução, a dar o “grito” no sentido de que basta de austeridade, de pisar e amesquinhar os direitos e as perspectivas de milhões de cidadãos, em nome de “ajustamentos”, de “assistências” e de “défices”. É urgente a agenda do crescimento e do emprego, para sair da crise, e assim outorgar uma nova oportunidade à Europa!

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