Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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As Mulheres do Varandas de Adaúfe

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Ideias

2020-05-10 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O confinamento que os portugueses tiveram de cumprir, na sua habitação, durante 45 dias, permitiu às famílias um convívio prolongado no mesmo espaço e durante um período de tempo jamais experienciado anteriormente.
De facto, estar um dia, uma semana, um mês, dois meses, praticamente enclausurados numa habitação, muitas sem pelo menos uma varanda, permitiu o surgimento de outros valores que, normalmente, não seriam aflorados.
No início desta semana, o Papa Francisco dirigiu-se às famílias, que se encontram confinadas em casa, e rezou para que não haja violência no seu seio apelando à paz, tolerância e criatividade entre os seus membros.
Não havendo ainda dados concretos relativos às vítimas autênticas deste período de confinamento, importa aqui recordar os dados de 2019, ano em que morreram em Portugal 35 pessoas vítimas de violência doméstica. Foram duas crianças, 26 mulheres e sete homens, assassinados às mãos de familiares, companheiros ou ex-companheiros.
Esta é uma realidade não só portuguesa. Em 2019, na França, foi assassinada uma mulher em cada dois dias, sendo este o país com a taxa mais elevada de toda a União Europeia.
Neste contexto, trago à memória um caso que ocorreu na nossa região, em pleno domínio salazarista, corria o ano de 1940. Este era um período em que o homem exercia sobre a família e sobre a mulher um papel excessivamente autoritário. Deste modo, em Braga, esse autoritarismo era bem notório e registo, a título de exemplo, que as primeiras mulheres a estudarem nas escolas de Braga iam para os estabelecimentos de ensino acompanhadas pelos pais, que as protegiam durante todo o trajeto.
Foi neste ambiente social que, na década de trinta e quarenta, se destacou um homem, José Soares Varandas, da freguesia de Adaúfe (concelho de Braga) que julgava ser exemplar, na sua época, pelos valores de virilidade que gostava de exibir. Aos quarenta anos de idade, o Varandas de Adaúfe já tinha casado quatro vezes! E gabava-se perante todos os seus amigos de ter conseguido disciplinar todas as mulheres com quem se tinha casado.
Este caso, de tão invulgar, foi mesmo relatado no “Diário do Minho”, de 24 de novembro de 1940.
Nessa altura, o Varandas de Adaúfe dizia a toda a gente que tinha casado por quatro vezes e que não ficaria por aí, pois das mulheres com quem tinha casado recordava bons momentos, principalmente “saudosas lembranças das bodas dos casamentos e do viver tranquilo” que todas as suas mulheres lhe davam.
A tranquilidade dos casamentos do Varandas de Adaúfe advinha da disciplina que, de início, impunha às suas esposas. Desde cedo ficava claro que quem mandava em casa e no casal era o Varandas e as mulheres só tinham que lhe obedecer sem questionar, fossem essas ordens boas ou más.
Esta rigorosa disciplina permitia-lhe uma vida tranquila, pois a sua mulher era quem fazia tudo e funcionava como “subdito fiel sob o domínio do seu rei...” esposo!
Mas como, por vezes, a sorte não dura para sempre, o quarto casamento do Varandas de Adaúfe não começou como ele esperava. Essa quarta mulher tornou-se diferente de todas as outras, pois revelou, desde cedo, ser uma mulher que não demonstrou qualquer vontade em “ir á frente do Varandas e, para o contrariar, é avessa à disciplina que êle implantou no seu lar”.
Na realidade, a sorte deste homem transformou-se em azar com o quarto casamento, pois a mulher fazia tudo para contrariar o marido. Assim, se o Varandas dizia “…que uma coisa é verde, ela diz que é vermelha; se a proibe de sair de casa, ela vai imediatamente para a rua; se quer que ela vá à missa das 6, ela vai à das 8…”!
Perante a indisciplina da mulher, o Varandas de Adaúfe ficou numa situação angustiante, pois os seus argumentos públicos, de dominador das mulheres com quem tinha casado, estavam agora a ficar em causa. Preocupado com a sua imagem pública, o Varandas de Adaúfe não hesitou em usar meios mais coercivos e, no seu entender, assertivos, para dominar a sua quarta mulher! Contudo, não havia forma de a vergar, nem mesmo perante os métodos mais violentos e duros. Assim, num desses momentos, quando o Varandas pretendeu colocar na “…ordem a sua cara-metade, esta vibrou-lhe uma série de sopapos e, não contente com o ensaio, pegou numa pedra e feriu-o sem dó nem piedade na cabeça…”!
Ferido, o Varandas de Adaúfe teve de se deslocar ao Hospital de S. Marcos para receber tratamento e, perante tamanha humilhação a que foi sujeito, ainda ajuizou o seguinte comentário: “Vai-te que se todas as minhas mulheres fôssem assim, eu já não existia há muito. Esta, ao contrário das outras, tem chegado para mim...”!
Esperemos que o exemplo da recusa da subserviência demonstrado pela quarta mulher do Varandas de Adaúfe permita inspirar, atualmente, outras pessoas, quer sejam do género feminino ou masculino, para que a intolerância não se transforme numa pandemia.

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