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As Mulheres do Meu País, de Maria Lamas

As crianças, a energia, o movimento e o convívio

As Mulheres do Meu País, de Maria Lamas

Voz aos Escritores

2024-03-08 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Maria Lamas foi uma das Mulheres mais notáveis da História recente portuguesa, escritora, tradutora, jornalista e fotógrafa imerecida- mente esquecida, acérrima defensora dos Direitos das Mulheres e das crianças, uma Mulher que contrariou o regime salazarista, sofreu o estigma de Mulher separada do primeiro marido, Mãe que lutou pela tutela das filhas, propriedades do progenitor segundo as leis vigentes, o ilustríssimo Chefe de Família a quem a Mulher devia absoluta obediência numa subjugação indigna. Maria Lamas fez do seu trabalho uma missão, nunca se calou, nada a demoveu, e pela sua verdade esteve sete anos exilada em Paris e foi presa várias vezes pela polícia do regime. Nascida numa família burguesa, podia ter vivido, no conforto do estatuto, uma existência pacata, confinada ao âmbito doméstico, recatada, parindo e criando filhos conforme propagandeava a ideologia do Estado Novo. Inconformada e fiel à sua essência, libertou-se do primeiro casamento e aos vinte anos de idade rumou à capital para escrever e da escrita sustentar três bocas, a sua e das duas filhas pequenas. Foi jornalista do Século e directora da revista Modas e Bordados, Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas criado pela iniciativa da médica ginecologista e activista republicana Adelaide Cabete. Afastando privilégios, Maria Lamas era uma Mulher de uma lucidez desarmante e ferozmente independente, sempre comunicando pelo lado maternal e modesto. A sua aparente acalmia e o semblante sereno contradiziam o vulcão do seu ser e a coragem inabalável de Mulher intrépida. Sem a indelicadeza da intromissão, sabia estar em qualquer situação, à mesa do nobre e ao borralho do pobre. As suas palavras orais e escritas são gritos, mas libertados na beleza de um desfolhar de margaridas, gritos que não rasgam a sua elegante e correctissíma postura. Mulher afectuosa, simpática, acessível, era porto-seguro dos desvalidos e a esperança desesperada de milhares de Mulheres portuguesas, o sexo fraco, género de segunda categoria. Coerente com os seus princípios, não hesitou em permanecer na presidência do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas quando o director do Século, instigado pelo governo ditatorial, que se incomodara com o sucesso internacional de um encontro de Mulheres escritoras e uma exposição alusiva aos Direitos das Mulheres organizados por Maria Lamas, a forçou a optar: ou a presidência, ou o jornal onde trabalhava há mais de duas décadas. Maria Lamas ficou desempregada. Jamais abandonaria a luta pelas Mulheres e crianças empreendida pelo Conselho. Salazar insistiu na perseguição. Determinou o encerramento do Conselho apontando a sua desnecessidade: para resolver as questiúnculas do mulherio havia e bastava a Obra das Mães. Determinada em provar as inverdades do ditador, a escritora, aos cinquenta e quatro anos, imiscuiu-se na realidade portuguesa e ao longo de dois anos testemunhou a dureza cruel das Mulheres Portuguesas de Norte a Sul do país e das ilhas. De comboio, barco, camioneta, carro-de-bois, de burro e a pé, palmilhou o Portugal salazarista dos pobrezinhos mas honrados, foi ao encontro fraterno e solidário das suas irmãs, viu-lhes as agruras, a escravidão de vidas madrastas, a patranha da fada-do-lar arvorada pelo ditador no labor infindo dentro e fora de portas carunchosas, jovens de mocidades efémeras cujos sonhos depressa se evolavam e a desdita num ápice as avelhentava, viúvas de vivos carregadas do pesado luto da emigração dos homens, ventres quase sempre ocupados, um filho no bucho, outro nos costados, outro na mão, outros debaixo da terra, as mãos sem descanso, os corpos afadigados, escalavrados, a fé temerosa num Deus que se distraíra delas. As Mulheres acolhiam-na, confiavam, desabafavam os martírios, posavam para a sua câmara fotográfica, abriam-lhes as portas das casas modestas e do fadário das vidas, sem pudores, sem reservas, apenas o ténue aspirar de um porvir melhor. Maria Lamas dormiu junto a fogueiras embrulhada em cobertores impregnados do cheiro a fumeiro por elas tecidos, comeu as vitualhas por elas cozinhadas e repartidas, assistiu a partos e a enterros. Mais tarde, afirmou, “Apesar da pobreza, do testemunhar profundo e real das vidas sacrificadas das Mulheres Portuguesas, foram os dois anos mais ricos da minha vida”. Deste convívio próximo e genuíno nasceu a obra “As Mulheres do Meu País”, um trabalho exímio, completo, cru, minucioso e imparcial sobre a verídica condição das Mulheres Portuguesas nas décadas de quarenta e cinquenta do século passado, um relato antropológico e histórico, exposto em palavras eloquentes e fotografias a preto e branco, desabafo brioso de uma Mulher extraordinária. Nesta obra audaciosa de Maria Lamas, por montanhas e vales, vemos e lemos camponesas, pastoras, comerciantes, Mulheres da beira-mar e da beira-rio, recoveiras, barqueiras, sargaceiras, carquejeiras, trapeiras, tecedeiras, ceramistas, doceiras, artesãs, operárias, dactilógrafas, costureiras, enfermeiras, visitadoras, secretárias, empregadas comerciais e de escritório, professoras, intelectuais e artistas, vemos e lemos singelas vaidades, trajes, costumes e tradições e o desfiar contínuo de misérias e carências. A obra “As Mulheres do Meu País” incomoda, desnuda a realidade que se pretendia pintada de um folclore colorido, é inoportuna à ditadura. A Autora foi encarcerada. Censuraram-lhe o que mais defendia, a Liberdade. Maria Lamas escolheu o caminho da luta e partilhou-o com as Mulheres. Celebrou o 25 de Abril na rua, aos oitenta e um anos. No fim da sua vida, aos 90, afirmou,” Continua muito por dizer, ainda está tudo por fazer”.

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