Correio do Minho

Braga,

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As mortes no apeadeiro de Aveleda

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2012-01-09 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Nos últimos meses, os portugueses têm sido massacrados com um considerável aumento de impostos, cujos efeitos estão cada vez mais à vista de todos: redução do poder de compra; encerramento de empresas; aumento do desemprego e descida na qualidade de vida dos portugueses.

Ao aumento de impostos, tem sido frequente os portugueses reponderem com um conjunto de artimanhas, que passam geralmente por não os pagar, optando por fugirem à cobrança desse dinheiro, que tem como destino os cofres do estado.
O episódio que aqui vou lembrar ocorreu há quase 108 anos, no dia 10 de Julho de 1904 (uma quarta-feira) no apeadeiro de Aveleda, no concelho de Braga. 1)

Nos primeiros anos do século XX, um dos negócios que era muito lucrativo estava relacionado com a produção de fósforos. Por isso, numa época de crise, não faltavam pessoas a fugir ao controlo dos impostos. E nesta região existiam alguns produtores de fósforos, como era o caso de Frutuoso Ferreira e da sua mulher, moradores na freguesia de Sequeira.

Com esses produtores de fósforos, colaboravam na fuga ao fisco vários habitantes das freguesias da redondeza, nomeadamente de Fradelos, de Aveleda e de Sequeira.
Assim, quando os referidos fabricantes de fósforos se preparavam para se deslocar para a feira de Santo Tirso, onde iriam vender os fósforos, foram surpreendidos por três soldados da Companhia dos Fósforos e ainda um soldado reformado, ao serviço da Companhia de Fósforos, que os prenderam no cruzeiro de Vilaça.

Após darem ordem de prisão ao casal, Frutuoso Ferreira de imediato atirou-se para o chão e numa “grande gritaria disse que não acompanhava os agentes senão de trem, porque estava doente” 2).
Não tendo no momento outra alternativa, os guardas abandonaram o casal e apreenderam os dois sacos de lumes. De seguida, e com o material apreendido, caminharam pela linha férrea, com destino ao apeadeiro de Aveleda, donde transportariam de comboio os sacos para a estação de Braga.
Chegados ao apeadeiro de Aveleda, o respectivo encarregado recusou-se a colocar os sacos de fósforos no comboio, porque os enquadrava no grupo de “matérias inflammaveis” 2).

Perante a intransigência do encarregado do apeadeiro de Aveleda, não restou outra alternativa aos guardas senão transportar, eles próprios, os sacos para a estação de Braga, tendo o percurso sido feito a pé e pelo meio da linha férrea. O que os guardas não contavam era que Frutuoso Ferreira e o seu filho (Jacinto Ferreira, conhecido por “Gaimola”) de imediato avisassem a população pelo sucedido, o que originou enorme concentração de pessoas junto à linha férrea, que se dedicaram a apupar e ameaçar os guardas. Para além disso, Frutuoso Ferreira prometeu a considerável quantia de 11$000 réis, para quem conseguisse recuperar os sacos de lumes que os guardas tinham apreendido.

Perante tal cenário, os guardas foram apedrejados à saída do apeadeiro de Aveleda, de tal forma que tiveram que voltar para trás e refugiarem-se no respectivo edifício.
Para agravar toda esta situação, um desconhecido tocou o sino da igreja, gritando que esta-vam ladrões no apeadeiro da freguesia. Esta situação atraiu numerosos populares que, armados de paus, sacholas, fouces encabadas e pedras, rodearam o edifício do apeadeiro.

A confusão gerada foi de tal ordem, que os guardas tiveram que recorrer às armas para tentarem assustar os populares presentes. Nesta tensão, Jacinto Ferreira (o filho do fabricante de fósforos) descarregou uma “fouçada ao agente da Companhia dos Phosphoros - Antonio Maria Carlos Ferro, que ficou gravemente ferido a cabeça” 2).

Os outros guardas responderam com tiros, tendo um deles atingido o jornaleiro Lauro da Cunha Telles (de Sequeira), que de imediato caiu morto na linha férrea. Também António Barbosa Ferreira da Silva, conhecido por “Lã Branca”, de 65 anos de idade, que apenas se tinha deslocado ao apeadeiro para ver o que se estava a passar, foi atingido por um tiro, tendo falecido uns minutos depois, no próprio local. Outra vítima foi António Ferreira, conhecido por o “Sebastiano” (jornaleiro, de Aveleda) que foi atingido por uma bala, tendo sido transportado gravemente para o Hospital de S. Marcos, onde acabou por falecer.

Estas mortes indignaram ainda mais os populares, que cercaram o apeadeiro, prometendo matar todos os guardas que aí se encontravam. O regedor de Aveleda foi chamado ao local, tendo solicitado ao Governador Civil de Braga a presença de mais polícias. Depois das diligências desta autoridade, foram então deslocados 25 praças, comandados pelo alferes Alexandrino de Macedo, que acabaram por comparecer às 21 horas no apeadeiro de Aveleda.

Após muita paciência e negociações com os populares, esta força militar (Infantaria 8) conseguiu retirar os agentes encurralados no apeadeiro, tendo chegado a Braga, com os respectivos guardas, já passava da meia-noite.
Quanto a Frutuoso Ferreira e Jacinto Ferreira, dois dos principais responsáveis por toda a confusão verificada no apeadeiro de Aveleda, acabaram por ser capturados pela polícia, cerca de um mês depois.

1) O apeadeiro de Aveleda foi inaugurado no dia 1 de Outubro de 1890. Nessa inauguração participaram as principais figuras da freguesia, bem como das freguesias vizinhas, e ainda muitas centenas de populares. Na cerimónia de inauguração participou também uma banda de música tendo nesse dia, sempre que se aproximava um comboio, sido lançadas várias girândolas de foguetes.

2) Jornal “Commercio dom Minho”, de 12 de Julho de 1904.

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