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As mortes em S. Victor e as palavras de esperança

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Ideias

2012-02-20 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Na última semana o país ficou chocado com a morte de uma mãe, filha e neta, às mãos do mesmo homem que, ao que se sabe, era marido, pai e avô dessas vítimas.
O motivo desta atitude terá sido, entre outras causas, as dívidas que esta família tinha acumulado.
As dificuldades económicas que as famílias têm contraído, nos últimos anos, estão agora a ter um efeito que, nalgumas delas, leva os seus membros ao desespero. E a tragédia que se verificou com esta família em Beja é um exemplo máximo.

Nas últimas décadas, o nosso país viveu momentos de crises económicas que, à semelhança da actualidade, levou ao desespero várias pessoas, que acabaram por destruir as suas próprias famílias. Neste contexto, vou recordar um episódio que ocorreu na freguesia de S. Victor, em Braga, e que causou, de forma dramática, cinco mortos!

Tudo se passou no sábado, dia 28 de Fevereiro de 1885, no prédio n.º 43 da rua de D. Pedro V. O proprietário dessa casa, António José da Costa, foi contraindo dívidas que, acumuladas, acabou por não as conseguir pagar. O estado de loucura deste devedor foi aumentando na proporção das rondas que os seus credores faziam à sua casa. Esta situação transformou-se num autêntico jogo, uma vez que os credores rodeavam a casa e o dono da casa refugiava-se em locais onde quase ninguém o conseguia encontrar.

No sábado atrás referido, deslocaram-se a casa de António José da Costa o padre Custódio dos Santos e José Ferreira Braga, tendo como objectivo a legalização, por parte do dono da casa, de uma escritura de dívida.

Ao ver estes dois homens na sua casa, António Costa ficou desesperado e tentou esconde-se. No entanto, e como já não foi a tempo de abandonar a sua habitação, perdeu completamente o controlo dos seus actos, apoderou-se de uma caixa de fósforos e ameaçou fazer explodir a casa!
Uma vez que os dois homens não abandonaram a casa, o devedor, completamente descontrolado, aproximou-se de uma gaveta onde tinha “14 arrateis de pólvora de caça” (1), acendeu uns fósforos, atirou para a gaveta, provocando uma enorme explosão.

Como consequência deste acto de desespero, as traseiras da casa ficaram destruídas, os vidros todos estilhaçados e as paredes exteriores repletas de fendas. Também os prédios vizinhos acabaram por sofrer danos, havendo a necessidade dos bombeiros colocarem trancas para evitar a ruína dos prédios.

A nível de danos físicos, o cenário foi assustador: António Costa foi projectado para o quintal vizinho, sendo encontrado “n’um estado lastimoso, queimado, mutilado, e com a cabeça aberta em grandes lanhaços” (1). As duas mulheres que se encontravam em casa (Eufémia Ferreira e Custódia Chia) foram arrastadas pela queda da varanda e ficaram num estado gravíssimo, acabando por falecer pouco depois. Uma criança de apenas vinte meses (Sofia) foi projectada para uma sala, acabando também por falecer poucos dias depois.

Os dois homens que lá se tinham deslocado também sofreram as consequências do tresloucado acto de António Costa: José Ferreira Braga e o padre Custódio dos Santos, ficaram feridos com gravidade, acabando um deles por falecer pouco tempo depois.
O responsável por toda esta tragédia ainda teve posteriormente um episódio de lamentar: conduzido ao Hospital de S. Marcos em estado grave, foi submetido a várias operações. No entanto, e como se recusou a tomar os medicamentos, acabou por falecer pouco depois, na maior das agonias.

O proprietário da casa, António Costa, que originou toda esta tragédia, como consequência das suas inúmeras dívidas, tinha em casa ainda vários quilos de cartuchos embalados, que acabaram por não explodir, caso contrário a tragédia poderia ser ainda maior.

As ilações desta tragédia devem ser retiradas por cada um de nós. No entanto, perante um ambiente de crise generalizada, como o que vivemos, devemos evitar comentários e atitudes despropositadas, cujo Primeiro-ministro e o Presidente da República têm sido exemplos.
Basta recordar as palavras que foram proferidas ontem, em Gouveia, perante uma manifestação aí verificada. Disse então o sr. Primeiro-ministro: “Tenho sempre uma palavra de esperança para dizer às pessoas”. Ora, a questão que se coloca é esta: as pessoas em dificuldades, que não têm trabalho, que não têm dinheiro, que tem um futuro comprometido, alimentam-se de palavras de esperança?

1) Jornal “O Commercio do Minho”, de 3 de Maço de 1885

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