Correio do Minho

Braga, quarta-feira

As mil e uma caras do poder local

O CODIS fala

Ideias

2019-05-11 às 06h00

Carlos Alberto Cardoso

O artigo que aqui apresento tem um objetivo claro: contribuir para uma reflexão sobre o papel dos boletins municipais na comunicação da era digital. E prende-se com o convite que a ATAM (Associação dos Trabalhadores da Administração Local) me endereçou para abordar o tema no XXXVIII Encontro de Marketing e Comunicação Autárquica, que irá decorrer nos próximos dias 17 e 18 de maio, em Pinhel.
Ora, começo por esclarecer que comunicar com os munícipes é uma obrigação consagrada do poder local, porque comunicar é tornar comum e o poder local é de todo o interesse comum. As ações governativas só ganham valor depois de comunicadas.
O mito de que quando se governa bem não é preciso comunicar; ou só se comunica quando as coisas estão a correr mal é uma crença grave e um erro inqualificável, mas ainda presente em muitos autarcas do nosso país.
A comunicação é poder e o poder comunica sempre e constantemente. A verdade é que o mundo está em contínua mudança e transformação, a viver uma verdadeira revolução, derivada dos novos processos e meios de comunicação. Tal deve-se, sobretudo, ao aumento da velocidade com que comunicamos: o instante. Cada vez há menos tempo para pensar no que comunicar, pois a máquina de distilação da informação tornou-se obsoleta, fora do tempo. Em contrapartida, a nossa falta de tempo para selecionar e tratar a informação, obriga-nos a procurar o profissionalismo da informação.
Cada vez mais temos necessidade de informação esclarecida, credível e verdadeira. Penso que é aqui que está o cerne da questão, quer para a imprensa nacional, quer para os meios próprios das organizações, entre eles os boletins municipais. Num artigo de Joel Felizes sobre boletins municipais, com o subtítulo “As mil caras do poder local” e que inspira o título deste artigo, é ilustrado de modo formidável o que se tem passado com este meio de comunicação próprio das autarquias.
Os boletins refletem, na maior parte dos casos, as caras dos nossos presidentes de Câmara, e variam na forma, no conteúdo e na distribuição, em conformidade com os interesses, visão e valores dos seus líderes. Na minha opinião, este meio próprio de comunicação ganhou destaque muito devido à importância que os assessores e consultores de comunicação lhe deram.
Com o depauperamento da imprensa local, surgiu uma oportunidade dos boletins serem transformados em meios de comunicação local, onde a propaganda e a publicidade da ação política ganharam força. Neste ambiente, o que importa é manter o poder e este é um bom canal para o fazer. É obvio que nem todas as Câmaras Municipais estão dotadas de recursos profissionais e financeiros iguais, o que parece justificar tanta má comunicação que se tem produzido e publicado. Infelizmente, partilho da opinião do diretor da antiga revista “Periférica”, Rui Ângelo Araújo, que escreveu: “Os boletins municipais, se não são propaganda descarada do executivo, são propaganda embrulhada em pretensa informação ou mediocridade de carácter bairrista.”
Esta é a realidade, mas que provem e espelha o ambiente de relações políticas dos diferentes territórios. E se os líderes locais são os principais responsáveis, a culpa não é solteira, pelo que os seus consultores de comunicação, imagem ou marketing, são claramente corresponsáveis nesta utilização do meio.
Acredito que a digitalização do nosso mundo obriga a muitas mudanças, inovações e adaptações, mas a realidade ainda é uma: governar é comunicar e os boletins municipais têm um papel reservado no futuro, como fonte de informação credível, transparente e democrática. É claro que estão previstas mudanças obrigatórias de mentalidade e de cultura, como em toda a restante ação política. Felizmente, estamos perante uma sociedade e uma geração que nos obrigará a refletir sobre o que queremos do sistema politico e daqueles que elegemos para nos governar. Consequentemente, exige-se e exigir-se-á cada vez mais uma comunicação responsável, com o máximo profissionalismo e uma dose qb de bom senso. Não pensem os políticos e os seus assessores de comunicação que “o povo come tudo o que se lhe dá”. Esse tempo já lá vai... e para o bem de todos nós!
Boas leituras!

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