Correio do Minho

Braga, sábado

'As maldades do Bóbó', por Albino Gonçalves

Investir em obrigações: o que devo saber?

Conta o Leitor

2011-08-27 às 06h00

Escritor

De pequena estatura, habituado com as aparências emanadas pela arte do barbeiro e sortudo nas suas habilidades de saber enganar com a magia que se lhe reconhece, o Bóbó, filho de gente humilde e trabalhadora com pinga à mistura, lá conseguiu ascender ao cargo de presidente da Casa do Povo, por outro lado, povo, sabendo-se das maleitas que ele provocava aos desalinhados.

Moldava um ar de inocente, angélico para quem presencialmente ouvia todos os domingos a homilia numa igreja alheia à da sua paróquia. O seu coração estava estarrecido de pecados, mas o vício da maldade era invencível, no dia seguinte lá estava ele e a sua “matilha” de cegos servidores com a promessa de contrapartidas, a massacrar a vítima escolhida a dedo ou a olho.

Era um vaidoso, um peneirento, convencido de um auto laboratório neural ímpar, uma obra prima da inteligência cor-de-rosa e quando necessário mudava de forro do fato para se apegar ao poder da ocasião. Com os seus fantasiosos feitos à luz dos distraídos e à custa do erário dos associados da briosa inocente Casa do Povo, uma instituição dedicada ao posto médico da aldeia e da quinta dos amigos e familiares, exasperava com muito ruído os seus neurónios intelectuais através da publicidade ou das encomendas endereçadas ao boletim da paróquia.

O Bóbó era um pequenote ser de barba e cabelo grisalho, comprava a roupa em Londres quando lá se deslocava de caravana e gabava-se do seu “belo espelho” atractivo e chamariz nas cerimónias de pompa.

O irmão dele, é o presidente da Junta da Freguesia, do clube da terriola, tem outro charme, outra forma mais astúcia e minuciosa de meter uns “cobres” ao bolso em nome das obras públicas. Há suspeitas ou desconfianças nos livros de balancete contabilístico, e recordo terem-me dito da chamada e vigilância dos fiscais da causa sobre as contas, resultando por incrível que pareça, batiam sempre certinhas. Os “bota-abaixo” silenciavam-se, embora não conformados.

Mas, vamos lá ver se conseguimos induzir uma pequena conversa de consciência de cidadania despertada ao Bóbó, o nosso micro actor em tudo na vida.
A maldade? Falemos sobre esse grande pecado tão incómodo que reside um pouco em todos nós! No Bóbó, talvez seja uma virtude cultural consonante a sua raiz de nascença.

Meu caro amigo conversemos um pouco, para perceber porque é um “sacaninha”. A maldade que o alia desde o raiar do sol até à noite turbulenta e recheada de insónias.
O que é? Ação enlouquecedora que nos faz um pouco mais passionais no meio ao mergulho na racionalidade. Quem consegue descrevê-la pragmaticamente? Quem entende seus motivos? Quem a propaga?

- Eu não sei responder, isto é, não tenha nada de parecido com isso!
Mentiroso. Normalmente eu faria uma analogia ao que penso, citando pensamentos e pensadores.
- Não hoje estou muito ocupado para assuntos irrelevantes!
- Não agora. Faça um esforço.
- Hoje, eu enxerguei uma maldade diferente. Uma maldade simplória, que faz doer por ser benevolente, incompreendido e contrariado.
- Impossível? Não, perfeitamente plausível! O senhor já nasceu com o gene do “mauzinho”…
- Pense comigo…, procure um conceito para ela!
- Porra, isso não faz parte da minha forma de ser e estar na vida…

E, acrescento ainda:
- Não consegue ser objetivo em mudar de estilo? Não ficou satisfeito com o seu conceito de alterar padrões mais cívicos? Adicionaria emendas ao seu conceito final de ser um maldoso crónico? Como pode continuar a ser assim? Não sabe que de um momento para o outro será um infeliz, um solitário, não terá mais verdadeiros amigos?
- Tente um pouco mais... Vamos, faça um esforço!
- É chato por natureza, aviso-lhe que não farei parte do seu clube.

Sim, somos meros conceitos deformados, mas o Bóbó é um estampa irrepreensível e da incapacidade de perceber o mal perturbador introduzido à comunidade do seu meio. Daqueles que podem ser acrescidos a cada dia na sua lista ou dos que fogem ao senso comum não ter que o aturar, e como a paciência tem limites, podem chuviscar uns “estabefes” para arrefecer os ânimos da colisão entre os bons e os maldosos. Dos que embriagam a alma, desordenam pensamentos, embaraçam o coração, fruto da orquestração bombástica do Bóbó.

- Eu gostaria que enxergassem em mim um pouco mais que clichés de ajustes necessários!
O homem é um doente e persiste. Vai para casa, ignora a família e começa a desenhar as estratégias visando fraquejar os seus adversários. Paranóia! Não procura nas entrelinhas desamarrar sua ideia fixa e cega.
- Espera que eu defina a maldade boa? Não posso, não sei, tenho mais que fazer!
- Acredito, nunca soube. Já devia ter levado uns puxões de orelha do seu chefe.
Posso contar um fato que ajudaria na compreensão:
Depois de muito tempo você reencontra alguém que já fez parte da sua vida. Tinha uma opinião formada sobre ele... jamais cogitou a possibilidade de uma nova aproximação. De fato, se reencontram... se redescobrem. E quando poderiam fazer outras coisas ditas casuais, preferem continuar conversando, ainda estarrecidos na descoberta de um alguém diferente. E caem as máscaras, os conceitos, as palavras... Fica, enquanto retorna para casa, aquela sensação de que é preciso mais tempo para entender a situação, para o conhecer um pouco mais... Afinal, quando um velho affair desperta um novo interesse não é por acaso... é um fato!

Então questiono-lhe:
- E onde está a maldade boa? Não a vê? [risos]
Ele está na conversa inflamada, que queria falar outras coisas ao seu jeito e interesse... e as fala por intermédio dessa sua utópica e demagógica sensualidade na oratória de mestre em “enganar meninos”... e olho no olho se descreve, tentando mostrar que os conceitos são falhos... e respondendo perguntas retóricas do jeito que só a maldade é capaz. Sendo mau querendo fazer o bem. Sendo bom fazendo o mal. No meio da conversa boba cravando espinhos, que podem ferir ou acalentar... Então, de volta ao seu mundo, lembra de alguém e se desconcerta. Sentindo falta de compreender o que confunde e, por isso mesmo, ficar confusa.

Mesmo podendo e querendo, se recusa a comparar os alguéns... por serem diferentes e iguais ao mesmo tempo... por confundirem seus pensamentos por motivos diferentes, mas da mesma forma.
Eu poderia tentar traduzir essa maldade que me povoa. Já fui ruim... já foi cínico... já fui um indigno... já fui… fica por aqui!

Só para não fugir ao meu estilo, deixo Nietzsche falar por mim: Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.
Afinal quem é o Bóbó? Resposta é omissiva pela justa e exclusiva razão, do irmão ainda ser presidente da junta da freguesia, apesar do seu partido não fazer parte do governo e peço perdão a todos, neste momento desejo ser não incomodado pela sua família, muito menos pela “matilha”ao seu serviço.

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