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As leis fundamentais da estupidez humana

Viver sem e-mail: um imperativo existencial?

As leis fundamentais da estupidez humana

Ensino

2021-04-07 às 06h00

Francisco Porto Ribeiro Francisco Porto Ribeiro

Opresente artigo baseia-se num livro de Carlo Maria Cipolla, de 1998, da Padrões Culturais (disponível na Bertrand). Cipolla (1922-2000) foi historiador de economia, na Universidade de Berkeley e Escola Normal Superior de Pisa (Itália). O conteúdo deste livro é uma partilha engraçada que revela algumas dúvidas que nos acompanham e que, normalmente, não temos respostas. Afinal, não estamos sós.
Mas antes de avançarmos no conteúdo é necessário definir conceitos e entender que se trata de uma leitura eclética. Por exemplo, segundo o autor, quando estamos perante alguém que nos causa, direta ou indiretamente, danos pessoais com proveitos para o(a) próprio(a), estamos perante uma pessoa sem escrúpulos, na linha da bandidagem. Por outro lado, se a situação se inverta e a perda é do(a) outro(a) reverte-se num ganho nosso, estamos, claramente, perante um(a) imbecil. O equilíbrio está quando o proveito é repartido entre as partes envolvidas, revelando que estar perante alguém inteligente. Mas esse não é nosso “normal”, uma vez que estamos rodeados de pessoas que nos fazem perder tempo, dinheiro, energia, “joie de vivre” ou alegria, saúde, etc., apenas para nos prejudicar sem tirar proveito algum e causando embaraços e dificuldades diversas, no geral, revelando uma índole de maldade (vide imagem 1). E perceba-se que, segundo Cipolla, o género não se aplica, ou seja, o conceito aplica-se ao género masculino ou feminino.
Posto isto, e segundo o autor, a classe dos estúpidos (sem ofensa a ninguém), posiciona-se num grupo de pessoas que têm, como característica, não serem organizadas. Seguem um modelo de vida baseada na ciência fantástica da “acheologia” (o termo não existe, é invenção minha), suportada nas perceções individuais de alguém que considera (acha, sem evidências para o efeito) que algo irá acontecer. Esta classe de pessoas revela, como característica comum entre todo(a)s, o facto de não terem qualquer associação, não se comprometem com lideranças porque essas ferem, de base, tão distinta classe. Acresce que não seguem estatutos, regras ou normas. Em resumo, os estúpidos, per si, conseguem agir em sintonia, quase como se fossem guiados por uma “mão invisível”, de tal modo é que as atividades de cada um dos membros contribuem, poderosamente, para reforçar e amplificar a eficácia de todos.
O autor, no seu estudo, interessante, identifica cinco leis (tónicas comuns) neste segmento de pessoas que, infelizmente, não é tão diminuto quanto isso (muito pelo contrário e aqui faço uma pequena reflexão pessoal para despertar as minhas defesas). Segundo o autor, a primeira característica é “sempre e inevitalmente, subestimamos o número de indivíduos estúpidos em circulação” (p.59). Pode parecer uma lei vaga, mas todos temos, certamente, experiências de pessoas racionais e inteligentes que se tornaram dramaticamente estúpidas, não sendo possível a sua quantificação. Já a segunda característica prende-se com a generalização e o facto de o(a)s estúpido(a)s encontrarem-se em todos os grupos, uma vez que “a probabilidade de alguém ser estupido(a) é independente das outras características que possua” (p.62). Existe uma percentagem de pessoas estupidas que se têm em demasiada consideração, porque estão inserido(a)s em grupos sociais, amplos ou restritos. O autor considera que a estupidez é uma prerrogativa de todo e qualquer grupo humano, distribuída de maneira uniforme, segundo uma proporção constante (p.63). Recordo aqui uma frase de Albert Einstein que dizia que “duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas quanto ao universo ainda não adquiri a certeza absoluta”. Não sou ninguém mas agarro-me a esta ideia de Einstein, e subscrevo. Continuando, o Cipolla apresenta uma terceira característica que se cola à definição de “estupidez”, por considerar que “uma pessoa estupida pode causar dano a outra pessoa, ou a grupo de pessoas, sem retirar qualquer vantagem para si, podendo até ter prejuízo” (p.70). Infelizmente, é um facto, uma evidência incontornável, que a maioria das pessoas estupidas preservam na sua vontade de causar mal e perdas aos outros, sem retirar benefício dessa ação indigna. Essas pessoas são muito perigosas e trata-se de estupidez sem limite, sendo uma razão desastrosa associar-se a pessoas estupidas. Agora, o alerta fica para o facto que os estúpidos conseguem influenciar, com intensidade muito variável, outras pessoas, chegando a alcançar posições de poder e autoridade (p.77). O poder político, económico ou burocrático aumenta o potencial de nocividade de uma pessoa estúpida, sendo que os estúpidos são perigosos, porque as pessoas razoáveis têm dificuldade em imaginar e compreender um comportamento estúpido (p.79). É um facto que, perante um indivíduo estúpido ficamos completamente à sua mercê (p.80). O autor alerta para outro aspecto importante, e que leva à reflexão pela sua gravidade, uma vez que que o(a) estúpido(a) não sabe que é estúpido(a) e só se revela quando estraga planos, destrui a paz, complica a vida, faz perder dinheiro, tempo, bom humor, respeito, etc. (p.81). Já os gregos diziam que contra a estupidez, até os deuses lutam em vão. Pois é, nem as entidades superiores estão livres desta praga e, infelizmente, este facto é tão verdade (vide imagem 2). Por isso é que a quarta característica defende que “as pessoas não estupidas desvalorizam sempre o potencial nocivo das pessoas estupidas”. Alerta para o facto de, de alguma forma, estarmos associados a pessoas estupidas porque o(a)s não estúpido(a)s esquecem, incessantemente, que em qualquer momento e lugar, em quaisquer circunstâncias, podemos estar associados com pessoas estupidas, refletindo-se em consequências negativas, que se pagam muito caro (p.84). A situação é tão perigosa ao ponto de ver que pessoas racionais e razoáveis têm dificuldade em imaginar e compreender comportamentos irracionais como os do(a) estúpido(a). Por fim, a quinta característica é que “o estúpido é a pessoa mais perigosa” (vide imagem 1), sendo pior que o bandido (p.85). Segundo o autor, se a sociedade fosse constituída por bandidos, esta ficaria estagnada e limitava-se às transferências de riqueza e de proveitos em prol de poucos, criando o desequilíbrio social. No caso da estupidez, a sociedade, no seu conjunto, empobrecia, seria um vazio e uma maldade muito grave.
Esta partilha serve, apenas, para alertar para o estado do mundo, cabendo-nos o direito de fazer a diferença. Quando jovem acreditava que poderíamos mesmo fazer a diferença, de tal modo que usei esse lema numa luta pela associação académica, na faculdade, sob o lema “a diferença somos nós”. Com a maturidade vieram os confrontos sociais e a constatação da estupidez humana. Por vezes, fico na dúvida de que lado estou, ou se o estúpi- do sou eu. Mas também, a dúvida faz parte da natureza humana e certezas abso- lutas (axiomas), só tenho duas: “a incer-teza do futuro e que a morte nos espe- ra”.

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