Correio do Minho

Braga, quarta-feira

As lágrimas de crocodilo de Passos Coelho

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

Ideias

2013-12-16 às 06h00

Artur Coimbra

O descaramento, na vida política, tem um preço: a absoluta descredibilidade de quem se quer fazer de fino. E é descaramento e pouca vergonha o que se passa, um pouco, à nossa volta, nestes dias de chumbo que estamos a atravessar.

Por exemplo: o primeiro-ministro Passos Coelho, há poucos dias, considerou que “os jovens portugueses são uma grande esperança para a transformação da economia portuguesa e que a sua qualificação será crítica para o fim da actual crise e para evitar novas crises” (citado dos jornais).

A desfaçatez foi ao ponto de “lamentar que muitos jovens portugueses tenham de emigrar para se realizarem profissionalmente”.
É preciso uma grande lata para produzir, solenemente e sem se rir, afirmações daquele jaez, sem lhe cair o telhado do Palácio Foz em cima. Foi lá que foram produzidas tais afirmações a roçar o cinismo, por altura da cerimónia de entrega dos prémios a associações juvenis.
Os jovens portugueses são uma grande esperança, e por isso Passos Coelho e a sua troupe imberbe lhes nega as condições para fazerem a sua vida em Portugal e os obrigam a emigrar para os mais díspares destinos onde possam prosseguir uma vida de dignidade que o seu país lhes nega. E quem diz o seu país, acusa o seu governo, obviamente…

É do consenso geral que a maioria dos jovens está a dirigir-se para o estrangeiro, porque Portugal, neste momento, os maltrata, desvaloriza e diminui; Portugal não oferece aos mais qualificados perspectivas de empregabilidade, num momento em que o desemprego juvenil atinge perto dos 40%, o que é uma tragédia colectiva; Portugal empurra, dramaticamente, os jovens para a emigração.
É este mesmíssimo governo que, a várias vozes, desde há dois anos e meio, tem vindo a “convidar” a juventude portuguesa a “deixar a sua zona de conforto” e a abalançar-se nos caminhos da estranja. Que não tem outro remédio perante o país de pedra e sem futuro que esta gente está a legar aos vindouros.

Depois, não apoia minimamente a natalidade e por isso os nascimentos atingem os valores mais baixos de há mais de cem anos. Um cenário catastrófico que terá funestas consequências, com o inevitável envelhecimento da população e a desertificação do país, sobretudo do seu interior, o que, de resto, já está a verificar-se sem apelo nem agravo.

A seguir, humilha e segrega os jovens professores contratados, fazendo-os passar uma ou duas décadas na mais absoluta precariedade (que não admite aos privados), sem direito a faltas, a férias e a assistência social e, não contente, determina, prepotentemente, um alegado exame para “aumentar a excelência do ensino”, mas que mais não visa que excluir do sistema o maior número possível de candidatos. É ridículo submeter a uma prova para saber se é competente para ensinar quem já ensinou anos a fio, a tempo inteiro ou parcial…

Até agora esses jovens docentes serviram; agora têm de provar que são competentes, determinam os incompetentes que nos governam, que não têm ao menos um pingo de decência e de dignidade para admitirem que o sistema não dá para mais e que não é possível continuar a acalentar mais esperanças. Que tenham a coragem de encerrar cursos universitários e, se necessário, faculdades e institutos que apenas formam licenciados de caneta e papel, os quais não têm a mínima perspectiva de empregabilidade nos próximos anos.

Mas não, esta gente não tem decência, não tem verticalidade e pensa que os portugueses são lorpas e que vão nos seus cantos de sereia.
Um governo que não se cansa de cortar nos ordenados e carregar nos impostos, fazendo com que muitos jovens qualificados, mesmo com emprego, concluam que não vale a pena trabalhar no seu país…
No fim, vem o primeiro-ministro derramar lágrimas de crocodilo, a lamentar que os jovens portugueses, que ele empurra para fora das fronteiras do país, ou para o desemprego, “tenham de emigrar”.

Obviamente, que os milhares de jovens que abandonam anualmente o país são activos que o pais “oferece” aos países de acolhimento e que muito dificilmente regressarão tão cedo (se é que algum dia o farão, numa altura de absoluta globalização…) às suas terras de origem, agravando a desertificação e o envelhecimento.

Mas com essa tragédia não está este rapazio interessado. Eles adoram, em primeiro lugar, os “mercados”, para os quais trabalham afanosamente dia e noite; depois, veneram os amados credores, que lhes garantem “credibilidade” directamente propor- cional à selvajaria dos sacrifícios que impõe aos povos, que não têm a mínima culpa do bandoleirismo financeiro que nos trouxer até aqui e que esta gente também integra; no final, se ainda houver final, poderá haver povo, se ainda houver povo… O que para esta gente, não tem a mínima importância, como se vê, pelas suas ultrajantes declarações quotidianas.

NB - A cientista Maria Manuel Mota foi a semana passada distinguida com o Prémio Pessoa, mas atribuiu esse galardão 'a todos os cientistas a fazer ciência em Portugal'. Em declarações à agência Lusa, a investigadora confessou que recebeu a notícia do prémio com 'completa surpresa'. 'Era algo que não imaginava que pudesse acontecer'.

Obviamente, com o lamentável desinvestimento que este governo tem feito no ensino superior e na investigação científica é de admirar que ainda haja gente que se distinga pelo mérito, pela criatividade, pela excelência, neste país. Mas os prémios credíveis nunca vêm do poder, mas da sociedade civil, que é a única força positiva capaz de gerar esperança no presente e no futuro deste país de nove séculos de História!...

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