Correio do Minho

Braga, quinta-feira

As festas precisam de novidades…

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2017-06-21 às 06h00

José Hermínio Machado

Estamos em pleno ciclo festivo dos chamados santos populares do mês de Junho, Santo António, São João e S. Pedro, três referências das dimensões religiosas e temporais dominantes na minha socialização e educação: o santo António, apresentado como o homem da palavra, o pregador, o difusor dos valores cristãos, mas o protector também dos animais e o casamenteiro, ou seja, o mensageiro da reprodução social, da manutenção e sustentação das condições de vida, o dinamizador de uma narrativa de coesão social; o são João, apresentado como o precursor, o anunciador de um novo paradigma de vida, o preparador de um caminho futuro, mas também o denunciador das arbitrariedades do poder e a vítima dessas arbitrariedades, concentrando em si as capacidades da renovação pessoal e social, com aquela narrativa da sua recusa em deixar-se seduzir por Salomé a causar toda a minha perplexidade juvenil; o são Pedro, o mais velho e o portador das chaves, apresentado como o fechador ou abridor das portas do céu, o distribuidor da recompensa final, o premiador do sentido da vida.

Estas ideias, resultavam dos sermões que as novenas faziam ouvir, mas também das histórias que emanavam da catequese.
Em termos de festividades, as marcas do primeiro concentravam-se na procissão de gado que se fazia à volta da capela, com a bênção final do mesmo e da população que o acompanhava; as marcas do segundo concentravam-se na organização da cascata, com ramagens de carvalho, com a fonte no meio; as marcas do terceiro estavam na feira de pucarinhos de Vila Real de onde minha avó trazia sempre umas miniaturas de barro e meu pai jogava o cântaro com vizinhos.
Os santos populares determinam as festas e estas é que são o pretexto para sair de casa e ver o mundo.

Nesta organização festiva, os armadores sempre foram a minha curiosidade de pequeno e ainda assim continuam a ser: a decoração das ruas e a dos andores eram um chamariz.
Depois as bandas de música, os cerimoniais religiosos, incluindo a procissão: comecei por pegar no papel dos músicos quando tocavam em roda, na rua, e foi na procissão de S. João que fiz o papel de S. José, com a serra ao ombro, a cabeleira da cabeça e o esplendor de metal que apertava as duas.
Nas festas havia a música, havia os doces, havia a comida melhorada, havia os convidados, havia roupa nova e calçado a estrear, havia gente de fora, havia os vendedores e feirantes, havia os emigrantes.

Recordo estes apontamentos e muito teria que dizer, mas o que me interessa vincar é que da minha infância até agora todas estas festas se continuaram a fazer e foram crescendo em tudo e mais alguma coisa, precisamente respeitando o princípio genesíaco da curiosidade das coisas novas que a festa abriga e precisa de conter para ser esse momento fulgurante das comunidades que a fazem.
As festas eram uma trabalheira, dentro e fora de casa, e assim continuam hoje, com a especialização e concentração das tarefas em poucos, os quais, mordomos ou festeiros, os da comissão, são sempre desafiados a fazer melhor que no ano anterior.

Ora é precisamente aqui, neste desafio a fazer melhor, que continuamos a chegar e que chegámos até, dado ter-se acumulado tanta diversidade de recursos e de procedimentos.
Antes da festa, muito se deseja, depois da festa, tudo se critica - dimensão social que também se mantém com todo o vigor de estímulo para as próximas.

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