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As feiras como património cultural

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As feiras como património cultural

Ideias

2020-11-04 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

As medidas de confinamento que foram decididas em reunião de Conselho de Ministros, de 31 de outubro deste ano, determinaram várias restrições às atividades económicas, nomeadamente algumas limitações na realização de feiras em 121 concelhos do território nacional. Trata-se de uma medida de prevenção sanitária devido à enorme propagação do vírus que nos afeta atualmente.
Segundo dados da Federação Nacional das Associações de Feirantes (FNAF), existem em Portugal cerca de 25 mil pessoas que dependem das feiras para o exercício laboral, setor que deve merecer de todos uma grande preocupação.
Com um grande desenvolvimento no nosso país a partir da Idade Média, época em que as cidades representavam o local ideal para os camponeses e artesãos venderam os seus produtos, as feiras desempenham, desde então, um enorme centro de comércio da população local e regional.
Na nossa região as feiras continuam a desempenhar um papel determinante nas economias locais e até familiares. Basta dar o exemplo da importância da feira de Braga, assim como da feira de Barcelos, que já vem desde o tempo de D. João I!
Para além da sua importância económica, as feiras desempenham também um papel de divulgação das tradições e dos costumes, bem característicos do nosso país e da nossa região.
Relativamente a Braga, é oportuno lembrar que, durante várias décadas, o local da realização da feira semanal de Braga era o Campo da Vinha, para onde convergiam, logo pela manhã de terça-feira, os mercadores concelhios, e outros, que se deslocavam de outras terras do Minho.
Nesse local acomodavam as suas tendas e exibiam os produtos que traziam das suas terras. A confusão instalava-se logo de manhã cedo: uma mistura de vozes e gritaria dos vendedores entoava (…) às quais se acrescentavam os trechos musicais transmitidos pelos altifalantes. Segundo Aníbal Mendonça, na obra “Folhas que reverdecem” (Braga, 1957) a imagem desse local era de “um imenso acampamento ou de soldadesca irreverente ou de ciganada rebelde, de lantejoulas esfarrapadas pelas pedras e pelos silvados dos caminhos”.
No Campo da Vinha encontravam-se as gentes e os gados, que se misturavam com toda a espécie de produtos, nomeadamente móveis (novos e usados), livros lidos e relidos, estatuetas mutiladas, oratórios e oleografias místicas, tapetes coçados, panos, tamancos, manufaturas das indústrias caseiras, bugigangas, louças, alfaias agrícolas, fruta, cereais, galinhas, porcos, cabras coelhos, pássaros, vários instrumentos de cestaria e de olaria, pés de couves e de outras culturas agrícolas, a “pedirem” que os lancem à terra.
Estes produtos eram expostos e impostos com “dialética fácil e pegajosa dos vendedores de elixires baratos” que tentavam ansiosa e desesperadamente vender e obter lucro.
A multidão de visitantes da feira de Braga ultrapassava o Campo da Vinha que, “movendo-se enche todo o vasto e pedregoso largo, trespassa as ruas próximas, atinge a Arcada, penetra na cidade como uma poeira erguida no espaço por vassoura invisível, o mulherio roda afoito na freima de aproveitar as horas velozes, os toldos, fixos em paus, na sua improvisação de saltimbancos marchando de Famalicão para Barcelos e depois para Vila Verde ou para a Póvoa de Lanhoso”.
Na altura, e devido à falta de higiene, o ambiente em que decorriam as feiras era propício à propagação de doenças, destacando-se aqui o sarampo, a tuberculose, as bexigas, a varíola e a febre tifoide, facto que preocupava muito as autoridades de então. Esta era uma realidade que resultava também das fracas habitações e da falta de salubridade geral.
Com muita frequência viam-se pessoas a varrer todo o lixo das suas casas para as ruas; viam-se porcos a passear livremente por algumas ruas da cidade; viam-se cavalos às portas das habitações, local onde chegavam a fazer as suas necessidades; viam-se as ruas cheias de lixo.
Atualmente a realidade é diferente. Devido à pandemia que nos atinge, a limpeza e a higienização chegou também às feiras e aos feirantes. Estes são obrigados a usar máscara e a procederem a um permanente asseio, quer do corpo quer do local onde estão a trabalhar.
A manutenção da realização das feiras, agora dependente das autoridades locais, deve merecer a nossa atenção máxima, por tudo o que representam na nossa sociedade, na nossa economia e até na nossa cultura.
Podemos entender o património como aquilo que deixamos às gerações vindouras. Refiro-me ao património de uma pessoa, de uma instituição ou de uma atividade. Neste sentido, torna-se urgente uma união de esforços que visem o reconhecimento e posterior classificação das feiras, das nossas feiras, como referência das nossas gentes, das nossas tradições, dos nossos costumes.
Creio ser esta uma boa altura para se proceder a uma junção de esforços das nossas comunidades, das nossas autarquias e das associações comerciais, no sentido de darem início a um processo de classificação das nossas feiras como um relevante Património Cultural.

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