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As eleições na América

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Ideias

2012-11-07 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

À hora a que escrevo, confronto-me ainda com o empate técnico entre Barack Obama e Mitt Romney apontado por diversas sondagens. É ingrato escrever-se sem rede, e todavia apenas a escassas horas dos resultados que ditarão quem será o 45.º presidente dos Estados Unidos da América.

No hipermercado de sondagens, de comentadores de serviço, de peritos convidados, de instrumentos de projecção e interpretação de resultados a par e passo, há muito por onde escolher, tanto que se torna difícil seleccionar informação e estruturar ideias. É nesse inesgotável hipermercado de teses, de opiniões, de sites e de relatos que encontro uma frase de um dos discursos de Barack Obama que só na aparência se fica pela simplicidade do sound bit eficaz.

No seu discurso de Setembro, passado frente à Convenção Nacional do Partido Democrata, Barack Obama fez questão em sublinhar que o que está em cau-sa no dia 06 de Novembro não é a escolha entre dois candidatos de dois partidos, mas antes a escolha entre duas visões fundamentalmente opostas sobre a América e o caminho que esta deverá tomar.

Na frase subentendem-se as visões que ele invoca. De um lado, uma América conservadora na sua avaliação moral do sujeito como cidadão, mas ultraliberal na avaliação daquele como agente económico; uma américa que desconfia das intenções do Estado sobre a economia de mercado, ao mesmo tempo que o isenta das responsabilidades sociais que crê deverem estar reservadas à sociedade imaginada como grande comunidade de entreajuda material e espiritual; uma América que pugna pela Liberdade como valor máximo do indivíduo perante o Estado, ao mesmo tempo que aceita a conformação daquele ao espartilho das regras e das convenções sociais, responsáveis por sua vez por uma visão menos tolerante da sociedade sobre a sua própria diversidade de condições.

Do outro lado, está uma América progressista na moral, mais próxima da sensibilidade europeia em matéria de Estado social e de responsabilidade pública pela efectiva consagração da igualdade de direitos; uma américa mais cosmopolita, mais consciente da sua multiculturalidade, mais confortável por isso com a sua pluralidade cultural, racial e social.

Barack Obama deseja acreditar que esta segunda América não lhe falhará no momento do voto para a escolha dos delegados que formarão o próximo colégio eleitoral, e que se lhe juntarão todos os americanos que gostam de se perceber como parte dessa imagem. Obama quer acreditar que esta América irá por isso aderir às suas propostas de acção para os próximos quatro anos de mandato.

Mas a grande incógnita à hora que escrevo é saber o que será afinal mais forte para o eleitor americano no momento de decidir: se a fidelidade a uma dada visão de América, que o levará a confiar no caminho que lhe for proposto dentro dessa mesma visão; se a adesão ao caminho que lhe parecer mais confiável na resposta à criação interna de riqueza económica e de recuperação externa da absoluta grandeza política de outros tempos, independentemente das visões de América que estiverem subjacentes ao caminho escolhido.
Por outras palavras, o que pesará no cálculo (se algum) do eleitor, as suas convicções e a sua leitura ideológica sobre a América, ou as percepções que faz sobre o presente e o futuro do seu bem-estar económico e social?

Pessoalmente, tenho reservas sobre a eficácia das propostas de ambos os candidatos na recuperação do esplendor americano, pela simples razão de que me parece que o tempo da América acabou. São outras, hoje, as geografias em que empresas e universidades europeias, por exemplo, perspectivam a sua alavancagem futura. Ao espaço americano não se aspira já com o mesmo fervor - não por o acharmos tão superior que seja assim legitimamente inacessível e nos faça desistir de nele entrar, mas simplesmente porque nos interesse hoje bem menos do que há quinze anos.

Ainda num registo pessoal, espero contudo que Obama vença. É que, para o bem ou para o mal, Obama ainda personifica uma certa concepção de Política que existe enquanto tal, ou seja, enquanto espaço com uma identidade própria que se manifesta, por exemplo, na valorização da retórica como instrumento legítimo de confronto de ideias e valores.

Pelo contrário, Romney está muito mais próximo de uma outra concepção de Política enquanto espaço descaracterizado, sem identidade própria, que repete no seu funcionamento a lógica de acção e de discurso do Mercado. Nessa concepção de Política (ou de não-Política, como julgo que deve ser chamada), o futuro da sociedade e do Estado é encarado na mesma linha de um desafiante teste a novos produtos financeiros, ou a soluções de recuperação de projectos empresariais.

Como qualquer CEO talentoso e zeloso do seu sucesso profissional em qualquer projecto, Romney da-ria certamente o seu melhor. Mas muitos americanos sabem que o melhor de um CEO é, não raras vezes, o pior de milhares de trabalhadores. O sucesso dos mercados não se compadece com rostos, exige números. Mas pode o mesmo dizer-se do sucesso de um Estado e de uma sociedade?

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